“As pessoas que vivem sozinhas convivem mais”

O sociólogo Eric Klinenberg dedicou-se à análise dos que vivem sozinhos e analisou "a tendência social mais importante desde o baby boom". Entrevista do segundo bloco família-viver sozinho da série Conversas de fim de ano.

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Rona Talcott

Depois de fazer investigação sobre as mortes causadas pela onda de calor em Chicago em 1995 e de escrever Heat Wave: A Social Autopsy of Disaster in Chicago (2002), que ganhou inúmeros prémios, o sociólogo Eric Klinenberg dedicou-se à análise dos que vivem sozinhos.

 O resultado de mais de 300 entrevistas deu origem a Going Solo: The Extraordinary Rise and Surprising Appeal of Living Alone, publicado em Fevereiro, e que originalmente era para se chamar Alone in America – mas durante a pesquisa, o sociólogo descobriu que na verdade as pessoas que vivem sozinhas não estão nada sozinhas, convivem mais que os casados e esta é uma tendência mundial e não apenas americana.

Klinenberg, professor na New York University e editor da revista académica Public Culture, desconstrói vários mitos à volta de quem vive sozinho e identifica isto como uma das maiores tendências sociais desde o baby boom, tão forte nos Estados Unidos como na Europa. Nos EUA, um em cada sete americanos adultos vive sozinho, mas esse número é ainda maior no Japão – 30% das casas – na Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca sobe para 40 a 45%. Em Portugal, o número de pessoas a viver sozinhas triplicou desde 1960 e aumentou 37,3% nos últimos dez anos – representam 21% dos agregados familiares.

Porque considera que viver sozinho é uma das tendências mais importantes desde o baby boom?
Porque mudou a forma como vivemos. Durante séculos e até meados do século XX, vivemos em unidades familiares relativamente pequenas, portanto não temos muita experiência de viver sozinhos. Agora tornou-se tão comum que as pessoas têm de mudar a forma como vivem – temos que tomar novas decisões sobre se é melhor viver sozinho ou com a família quando se é mais novo, sobre se se fica num casamento infeliz, sobre se se vive sozinho ou se se vai viver de novo com a família quando se envelhece. É uma mudança profunda para nós como indivíduos mas também para as cidades, que precisam de ser redesenhadas para ir ao encontro das necessidades das pessoas que vivem sozinhas. A arquitectura das cidades mudou: temos apartamentos mais pequenos e as pessoas querem ter espaços públicos maiores onde se possam encontrar, porque quem vive sozinho não quer ficar sozinho, quer socializar. Quando as cidades são bem desenhadas e promovem isso recolhem benefícios económicos – as pessoas que vivem sozinhas estão mais disponíveis para sair e gastar dinheiro, ir a espaços públicos, bares e restaurantes.

Uma das coisas que critica não é justamente que as casas não estão preparadas para quem vive sozinho?
Isso é especialmente verdade nos subúrbios americanos e em muitas outras cidades em que as casas familiares são grandes. As pessoas que querem ir viver sozinhas sentem que as casas não se ajustam às suas necessidades, porque são grandes demais, exigem que se tenha carro, não há áreas centrais onde possam encontrar-se com pessoas. Muitas das cidades americanas foram construídas para famílias.

Falando desta tendência numa perspectiva global, quem são as pessoas que vivem sozinhas, podemos falar de um grupo?
Têm dinheiro e vivem em sociedades ricas, porque viver sozinho custa dinheiro, não se encontram pessoas a viver sozinhas em países e bairros pobres. Tendem a viver em cidades porque são sítios onde se pode viver sozinho mas continuar ligado a outras pessoas, enquanto se se viver nos subúrbios ou numa zona rural há tendência ao isolamento. Tendem a ser mais mulheres do que homens – por exemplo, nos Estados Unidos há mais 4 milhões de mulheres do que homens a viverem sozinhas, mas isso porque tendem a viver durante mais anos do que os maridos. Mas abaixo dos 50 anos há mais tendência dos homens a viverem sozinhos.

Quais são as especificidades culturais?
É menos comum viver-se sozinho em sociedades onde não há liberdade e independência das mulheres. Há vários países do Médio Oriente onde há riqueza mas não liberdade para as mulheres e nesses sítios quase ninguém vive sozinho.

Identificou quatro factores que levaram a esta tendência: a ascensão das mulheres, as revoluções da comunicação, urbanização e longevidade. Pode explicar?
A base fundamental é ter dinheiro, seja adquirido no mercado ou através do Estado social. Quando as mulheres entraram no mercado de trabalho isso mudou a forma como as famílias funcionam, mas significou que deixaram de depender dos homens – por isso a idade do primeiro casamento sobiu, as taxas de divórcio também, e as pessoas ficaram com muito mais liberdade para procurar o tipo de relação que querem. Diria que este factor é muito importante.

A revolução da comunicação também: a televisão, os telemóveis, o Facebook, o Skype etc significa que as pessoas podem viver sozinhas mas continuar ligadas ao mundo de forma muito intensa, ou seja, viver sozinho não é uma experiência de isolamento.

A urbanização: se se vive sozinho num bairro urbano provavelmente está-se rodeado de pessoas na mesma situação. Nas grandes cidades americanas e europeias 40 a 60% das casas têm apenas uma pessoa e em alguns bairros essa percentagem ainda é mais alta porque as pessoas tendem a agregar-se em clusters. Estes são sítios em que viver sozinho pode ser, de facto, uma experiência social muito intensa.

O último factor é a revolução da longevidade porque as mulheres estão a viver mais tempo que os seus parceiros durante muitos anos, portanto isso é uma grande quantidade de tempo sozinho, como se fosse uma nova etapa da vida.

Como é que essas tendências irão evoluir, tendo em conta o impacto da crise?
Na verdade as crises tendem a aumentar o número de pessoas que vivem sozinhas porque são péssimas para os casamentos, que descem porque as pessoas não querem assumir a responsabilidade pela outra pessoa, ou acabam em divórcio. As percentagens de pessoas a viver sozinhas só descem se a situação for mesmo terrível – e aí voltam a viver com a família.

Ouvimos muitas histórias sobre isso nas notícias hoje em dia, mas nos EUA não tem acontecido - pelo contrário, há mais pessoas agora a viver sozinhas do que antes da recessão. Em Portugal, Espanha, Itália é possível que a situação seja tão dramática que as taxas tenham baixado. Outra coisa que pode ter enormes consequências é o estado providência: se colapsa e os apoios da segurança social e de saúde aos mais velhos descerem será muito complicado viverem sozinhos e terão que se mudar para casa dos filhos.

Diz que esta nova tendência está a mudar a forma como olhamos para as relações mais íntimas: de que forma?
Se vivermos num mundo em que a maior parte das pessoas vive sozinha, e se está infeliz na relação amorosa, é muito mais fácil acabar e viver sozinho também. Mesmo uma pessoa que hoje não viva sozinha, o facto de ser tão comum muda a forma como encara a relação ou casamento actual.

Ainda não é grupo-alvo de mercado?
Quem vive sozinho faz muito mais parte do mercado e consome muito mais do que a maioria das empresas pensa. Estão a gastar e a alimentar as economias das cidades há muitos anos e as empresas que se dirigiram a este grupo estão a fazer imenso dinheiro, com produtos que vão de embalagens pequenas de comida a pacotes de viagens, de casas mais pequenas a todos os serviços personalizados.

Que consequências é que esta tendência terá?
É muito cedo para dizer. Há quem acredite que o aumento do número de pessoas a viver sozinhas está ligado a factores como a atomização, o declínio das comunidades. O que descobri é que viver sozinho tende a acontecer em sítios onde há uma maior vida colectiva, um estado social mais generoso e é a nossa interdependência que torna possível a nossa independência - é um sinal da nossa conectividade não do nosso declínio social. Não sei qual será o impacto da crise, mas sempre que podem, em todo o mundo, as pessoas vivem sozinhas.