Reportagem

Ateou o fogo, saiu. E ligou à sogra a confessar que tinha matado os filhos

Autoridades procuram mulher suspeita do homicídio dos seus dois filhos, de um e três anos de idade. A pequena aldeia do concelho de Alenquer onde tudo sucedeu está em estado de choque.

Foto
Bombeiros dizem que o quarto onde estavam as crianças estava trancado Helena Colaço

Na íngreme Rua do Forno da Telha, em Preces (Alenquer), os vizinhos das portas ao lado da de Kelly não conhecem sequer a cara da mulher (de nacionalidade brasileira) que ali foi viver vai para quase dois anos com o companheiro, quanto mais o seu nome. No café da colectividade da terra, a poucos passos, o mesmo. "Era tipo bicho do mato. Nunca saía de casa nem falava com ninguém", descreve a vizinhança.

Por isso, até há poucos meses nem Henrique, de três anos, nem Rafael, que completaria um ano amanhã, sabiam o que era brincar com outros meninos. Os filhos do casal luso-brasileiro só conheceram o infantário porque "a médica de família disse à mãe que ela não estava em condições para tomar conta das crianças". O relato é da idosa que cedeu gratuitamente ao casal a acanhada casa de duas divisões em Preces, uma aldeia perdida nos montes no concelho de Alenquer.

Gertrudes dos Santos sabia que já não conseguiam continuar a pagar a renda de 500 euros pelo apartamento que antes ocupavam, ali a uns quilómetros, e como o companheiro de Kelly era filho da terra emprestou-lhes a casinha. Que as coisas não andavam bem entre eles, Gertrudes também não o ignorava: "Quando o miúdo mais velho fez um ano engalfinhou-se à porrada com ele porque queria que ele se fosse embora com ela para o Brasil". Empregado do pai numa oficina de reparação de automóveis em dificuldades, o companheiro, de 40 anos, resistiu. Não queria abandonar o pai, que é hemodialisado.

E ela, que já tinha vivido em Lisboa, continuou a passar os dias trancada em casa, sem abrir a porta a ninguém, armando zaragata da grossa por ele passar mais tempo na oficina do que com a família. "Quando ele chegava tarde a casa ela partia tudo", descreve um colega da oficina. "Até um computador partiu. Há uns tempos esteve cá a mãe dela, vinda do Brasil. Nem sabia que a Kelly tinha arranjado companheiro e filhos".

O pai das crianças "tinha que aproveitar todos os biscates, mesmo ao fim-de-semana, para dar de comer aos filhos", justifica Margarida Manuel, outra habitante de Preces. "Chegou a desabafar que às vezes não conseguia aturar as exigências dela de terem um nível de vida diferente".

O telefone tocou
Quando o telefone tocou na oficina de automóveis, quarta-feira à noite, o avô das crianças não podia imaginar a cena macabra que iria ter de enfrentar pouco depois. Kelly, que foi vista depois das 21h a abandonar a aldeia com uma mala de trolley, havia telefonado à avó das crianças depois de trancar as portas de casa à chave, ateando fogo a uns trapos e deixando os filhos lá dentro. "Ligou à minha mulher e disse-lhe: "Já matei os seus netos"", conta Américo Português. 

Como ninguém conseguia entrar na casa, foi preciso esperar pelas autoridades e pelos bombeiros. Quando chegaram era demasiado tarde: apesar das tentativas de reanimação os irmãos acabaram por não resistir. "Matou-os o fumo das roupas que a mãe deixou a arder", prossegue o proprietário da oficina. "Ela isolava-se, tinha paranóias. Não abria a porta de casa a ninguém, nem mesmo uma vez que lá foi a assistente social a casa ela abriu".

Quando o casal foi aconselhado a colocar os meninos no infantário, era o pai que os levava. "Ele era pai e mãe: se era preciso irem ao médico, ou à vacina, era ele que ia com eles, assinala Gertrudes dos Santos. Margarida Manuel conta que quando as crianças chegaram ao infantário se escondiam dos colegas, com medo de tudo e de todos.

A GNR e a PJ alargaram quinta-feira a todo o país as buscas à mãe das crianças, lançando alertas às autoridades fronteiriças, já que a progenitora é estrangeira. As buscas incluem agentes da Judiciária, que assumiu a investigação do caso, e militares da GNR. As autoridades mantinham na quinta-feira todas as hipóteses em aberto, incluindo a eventualidade de a mulher ser encontrada já sem vida. Nas buscas participam brigadas cinotécnicas.

"A informação que temos dos bombeiros é que o quarto onde se encontravam as crianças estava fechado, com a porta trancada e sem chave", relatou o comandante operacional municipal de Alenquer, Rodolfo Batista. "O incêndio foi extinto muito rapidamente, em dez minutos. Havia era muito fumo e foi mais difícil chegar às crianças", explicou, frisando que, segundo os bombeiros, o fogo consumiu essencialmente um amontoado de roupa e um colchão do quarto. O pai das crianças só nessa altura chegava a casa. "Tinha ido ao ginásio, a Alenquer", refere Américo Português. "Tinha lá passado antes para deixar leite aos meninos".

A família não estava referenciada como carenciada na Câmara de Alenquer, disse à agência Lusa o presidente da autarquia, Jorge Riso. A população de Preces tenta recompor-se. Mas na quinta-feira na festa de Natal da GNR quase ninguém tocou na comida.

Outros casos
Casos de mães que matam os filhos são raros, mas não inéditos. Isso mesmo aconteceu em final de Agosto, em Castro Marim, no Algarve, quando uma dentista terá pegado fogo a um quarto da sua casa onde se fechou com a filha de 11 anos e o filho de 13. Morreram todos.

Em Outubro de 2009, uma outra mulher com uma depressão prolongada atirou-se ao rio Douro, em Vila Nova de Gaia, com o filho de seis anos que acabou por morreu. Ela foi resgatada.

Parece estranho, mas matar os filhos pode ter sido para estas mulheres um acto de altruísmo. Uma prova de amor. Quem o admitia em Agosto era o psiquiatra Pedro Afonso, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. "Isto acontece em depressões muito graves que, por vezes, apresentam sintomas psicóticos. A pessoa sente um enorme sofrimento e acredita que este também é vivenciado por outros que lhes são próximos. A morte surge como uma libertação e até uma prova de amor", explicava Pedro Afonso. E acrescentava: "Claro que isto revela uma visão distorcida da realidade".

O médico lembrava que as depressões graves têm que ser acompanhadas por especialistas, para ser avaliado o risco de suicídio. Neste caso, contudo, o desfecho da história ainda não é claro. A polícia ainda tenta encontra a mãe das crianças com vida, mas as expectativas vão-se diluindo. Os psiquiatras realçam: quando há sinais alarmantes é preciso tomar medidas. Por vezes, justifica-se o internamento compulsivo.

Título alterado às 11h59: substituído "tinha morto" por "tinha matado"