Arqueologia

Serão caravelas? Galeões? Há velhos navios enterrados sob a Av. 24 de Julho

Ainda é cedo para perceber por onde andaram os navios
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Ainda é cedo para perceber por onde andaram os navios Helena Colaço

Duas embarcações seiscentistas surgiram durante as obras para a construção da nova sede da EDP, no Aterro da Boavista. Por enquanto, ainda é cedo para determinar o seu valor patrimonial e o seu destino.

Vestígios de dois navios do séc. XVII foram descobertos pelos arqueólogos que estão a acompanhar as obras destinadas à construção da sede da EDP na Av. 24 de Julho, em Lisboa.

Serão caravelas experimentadas nas duras travessias rumo a terras longínquas? Galeões um dia envolvidos em batalhas e nos ataques dos corsários dos mares? Ou que ter-se-ão limitado a viajar em redor da costa portuguesa? Ainda é cedo para perceber por onde andaram até jazerem aqui enterrados no lodo e que segredos podem revelar-nos, porque a escavação não terminou. Daí que o seu destino permaneça incerto. Depende do estado de conservação das madeiras e também do valor que lhes for atribuído pela tutela governamental do património arqueológico.

Os arqueólogos que estão no terreno escusam-se por agora a pronunciar-se sobre a importância dos achados, que incluem vários cachimbos da época e ainda seis âncoras. "É muito cedo", alega Alexandre Sarrazola, da Era Arqueologia, empresa que conta nesta escavação com o acompanhamento do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa. "Primeiro temos de estudar as peças."

Não são os primeiros navios das épocas dos Descobrimentos e da Expansão marítima encontrados na frente ribeirinha de Lisboa. Há 17 anos, durante a abertura do túnel do metropolitano para o Cais do Sodré, foi localizado o casco de uma embarcação que os testes de radiocarbono determinaram ser da segunda metade do século XV ou de inícios do século XVI, embora alguns especialistas ponham a hipótese de ser de origem seiscentista. Outras obras do metropolitano haviam de revelar pouco tempo depois parte de um navio com seis séculos de história no Corpo Santo. Já este ano, um estrado de madeira de dimensões gigantescas encontrado ainda mais perto da obra da sede da EDP, a vizinha Praça D. Luís, veio comprovar, uma vez mais, aquilo que referem a iconografia e os testemunhos escritos chegados até aos dias de hoje: que toda a beira-rio entre o Campo das Cebolas e Alcântara foi uma zona privilegiada para a construção, reparação de navios e restante actividade portuária.

Neste momento ninguém se aventura a avançar se debaixo da antiga fábrica de gás que existia na Av. 24 de Julho, agora desmantelada para a obra da sede da EDP poder prosseguir, haverá ainda mais surpresas. Mais navios, por exemplo. "Seria insensato tecer considerações sobre a restante área não escavada", alega Alexandre Sarrazola, explicando que o uso de aparelhos de prospecção geofísica para determinar a existência de objectos no subsolo não é, neste caso, adequado: toda a área se situa no chamado Aterro da Boavista, um pedaço de terra ganha ao rio no séc. XIX que contém demasiados materiais para fornecer uma radiografia com legibilidade suficiente.

As duas embarcações foram encontradas no mês passado, mas só a primeira foi já escavada e não na sua totalidade. Do que já viram da quilha e do cavername, os arqueólogos pensam tratar-se de um navio no mínimo de médio porte - o que equivale a uma vintena de metros de comprimento - "com forte probabilidade de ser de tradição mediterrânica", por oposição às tipologias construídas nos países nórdicos. Apresenta um casco duplo, uma forma de reforçar a estrutura da embarcação e de a proteger.

Quanto à datação, os arqueólogos tiveram a preciosa ajuda dos pequenos cachimbos encontrados junto aos destroços: alguns deles apresentam como chancela uma marca com as letras HB encimadas por uma coroa, o que permite aos especialistas concluir que vieram de um grande centro produtor destes objectos na época - Gouda, na Holanda. Fabricados em materiais pouco resistentes e por isso mesmo em grandes quantidades, os cachimbos são dos achados que permitem aos arqueólogos datações com mais precisão, uma vez que os respectivos modelos eram frequentemente alterados. Pensa-se que os da Av. 24 de Julho remontem à última década do séc. XVII. Junto ao primeiro barco foi ainda encontrado cordame. Quanto à segunda embarcação, "é com toda a probabilidade posterior à primeira, porque foi lá detectado um cadernal [roldana]", instrumento de fabrico mais recente, assinala o mesmo responsável. Sobre as seis âncoras é que não há certezas: como não estavam perto de nenhum dos navios, podem simplesmente ter ido ali parar juntamente com o restante material que serviu para prolongar a margem rio dentro. "Uma é pequena e as restantes de médias dimensões", descreve Alexandre Sarrazola.

Apesar da tradição do desenvolvimento de actividades portuárias nesta frente ribeirinha, o aparecimento dos barcos não significa necessariamente a existência de um estaleiro naval no local, equaciona: "Pode ter havido um naufrágio." "Ou então os navios podiam estar adornados na praia fluvial que aqui existia." A primeira embarcação está, de resto, assente numa língua de areia agora subterrânea que fazia parte da baía que aqui havia à época.

A subdirectora-geral do Património, a arqueóloga Ana Catarina Sousa, já esteve na escavação e explica que as zonas ribeirinhas funcionam como verdadeiras cápsulas do tempo, ao conservarem tanto os vestígios orgânicos como inorgânicos. No que diz respeito a uma eventual musealização das peças, "ainda é prematuro tomar uma decisão, uma vez que não se sabe se estão em condições para isso". Mas mesmo que esse seja o destino deste espólio, é quase certo que passará mais de uma década até que o público tenha oportunidade de olhar para elas. É que a sua conservação implica a imersão da madeira, durante vários anos, em tanques com soluções químicas que substituem as partículas da água existentes nos barcos até aqui enterrados no lodo. Doutra forma as madeiras deformam-se e correm o risco de se desfazerem. Depois dessa morosa operação, ainda há que proceder a uma secagem, antes de as peças estarem prontas para serem expostas. Passada mais de década e meia, nenhuma das embarcações encontradas na zona ribeirinha de Lisboa está musealizada, nem há data marcada para isso acontecer. Já os 380 toros da mega-rampa de lançamento de barcos da Praça D. Luís tiveram dois destinos distintos: grande parte voltaram a ser enterradas numa zona de lodos do Alfeite, na Margem Sul, enquanto as peças mais significativas da estrutura foram depositados em tanques de conservação na Cordoaria Nacional.

No caso das descobertas da sede da EDP, todos os encargos decorrentes não só da escavação mas também da conservação correm por conta da empresa, refere Ana Catarina Sousa, sublinhando que é isso que a lei determina. Voltar a enterrar os navios na Av. 24 de Julho está fora de questão, diz a subdirectora-geral do Património, uma vez que isso impediria a continuação da obra.

"Será feito o que for possível a nível patrimonial", promete o autor da nova sede da EDP, o arquitecto Manuel Aires Mateus. "Tudo está a ser tratado com o maior cuidado. É património, é bom."

Terrenos estão a ser descontaminados

700 toneladas de nafta foram retiradas do terreno da Av. 24 de Julho onde vai surgir a nova sede da EDP, e no qual funcionou, no séc. XIX, a fábrica de gás que iluminou a cidade antes do surgimento da electricidade. São informações dadas pelo director da obra, que explica que este produto se encontrava num depósito no subsolo, debaixo da antiga unidade fabril. Segundo a EDP, a descontaminação dos solos "está a ser feita no centro integrado de recuperação, valorização e eliminação de resíduos da Chamusca", para posterior deposição num aterro de resíduos perigosos, caso se justifique este procedimento. A nafta em estado sólido teve um destino semelhante, enquanto aquela em estado líquido "foi hidroaspirada e transportada para a José Maria Ferreira e Filhos", uma empresa de recolha de óleos usados.

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