Devagar de Alcântara até ao Oeste

Sempre a prazo, sempre em risco de fechar, a Ler Devagar ganhou em Alcântara a solidez dos locais de culto. José Pinho está na livraria que ajudou a criar como em casa. Sempre à espera de poder acrescentar mais estantes até ao dia em que um cliente entre, lhe peça um livro, e ele já não tenha de responder: “não tenho”.

No sítio da música, o vidro embacia. Lá fora, caem gotas grossas qua abafam qualquer outro som e transformam as conversas em murmúrios. Na mesa do bar, dois rapazes escrevem em silêncio. Bem perto, três mulheres de idades diferentes, hesitam entre falar e ler páginas de livros que retiraram do escaparate da entrada. Não há eco que ande pelas enormes paredes.

Só a chuva e aquele olhar mais ou menos furtivo para os outros, tentando adivinhar diálogo pelo movimento dos lábios, as expressões nos rostos, saber da seriedade ou do atrito, ler as mãos. Não são assim tantos à volta.

É meio da tarde de um dia de semana que pede tudo menos passeio. Mas há tanta coisa de ficção naquele cenário. Pegar num livro, sentar numa cadeira, pedir um café e ir no embalo é o grande luxo no dilúvio de Lisboa, naquela tarde de quinta-feira. Há caixotes por abrir, lombadas que se vão juntar a uns milhares de outras. 40 mil, 60 mil. Há espaço. E tempo. A chuva cai em bátegas numa lonjura vertical difícil de calcular. Um, dois, três pisos abertos até ao telhado, de uma antiga casa de impressão que deu lugar a uma livraria que não é como quase nenhuma. Nos intervalos da chuvada ouve-se uma música, toada do oriente, que vem da aparelhagem à entrada e uma mulher bonita ensaia uma dança que não chega a sair por completo. Acende um cigarro, olha as prateleiras, fala com uma rapariga mais nova que anda de livros nas mãos. Decidem o sítio de cada novidade. Há banda desenhada a chegar e alguns livros com preços de saldo. “Manara a 2 euros e meio?! O melhor é enviar alguns para a Pensão Amor”.

O quase espanto é de José Pinho. Acaba de chegar e já está ao balcão, monitor de computador em frente, lê os e-mails. É um dos sócios fundadores e o administrador daquela livraria que quis ser diferente desde o dia em que abriu, há 14 anos, num canto do Bairro Alto, para vender livros que não era fácil encontrar nas livrarias já então tomadas pelas novidades. A Ler Devagar não queria ficar refém do tempo que passa cada vez mais depressa pelos livros. Num canto do bairro, no lugar de uma velha tipografia, um grupo de amigos conseguia o espaço para fazer o que queria. Um lugar de livros que privilegiasse o ensaio, o fundo de catálogo, a música; que previa o espaço para debate, o lançamento de livros, exposições; onde era possível beber um café, um copo de vinho em conversas sem hora para acabar.

Mas era um lugar a prazo, a cedência de um proprietário que um dia lhes iria dizer que teriam de sair porque a tipografia seria finalmente um condomínio para viver. José Pinho lembra essa génese com o sorriso do sobrevivente que está aí, apesar de todos os prognósticos serem bastante reservados desde o primeiro dia que se pôs à frente de uma livraria independente sem propósitos muito lucrativos. Sobreviver era a ideia e tem sido um modo de vida de que não se arrepende. Nada de lamentos, portanto, quando um dia, sete anos depois, lá veio o dono do espaço e a Ler Devagar foi embora dali sem saber para onde seguir com as dezenas de milhares de livros. Reabriu ainda na Rua da Rosa, num espaço mais pequeno, sem desempacotar todo o espólio. E por pouco tempo. Havia um casarão “por enquanto disponível” e lá foram, “longe de tudo, onde era quase impossível levar as pessoas”.

Em casa
Do Bairro Alto, as lombadas da Ler Devagar encheram estantes nas paredes de uma antiga fábrica de armamento transformada num espaço cultural com livros em volta. Quem sabe da história recente de Lisboa e da sua oferta cultural sabe desse milagre de recuperação. Sabe também que a Ler Devagar saiu de lá e está há quatro anos em Alcântara, na LX Factory, o antigo complexo industrial que se foi transformando num dos lugares mais animados da cidade.

Uma renda simpática, condições de exploração que prevêm atrair pessoas ao espaço através de um programa de animação que não se fica pela venda de livros. Concertos, exposições e o que a imaginação permitir levaram a Ler Devagar para Alcântara e concentrar-se ali, depois de andar meio itinerante, ou disseminada por vários espaços: a galeria Zé dos Bois, a Cinemateca…

Agora tudo ali e um espaço dedicado ao erotismo na Pensão Amor, no Cais do Sodré. “Quando chegámos não havia quase nada aqui. Mais uma vez estávamos fora do centro de Lisboa, num sítio que não era de passagem.”

José Pinho conversa de cigarro na mão. Mais uma vez, os prognósticos eram reservados quando se falava em sobreviver, ainda mais com a crise instalada. “O facto é que temos registado lucros”, nota. Não para falar de um negócio sustentado, mas de um modo de vida que está a dar para manter, apesar dos sinais exteriores de pobreza. “Nunca vivemos acima das nossas possibilidades”, ironiza o homem que não gosta mesmo nada de dizer a um cliente, “não, não temos esse livro”, porque sendo uma livraria especializada em fundo de catálogo é suposto ter de tudo. "É generalista”, justifica, mas isso levaria a uma longa história, como levou. A tarde estava para isso, para falar do que é viver como independente, sem pressas. “É suposto que tenhamos tudo e vamos tentando ter. Como vê, espaço não falta”, diz olhando em volta, para as muitas paredes que suportam muitas mais estantes. “Haja dinheiro para ir investindo”, brinca, e procura para comprar.

Dos cantos até à cidade do livro
Estamos numa das mesas do andar de cima, no canto que o músico e também sócio da livraria, Júlio Pereira, decorou com discos, vinil e CD, e algumas dezenas de livros dedicados ao tema. Junto ao expositor, uma meia dúzia de mesas e oito pontos de escuta.

Através das gotas que escorrem pelos vidros, vê-se uma rua estreita cheia de carros, gente a correr por um abrigo, vozes. Vida. A Ler Devagar está no centro do que é uma das referências da Lisboa contemporânea, cosmopolita, que se exporta em catálogos e publicações para turistas. “Se nos livros é considerado uma loucura o que estamos a fazer, imagine na música.” Sente-se bem naquele canto. Tranquilo para um cigarro com livro aberto. Quase sempre ensaio ou poesia. Canto para as pausas. Mais do que um local de trabalho, a livraria é, para José Pinho, um modo de vida. Muitos metros quadrados, centenas, uma escadaria que se divide em duas, dois bares, esculturas, a bicicleta voadora que é uma marca do espaço, uma dos mais emblemáticos a guardar livros. Não é conversa de português vaidoso. É o reconhecimento publicado no The New York Times, por exemplo, no guia da Louis Vuitton, em revistas de viagens e cultura.

É lá que José Pinho passa os dias. Do meio-dia à meia-noite, de segunda a quinta, às sextas e sábados até às duas da manhã, e aos domingos até às dez da noite. Conhece muitos dos rostos que por ali passam ou ficam horas a ler, a escrever, a conversar, sem nunca se sentiram obrigados a comprar, a consumir. “Este é um lugar para se estar”, sublinha aquele que por lá passa a maior parte do seu tempo. “Claro que todas as compras são bem-vindas”, ri, e sorri dos descontos que não pode fazer como fazem muitos livreiros. “Tudo o que ganhamos aqui é para investir aqui.” Daí a sociedade, vasta, que há muito deixou a duas dezenas de sócios-accionistas iniciais e já ultrapassa os 400. Todos com direito a dizer de sua justiça.

Ele, além do espaço, gere as vontades, que não são muito diferentes: conseguir manter este espaço com estas a características. Que se tem adaptado, assume. “Antes quase não tínhamos novidades, agora temos e cedemos a alguma exigência da procura.” Exemplo? À entrada, na primeira linha onde param os olhos. A Piada Infinita de David Foster Wallace; O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon; e, entre os dois calhamaços, outro, mais improvável naquela livraria, As Cinquenta Sombras de Grey, o best-seller de  E. L. James. “É a tal história de não gostar de dizer que não temos um livro quando um cliente pergunta por ele”, justifica José Pinho, reconhecendo, no entanto, que quem entra naquela livraria normalmente não vai à procura de best-sellers. “É um público com outras características”, sublinha, pouco depois de uma inglesa perguntar se havia alguma edição de Eça na língua de Shakespeare. “Vêm aqui muitos estrangeiros”, a livraria, já se disse, está na rota do turismo mais alternativo, cultural. José Pinho gostava de poder ter uma maior oferta para esse tipo de cliente, mas encolhe os ombros, não como quem se resigna, mas como um “por enquanto é assim e haveremos de fazer mais por isso”.

O sorriso é o de quem projecta sem revelar tudo. Segredo? “Gostar muito disto”, diz como quem diz que é coisa de malucos, que nunca viveu sem o risco de fechar e é assim que está nos livros. Puro prazer que quer levar a outro lugar, estender geografia. Loucura? Sim, ajudar a fazer uma cidade do livro em Óbidos. Está quase. De Alcântara ao Oeste não é assim tão longe. Claro que é um sonho, claro que é arriscado, mas isso não o faz desistir. José Pinho fala agora com a impaciência dos que querem concretizar e se dependesse dele, já não seria tão devagar até Óbidos .