Farmacêutico manda para a troika medicamento mais barato que pastilha elástica

As baixas sucessivas do preço dos remédios decretadas pelo Governo estão a levar as farmácias ao colapso. Há fármacos que já custam menos que uma trivial pastilha elástica.

A Associação Nacional de Farmácias é ouvida esta quarta-feira na AR sobre a “crise avassaladora” do sector
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Farmácias têm vindo a contestar política governamental Pedro Cunha/Arquivo

Para atestar o “iminente colapso das farmácias” em Portugal, um “humilde” farmacêutico de Guimarães decidiu mandar para várias entidades — Presidente da República, primeiro-ministro e membros da troika incluídos — a prova de que um medicamento para o colesterol pode actualmente custar “menos 38%” do que uma trivial pastilha elástica.

Numa carta acompanhada de uma embalagem com 60 comprimidos de um genérico de sinvastatina e de uma caixa de pastilhas elásticas, Fernando Monteiro, auto-intitulado “cidadão da província”, faz umas contas simples: “A embalagem de pastilhas elásticas que tem na sua mão custou 68 cêntimos, o que se traduz num preço de venda ao público de 6,8 cêntimos por pastilha. A embalagem do popular medicamento para o colesterol custa 2,54, o que se traduz num preço de 4,2 cêntimos por comprimido”. O farmacêutico da Farmácia Barbosa manda os dois recibos para que não restem dúvidas.

“Como é que isto é possível sabendo que, ao contrário das pastilhas elásticas, os medicamentos exigem longos anos de desenvolvimento, ensaios clínicos, ensaios de efeitos secundários, das contra-indicações, recursos humanos com formação superior para a sua dispensa e aconselhamento, logística controlada, farmácias de serviço permanente abertas 24h/dia, 365 dias/ano, etc.?”, indigna-se Fernando Monteiro. “E se a sua farmácia tivesse optado por mudar de ramo e vender pastilhas elásticas, onde é que V. Exa. iria procurar o seu medicamento?”, pergunta ainda.

Defendendo que está nas mãos dos políticos, caso estes estejam “verdadeiramente interessados na saúde dos portugueses”, “impedir o colapso das farmácias”, desafia-os a dizer se concordam ou não que a política do medicamento em Portugal está “distorcida e insustentável”. E acrescenta: “Não se esqueça: no futuro V. Exa. também precisará de medicamentos e de farmácias. Depois não diga que não foi avisado”.

Ruptura de stocks

Na missiva, o farmacêutico chama também a atenção para um problema suplementar, o da ruptura de stocks. Anexa, para tal, cópias recentes de duas facturas de grandes empresas grossistas de medicamentos. “Dos 95 medicamentos que pedi, só me foram fornecidos 20% [os restantes aparecem nas facturas como “esgotados” ou “em falta”]. Fantástico! Se fosse V. Exa. ou alguém que lhe seja próximo que necessitasse de um destes medicamentos em ruptura de stock, como é que se sentiria ao não encontrar o medicamento na sua farmácia?”

Nem de propósito. Esta quarta-feira, a Associação Nacional de Farmácias tem audiência marcada na Comissão Parlamentar de Saúde para (lê-se na agenda do parlamento) expor as suas preocupações “com a crise avassaladora” em que se encontra o sector e “que está já a ter consequências graves no acesso dos doentes a medicamentos essenciais”.