Crítica

Psico, mas pouco

Um divertimento ligeirinho, e nem sequer especialmente cinéfilo - como uma anedota explicada.

Hitchcock, apesar do título em género biopic, não trata de todo o Hitchcock, mas apenas daquele período, 1959/60, em que o cineasta se ocupou com o projecto de Psycho. Por outro lado, Hitchcock aqui não é só Alfred, é também, e muito especialmente, Alma, a sua mulher, tão protagonista como ele. Portanto, uma história sobre o “sr. e a sra. Hitchcock”, parafraseando o título de um dos mais bizarros filmes do “mestre do suspense” (falamos de Mr. And Mrs. Smith, de 1941). Nada indica que Sacha Gervasi tivesse esse filme em mente, mas se pensarmos que se trata da única incursão de Hitchcock pela screwball comedy, e que é a única genuína comédia conjugal da sua obra (que abunda em “comédias conjugais”, é certo, mas reflectidas em espelho deformador), é impossível não pensar nele: porque este Hitchcock só se safava se Sacha Gervasi tivesse unhas para carregar na tecla da comédia conjugal e não deixar de a pressionar, nem se deixar distrair com mais nada. Infelizmente não é isso que faz.


E o que faz não faz muito bem. Baseando-se num dos clássicos da literatura sobre Hitchcock (Alfred Hitchcock and the Making of Psycho, de Stephen Rebello), o que lhe interessa é a relação entre determinado momento da vida do cineasta e o filme que ele faz durante esse momento. Na prática, é uma “explicação” de Psycho à luz das idiossincrasias e demais tortuosidades do espírito de Hitch. E acaba por ser pouco mais do que uma anedota explicada, quer dizer, uma coisa que perde a graça. Explicada, ainda por cima, simplisticamente - Hitchcock podia, por exemplo, estar fascinado com Ed Gein (o serial killer), mas a fascinação pelo assassínio e pelo sadismo não a tinha ele descoberto com Gein. E as cenas em que Gervasi reconstitui a história de Gein (antes de o convocar para ser uma espécie de “confidente” de Hitch) são bastante lamentáveis pela sua inutilidade, parecendo existir apenas para criar um vínculo reconhecível entre Hitchcock e o mais “negro” folclore americano do século XX.

Anthony Hopkins, carregado de próteses e maquilhagem, está condenado a ser um boneco, por melhor que capte os maneirismos vocais de Hitch (que toda a gente conhece, por causa da série de TV), e isso neutraliza completamente o aspecto mais perigoso, mais ameaçador, da personalidade do cineasta. Ao pé do boneco, Helen Mirren (Alma) não precisa de muito para ter uma dignidade, algo magoada, de “grande dama”. Mas até por esse contraste a hipótese da “comédia conjugal” (todos têm ciúmes de todos: Hitch do amigo de Alma, Alma das actrizes de Hitch) merecia ser melhor explorada.

Hitchcock sai assim uma coisa bastante frouxa, um divertimento ligeirinho e nem sequer especialmente “cinéfilo”, provavelmente feito a pensar num público pouco familiarizado com a personagem e ainda menos com a sua obra. Mas se é para aprender sobre Hitchcock, só há um conselho: é ver os filmes dele, e ir à literatura, ao livro de Rebello, mas também ao de McGilligan, e antes deles aos memoráveis livros de Donald Spoto, que, esses sim, se alguém os filmasse (sobretudo The Dark Side of Genius) tinha nas mãos uma das mais negras comédias de sempre.