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Carta Aberta à Disneylandia

Que a política/economia de hoje em dia ultrapasse as barreiras da lógica, já nos habituámos. Mas que habite com tanto à-vontade o país da fábula e da distopia, é algo novo, embora com um certo fedor Orwelliano

Aviso de spoiler: este texto pode conter passagens óbvias, claras e convincentes, acerca de uma realidade que qualquer um pode observar e constatar. No entanto, recomenda-se aos leitores que continuam a acreditar em contos de fadas, extrema precaução na sua leitura.

Chegou-se ao cúmulo do ridículo. Por um lado, houve gente que pensou que já lá estávamos. Por outro, gente houve que procurou ignorar e, quando muito, apenas observar (mas a uma certa distância de segurança). Mas, depois de se chegar aqui, passou o tempo de dizer BASTA! Hoje, importa perguntar “COMO É QUE É POSSÍVEL?”

Pertenço ao primeiro “grupo de gente”: quando no mês passado ouvi um coelho, na reunião liderada pelo eixo franco-alemão (que agora andam no clássico jogo do bom polícia/mau polícia), a dizer que referir as dificuldades que o país estava a atravessar não era coisa importante, tive a certeza que cúmulo maior (de ridículo, de falta de vergonha) não existiria. No entanto, quem não ficou ainda mais boquiaberto pouco depois, das duas uma: ou não tem boca ou não vive neste mundo.

Então porquê? Ora, nova reunião, e vieram os porta-vozes da oligocracia europeia (os nossos principais credores) dizer que melhorar as condições do programa de “ajuda” a Portugal levaria “os mercados” a deduzir que nós, Portugueses, estamos realmente condenados. Hem??!! Será que ouvi bem??!! Isso é o mesmo que dizer que, ao manter-se este programa que faz encolher a economia e atira para o desemprego jovens, velhos e famílias inteiras, faremos com que “os mercados” pensem que este é um país com futuro radiante!! A sério: COMÉ-QUÉ-POSSÍVEL que se façam declarações destas sem que a Lua pegue na sua trouxa e emigre para outro planeta?

Que a política/economia de hoje em dia ultrapasse as barreiras da lógica, já nos habituámos. Mas que habite com tanto à-vontade o país da fábula e da distopia, é algo novo, embora com um certo fedor Orwelliano.

Quem tenha dois dedos de testa já percebeu que a presente dívida dos países periféricos da União Europeia é impagável. O que ainda não se tinha percebido é que os países do Norte não estão interessados em que essa dívida seja paga. Eles, tal como nós, já constataram o óbvio: nem o Pai Natal nem a Fada dos Dentes existem, e os milagres hão-de ficar uma vez mais na gaveta.

Então, o que é que fazem? Como qualquer empresa num mercado aberto, o seu objectivo é destruir toda e qualquer oposição ou, não o podendo fazer, ao menos torná-la insignificante, dispensável. Preferem perder uma grande parte do seu investimento do que deixar que os outros países continuem à tona de água. Por isso exigem austeridade como moeda de troca, o que, paradoxalmente, torna ainda mais impossível que a dívida venha a ser paga. Dito em poucas palavras, dão-nos dinheiro apenas e só para garantirem que o coveiro tem tempo suficiente para acabar de fazer a cova e, não menos importante, estando Portugal lá no fundo, haver betão suficiente para, no fim, enchê-la até cima.

Não vamos pagar a dívida. Podíamos renegociá-la já, podíamos exigir uma moratória das prestações que pagamos e que nos permitisse investir durante cinco ou dez anos na produção nacional. Mas não, preferimos destruir o pouco que ainda resta do nosso país, preferimos deixar que os nossos jovens emigrem, preferimos esperar que os velhos mirrem e deixem uns ossinhos para roer. E, quando já não houver dinheiro para ninguém, aí sim, vamos renegociar a dívida. COMO? POR FAVOR, alguém me explique como…

É caso para dizer: com um governo destes, quem precisa da Merkel?