Opinião

Viver entroikado, estou a precisar de cortar as unhas dos pés

Senhor primeiro-ministro Pedro Passos Coelho,

Confesso que não o pretendia incomodar nesta altura festiva. Estava mais virado para falar da pouca-vergonha do BPN depois de, na passada semana, ter visto a reportagem da SIC com assinatura de Pedro Coelho. Um excelente trabalho que revelou que os portugueses vão ter de pagar, além dos três mil milhões que já voaram dos seus bolsos, mais entre cinco e sete mil milhões de euros pelas fraudes cometidas por alguns no interior do banco, com culpa também dos que, fora dele, como os responsáveis do Banco de Portugal, andaram distraídos tempo de mais.

Só que, entretanto, vossa excelência resolveu escrever uma missiva aos portugueses, entre os quais eu me incluo. Já se tinha dirigido ao país no dia 25 para dizer que os sacrifícios serão transformados em breve em “novas oportunidades”, seja lá o que isso for. Não satisfeito, no dia 26 voltou a falar à rapaziada, desta vez de uma forma mais informal e através do Facebook.

Ainda pensei que a sua conta tivesse sido atacada por algum pirata informático ou que um seu assessor tivesse escrito a “facebocada” por si. Esperei um desmentido, mas nada. Pelos vistos foi mesmo o senhor primeiro-ministro que escreveu a coisa.

Depois de ler a missiva várias vezes, só me ocorreu fazer-lhe uma pergunta: Vossa excelência sabe que é o primeiro-ministro de Portugal?

É que a desgraça que traça naquela dúzia de linhas – sobre o Natal que não merecíamos, os pratos que não existiram na consoada e que estávamos habituados, as famílias separadas e as prendas que as crianças não tiveram – é, em grande parte, da sua responsabilidade.

Já se esqueceu que não tendo sido o dr. Passos Coelho a chamar a troika foi o senhor que entroikou a coisa. Quem aumentou os impostos? Quem foi o responsável pelo aumento do número de desempregados e de pobres? Quem cortou nos salários e nos subsídios depois de prometer que não o faria? Quem é que se enganou nas contas do país? Quem falhou as metas acordadas?

Foram você e o Governo por si chefiado os responsáveis por tudo isto. Não acredita? Pergunte a Paulo Portas que ele lembra-o.

Mais à frente escreve: “Já aqui estivemos antes. Já nos sentámos em mesas em que a comida esticava para chegar a todos, já demos aos nossos filhos presentes menores porque não tínhamos como dar outros.”

Vossa excelência comeu alguma coisa estragada na Consoada que lhe tirou a memória? Ainda há dias dizia que 2012 foi o pior ano desde 1974 e agora “já aqui estivemos antes”. Quando? Durante a II Grande Guerra?

Termina a “facebocada” pedindo “apenas” aos portugueses que “procurem a força para, quando olharem os vossos filhos e netos, o façam não com pesar mas com o orgulho de quem sabe que os sacrifícios que fazemos hoje, as difíceis decisões que estamos a tomar, fazemo-lo para que os nossos filhos tenham no futuro um Natal melhor”.

Há uns anos, um cronista do El País escreveu que percebeu que tinha de cortar as unhas dos pés depois de tantas vezes baixar a cabeça de vergonha ao ver um determinado programa de televisão. Foi o que me aconteceu na quarta-feira ao ler a sua mensagem. Estou a precisar de cortar as unhas dos pés.