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Dhaka e o sorriso dos gémeos

“Standby” é um período de tempo em ficamos em casa ou no aeroporto à espera de um chamadinha do “crew control”. É um totoloto onde podem surgir jackpots interessantes, ou não

Dezembro foi o mês de reserva. Não tive um “roster” fixo - voos, folgas “standbies” apareciam à medida que os dias passavam. “Standby” é um período de tempo em ficamos em casa ou no aeroporto à espera de um chamadinha do “crew control”, que é como “Deus”, mandando-nos para qualquer lado. É um totoloto onde podem surgir jackpots interessantes, ou não. Uma incógnita expectante que tem a sua piada, o seu q.b. de emoção.

Dhaka, Bangladesh. Sempre quis lá ir visitar o Dhaka Project, uma instituição de caridade de uma hospedeira portuguesa. A quantidade de crianças que Maria da Conceição viu em condições de miséria incentivou-a a começar o projecto, proporcionando-lhes a oportunidade de sonhar na vida.

Infelizmente, a instituição, que é uma escola, estava fechada. “Mas hoje é sexta-feira!”, retorqui. Claro, os fins-de-semana são diferentes nesta parte do mundo. Sexta e Sábado são dias de descanso e Domingo é o início da semana, tal como no Dubai.

Perguntei à tripulação o que fazer naquelas 24 horas. “Nada! Não é seguro, fica no hotel!” Esbanjei euforia por tão enfadonha notícia. Fui ao restaurante com o intuito de “comer um bisonte”. Niels, um tripulante da África do Sul, juntou-se. Para meu espanto, falava fluentemente português, enfatizando a famosa dupla de palavrões começada por “f” e “c” num sotaque a roçar no europeu do leste. Viveu no Brasil. Fiquei contente, sabia que ele nunca iria perguntar se Portugal era na América do Sul. Às vezes tenho o náuseo desprazer de ouvir este tipo de perguntas merdosamente desconcertantes. Sinto-me capaz de fazer qualquer ignorante engolir um mapa e arrotar o hino nacional a seguir.

Ouvi uma segunda opinião do chefe de cabine: “Podes ir. Mas não te afastes!” Fomos então passear. O nosso “look” estrangeiro foi bastante convidativo às trocas comerciais. Dois gémeos vieram ao nosso encontro. Sabiam onde comprar boas marcas.

“Só queremos passear!” – disse.

“Tu, negócios..? – perguntou mostrando um maço de autocolantes.

“Não, trabalhamos no céu!” Niels tinha o outro gémeo entrelaçado no braço.

“Sim, sabemos. Vocês ´comida no avião´! (“You, plane food..”) – exclamou. Rimos. Além de salvar vidas e gerir espaço para malas, sim, servimos COMIDA no AVIÃO -“we ´PLANE FOOD´”.

Nada tenho de belo para descrever sobre Dhaka. Prédios abandonados, passeios em terra batida cheios de lixo, buracos de onde saía um cheiro a esgoto. Crianças e bebés dormiam ou brincavam descalços pela rua e uma névoa cinzenta cobria a cidade.

Os gémeos eram os nossos guarda-costas. Um deles queria ser dançarino e jogador de futebol. Adorava o Michael Jackson e mostrou-me os seus passos de dança, que acompanhei com um “moonwalk” bastante rasca. Fiquei desolada quando elegeu o Messi como jogador de futebol preferido. Persuadi-o para o Ronaldo. Perguntava sempre se eu estava feliz - “Se estás feliz, eu estou feliz!”, dizia. Não iam à escola. Ajudavam a família vendendo autocolantes.

Fomos buscar dinheiro. “O que querem do supermercado?”, perguntámos. Leite em pó e óleo para cozinhar foram os seus únicos pedidos.

“Estás feliz?” - perguntei.

“Sim ´sista´, muito feliz!” - respondeu.

“Se estás feliz, eu estou feliz!” - disse, afagando-lhe o cabelo.

Voltámos ao hotel. “Amanhã ´plane food´”, dissemos. Despedimo-nos com o coração nas mãos. Partiram mais felizes do que quando os encontrámos naquela mesma rua. Extraordinário como um pequeno gesto pode fazer o dia de alguém. Dar é um verbo tão mais grandioso que o receber propriamente dito e dois “sorrisos gémeos” valem por este e pelo outro mundo.