Museu d'Orsay quebra silêncio e rejeita rosto de A origem do mundo

A pintura de uma mulher foi apresentada esta semana pela Paris-Match como sendo uma parte perdida da pintura de uma vagina, de Gustave Courbet.

A pintura está exposta no Museu d'Orsay
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A pintura está exposta no Museu d'Orsay PASCAL GUYOT/AFP

Sendo sua política não comentar obras que são posse de particulares, o Museu d'Orsay, que alberga a obra, uma das mais famosas de Gustave Courbet, considera "fantasista" a tese de que existe uma outra tela com a face da mulher retratada em A Origem do Mundo - tese essa que fez a capa da revista francesa Paris-Match esta semana e que correu mundo.

O museu parisiense, que inicialmente tinha recusado comentar a pintura do rosto de uma mulher em aparente êxtase que o perito Jean-Jacques Fernier garantia ser a representação da cara da modelo de Courbet e que teria sido cortada na altura da sua entrega ao milionário turco que a encomendou em 1866, quebrou o silêncio em comunicado ao final do dia de sexta-feira.

"Recentemente desenvolveram-se hipóteses fantasistas em torno de A Origem do Mundo", descreve o museu na nota, que passa a elencar os factos históricos e as contradições em que incorre a teoria de que uma pintura comprada por 1400 euros num antiquário em Paris por um coleccionador anónimo será uma peça em falta de uma obra que, afinal, seria de outra dimensão e composição. "A Origem do Mundo é uma composição acabada e em caso algum um fragmento de uma obra maior", diz, sem margem para dúvidas, a instituição.

O museu não esquece o percurso sinuoso e por vezes misterioso da obra ao longo de cerca de 150 anos: "certas zonas de sombra subsistem na sua história. Mas há uma certeza, confirmada por todos os testemunhos do século XIX: o quadro visível em casa de Khalil-Bey, [o milionário turco-egípcio] que foi o seu primeiro proprietário e possivelmente quem encomendou a obra, era 'uma mulher nua sem pés e sem cabeça'", acrescenta o comunicado, citando a descrição do estadista e ministro francês Leon Gambetta, amigo do pintor e autor de uma das primeiras referências à polémica pintura.

Quando o Museu d'Orsay rejeita as afirmações de Fernier, autor do catalogue raisonné da obra de Courbet, fá-lo também com base no estudo do Centro de Pesquisa e Restauro a que a obra foi sujeita depois da morte da sua última proprietária particular, Sylvia Bataille, em 1993. Os dados então apurados permitem à instituição saber que tipo de tela - de tecelagem simples -, foi usada por Courbet ou que as tintas eram de origem industrial e que, portanto e nesse aspecto, "A Origem do Mundo apresenta características técnicas comuns, que se encontram em centenas de telas suas contemporâneas". Indicando assim a instituição que as conclusões a que chegou um laboratório sobre o quadro da face de uma mulher abandonada ao prazer, citadas pela Paris-Match e por Fernier, não podem ser a base para a certeza de que essa pequena pintura corresponda a uma parte perdida de A Origem do Mundo.

Vários peritos vieram a terreiro nos últimos dias questionar a possibilidade de este quadro que agora emerge na capa da Paris-Match seja, em primeiro lugar, parte de A Origem do Mundo e, em segundo lugar, que seja da autoria de Courbet - embora quanto a isto as opiniões sejam menos taxativas.