O cartoonista que tem vergonha das palavras

Foto
ENRIC VIVES-RUBIO

Bem dita crise! reúne 60 cartoons feitos nos últimos anos para o Inimigo Público. Conversa com António Jorge Gonçalves, autor que se dá bem com as palavras dos outros, mas tem medo das suas palavras

António Jorge Gonçalves está sentado ao estirador, onde muitas das ideias começam a passar para o papel. É no atelier, onde agora há muita luz e cheira a chá verde, que o autor que conhecemos das ficções do singular detective Filipe Seems e do trabalho para teatro, dança e performance digital passa boa parte do tempo, entre livros, redes sociais e sites de informação. Os passeios pela cidade, nas ruas e nos transportes públicos (é dele o projecto Subway Life), são também matéria-prima para um corpo artístico que só em 2003 começou a agarrar-se à realidade, ainda muito a custo. Bem dita crise! (editora Documenta), o seu livro mais recente, é uma espécie de diário cívico de maturidade de alguém que, quase sem dar por isso, se transformou num cronista gráfico original e acutilante, sempre atento à política doméstica e internacional, aos seus protagonistas e, sobretudo, aos seus reflexos sociais.

"A relevância é o meu chicote: procurar no meio de assuntos complexos, um desenho que dê-a-ver qualquer coisa essencial", escreve Jorge Gonçalves no novo livro, que reúne uma selecção de 55 cartoons dos cinco mil que terá feito nos últimos nove anos, período em que todas as semanas o Inimigo Público, suplemento satírico do PÚBLICO, tem vindo a publicar os seus trabalhos. O conflito israelo-árabe, a situação inaceitável do Tibete, o radicalismo islâmico e o radicalismo-ocidental-por-causa-do-radicalismo-islâmico, a ofensiva chinesa em todas as frentes, os abusos da igreja católica e da sua cúria, o descalabro dos mercados, a "ditadura" da Europa comum, os protestos virtuais e o desfile por vezes patético de presidentes e ministros são alguns dos alvos de Bem dita crise!. "Nunca penso ‘se calhar desta vez fui longe de mais'", admite o ilustrador, referindo-se aos seus desenhos (é esta a palavra que prefere, raramente fala de cartoon ou de caricatura). "O bom cartoonista tem de ser irresponsável. Se não o for, a coisa não funciona. Não posso trabalhar se a noção de limite estiver sempre na minha cabeça." Uma noção, reconhece, que faz parte da sua educação de matriz católica, que vem muitas vezes à conversa, mesmo que o assunto seja poesia, arte, literatura ou filosofia, constantes fortes na vida de António Jorge Gonçalves. "Admito que a religião organizada é um dos meus ódios de estimação e, talvez por isso, ela apareça tanto nos meus desenhos. Irrita-me que a igreja conte com o facto de as pessoas serem acomodadas e acríticas, irrita-me a sua hipocrisia", diz, explicando que, tal como escreve em Bem dita crise!, tem todos os requisitos necessários para se transformar num moralista insuportável: é ex-católico e ex-fumador.

Um certo grau de eficácia

Quando aceitou começar a trabalhar para o Inimigo Público mal lia jornais e não via televisão. Hoje a sua rotina diária é atravessada por informação porque o cartoon político é escravo dos temas reconhecíveis da agenda nacional e internacional e só resulta se as pessoas tiverem à mão os referentes para o descodificar. Para preparar o que vai entregar na quarta-feira e será publicado à sexta, o ilustrador começa por ver os resumos dominicais dos comentadores televisivos. Ao contrário destes opinion-makers, que "parecem actores com papéis a cumprir, seguindo um guião preciso, tal como a crise mundial o faz, desde 2008", Jorge Gonçalves tenta não ter uma grelha fixa de leitura do real. Sabe que não se pode ter uma opinião interessante sobre tudo, sempre, mas tem estratégias para garantir aquilo a que chama um certo grau de eficácia.

Primeiro há que não ficar limirado ao "circuito autofágico dos jornais", depois é preciso deixar que o desenho aconteça, em parte, entre a caneta e o papel. "Algo se passa do cérebro para a mão ou da emoção para a mão. É um automatismo que não posso domesticar. Às vezes a mão mostra-me qualquer coisa de repente que é estranha ao meu consciente. É por isso que desenho primeiro à mão e só depois passo para o computador. Preciso do atrito, do acto físico de pôr a caneta sobre a folha. O [pensador austríaco] Rudolf Steiner dizia que um raciocínio não está completo sem um desenho e eu gosto de acreditar nisso." Pensar depois de fazer é uma experiência que vem com a idade, acrescenta. Aos 48 anos, Jorge Gonçalves, parece cada vez mais preparado para a autocrítica, a auto-ironia e o inesperado.

"No princípio do Inimigo... achava que um cartoon era fazer um trocadilho ou um comentário jocoso e já estava. Mas rapidamente percebi que um bom cartoonista toma partido, dá opinião, garante ‘eu estava lá e vi'." Dizer o que se pensa foi algo que aprendeu cedo. Fez a primária ainda no Estado Novo e lembra-se bem de ir para a rua com o pai e os irmãos para participar nos comícios do 1.º de Maio. "No PREC havia um sentido de comunidade que se perdeu. Hoje há muitas comunidades virtuais, mas perdemos a noção do que nos cose. E esta crise mostra isso."

O que os cartoons de Jorge Gonçalves também revelam, para além de um olhar inteligente e mordaz, é que, numa sociedade eminentemente católica, a utilização do sexo, do lado bestial e grotesco, resulta, porque mexe com referências, mesmo quando já não temos nada a ver com elas, e perturba. "O lado icónico também é eficaz. Um bom cartoon, como o do António com o Papa e o preservativo no nariz, transforma-se num ícone do momento. Um bom cartoon é como um haiku da BD, tudo tem de ser feito de uma estocada, com um gesto preciso e rápido que é o resultado de um processo que pode ser muito misterioso."

O trabalho do autor na área do teatro e da performance (cenários, figurinos, criação digital em tempo real), que começou com a peça O Que Diz Molero, em 1994, encenação de António Feio de um texto fundamental do irrepetível Dinis Machado, vem ao de cima em grande parte destes "gestos rápidos": diagonais na disposição das personagens, gestos coreografados dos protagonistas, iluminações cuidadas. "Acredito que a imagem fixa predispõe mais ao movimento interior do que a imagem do teatro ou do cinema. É esse o poder da pintura e dos ícones religiosos: eu olho Cristo, Cristo olha-me e é nessa relação que alguma coisa acontece, não importa o quê."

Desde os 14 anos e até ao Inimigo Público, António Jorge Gonçalves só desenhou histórias inventadas. "Nos dois primeiros anos de cartoon dava cinco tiros na água por cada tiro num submarino. O facto de o trabalho para a imprensa ser uma coisa descartável, que dura uns segundos, custava-me. Estava habituado aos livros, a ter um objecto que nos sobrevive. Um livro é cozinhado, precisa de tempo para testar ingredientes e só deve ser servido quando está perfeito porque pode regressar anos depois, o que é desconcertante." Quase tanto como ter de escrever, como em Bem dita crise!. Construtor compulsivo, o ilustrador tem tendência a fugir das palavras e admite sentir-se derrotado quando tem de as usar. "Tenho uma relação difícil com as minhas palavras, talvez porque me dou muito bem com as dos outros. Têm um peso enorme: agredimos com as palavras, amamos com as palavras... Acho que entendo porque é que o Almada [Negreiros] parou de escrever mas não parou de desenhar. Eu também só tenho medo e vergonha das minhas palavras."