Crítica

O paraíso que nos habita

Nova individual de João Onofre actualiza temas ligados à experiência moderna

João Onofre (n. 1976) tem desenvolvido um trabalho consistente e sério, apoiado na fotografia e no vídeo, com temáticas que reflectem sempre a constatação do fim de alguma coisa e a impossibilidade de estabelecer o começo de algo que se lhe siga. Recordamos, já há alguns anos, o filme de um abutre que, fechado num atelier de artista, se entregava sem piedade à destruição sistemática de tudo o que lá havia. As características que indicámos estão muito presentes na sua geração, ou pelo menos em boa parte dela, e devem também ser encaradas na sua vertente sociológica: depois de uma época, os anos 80, em que o mercado da arte se comportou euforicamente, a década que se lhe seguiu, a mesma em que Onofre completou 20 anos, foi de retracção e auto-reflexão. A arte, que depende estreitamente do meio em que surge, não deixou de o espelhar.

De Onofre, sabíamos que tardava em expor individualmente já há alguns anos, talvez por via de uma formação avançada que realizou no Reino Unido. Este ano, para além desta, terá mais duas exposições - uma no antigo Teatro Thalia, espaço neoclássico que tem permanecido fechado, e outra, uma colectiva, no Museu do Chiado -, o que nos permitirá apreciar o que tem feito nos tempos mais recentes. Para já, inaugurou recentemente na Cristina Guerra um novo vídeo, GHOST (2009-2012), que documenta a viagem, de oriente para ocidente, de uma ilha artificial pela embocadura do Tejo. Na ilha, está fincada uma palmeira exótica muito rara no hemisfério norte. Tudo parece ficção. Mas o cenário - a margem sul de Lisboa que desfila lentamente, a ponte, os próprios matizes de luz de uma tarde de verão - colocam constantemente em questão essa ficção. Tal como sucede no cinema, aliás.

O cinema, de facto, é a primeira referência que o espectador procurará. Porque se trata de vídeo, porque também se trata de uma imagem real - e a banda sonora, composta especificamente para este projecto, é um auxiliar precioso - confrontamo-nos sucessivamente com a história da ficção cinematográfica no seu grau mais exotérico. Onofre cita Meliès e David Lynch, que marcam dois pontos afastados um do outro na história do cinema. Contudo, neste aspecto preciso, e porque o cinema é uma técnica que acompanha de perto o nascimento da experiência moderna, é preciso ir ligeiramente mais longe e considerarmos o nascimento do desejo do exótico.

A experiência moderna: Baudelaire disse que ela era obtida pelo “choque”, o mesmo que o cinema quer ainda tantas vezes em nós provocar. Quanto ao moderno, na sua transitoriedade e efemeridade, para utilizar dois termos do mesmo autor, traduziu-se também num desejo de viagem por parte do artista, de procura do paraíso longínquo, ou tão longínquo quanto era possível para cada época. Depois das viagens obrigatórias a Itália durante os séculos XVII e XVIII, o romantismo dá o salto para mais longe. Recorde-se Delacroix e as mulheres de Argel, Gauguin e a fuga para o Tahiti, ou ainda, já no século XX, e regressando de novo ao cinema, um Nanook de Flaherty ou um Tabu de Murnau.

Já então, como agora, o desejo de exótico, mesmo que ficcionado, era desejo de evasão, de fuga, ânsia de um encontro consigo próprio sempre adiado. Hoje, qualquer agência de viagens promete proporcioná-lo, mesmo à custa da ficção última - ou do simulacro último, para ser mais exacta - que é o resort de férias. E nem a viagem de aventura, que dispensa intermediários e se pretende mais ''autêntica'', escapa a esta condição.

Aquilo a que Onofre nos convida, neste seu projecto, é que consideremos de que forma o nosso desejo de evasão é condicionado por uma história que se ancora na própria modernidade, e que a ultrapassa quando ela desaparece para dar lugar a outra coisa, chame-se-lhe pós-modernidade ou contemporaneidade. Uma ilha que se esvai no horizonte, e que arrasta consigo os próprios códigos da representação da paisagem - vindos da pintura, e captados depois pelo cinema, sobretudo o cinema norte-americano de Hollywood - traduz mais uma vez, e como sempre sucede na obra deste artista, o fim de qualquer coisa. Sem juízos éticos, Onofre constata um desejo, sempre frustrado, sempre adiado. ?