Mário de Carvalho “Eu sou pelo leitor exigente e rabugento”

Mário de Carvalho recebeu-nos no seu escritório em Lisboa, rodeado de livros e ao som de música clássica
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Mário de Carvalho recebeu-nos no seu escritório em Lisboa, rodeado de livros e ao som de música clássica ENRIC VIVES-RUBIO

Acaba de lançar O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel, duas novelas em ambiente de opereta no império austro-húngaro. Um escritor que quer um leitor que trabalhe

Não quer acabar a carreira numa interminável lengalenga consigo próprio, por isso o escritor Mário de Carvalho, que acabou de fazer 68 anos, vai mudando de livro para livro, apesar de ir buscar ao seu passado referências e ecos. O seu último livro é editado pela Porto Editora, que para o ano começa a publicar, numa colecção própria, toda a obra deste escritor português, reconhecido por trabalhar de uma forma única a ficção. Aqui, regressam cidades imaginárias e navios fantasmas.

Disse-me, na última conversa que tivemos, que de livro para livro tudo muda. É o que se passa com a obra O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel?

Está a referir-se àquilo que eu costumo chamar "trabalhar em várias facetas" e ter várias vozes. O romancista tem sempre várias vozes quando se desdobra em personagens que falam de maneiras diferentes, comportam-se de maneiras diferentes, pensam de maneiras diferentes.

Nestas coisas, ai de quem tenha só uma voz...

Porquê?

Porque acaba a carreira numa interminável lengalenga a sós consigo próprio. Nestes 30 anos de escrita, de facto, há várias pistas, várias faixas que são preenchidas. Muda-se de uma para outra. É uma personalidade multifacetada, um bocadinho esquizoide, que está aí a funcionar.

Neste livro, O Varandim seguido de Ocaso em Carvangel estamos no ambiente do império austro-húngaro: o ambiente da opereta, das fardas, das condessas, das duquesas. Mas, no fundo, é um livro sobre mulheres, especialmente a segunda novela. Carvangel é uma fixação minha, uma cidade inventada que já vem desde há trinta anos com outras duas - Ashitueba e Shandenoor.

Esta novela tem toda uma galeria de mulheres, que são ali incessantemente interrogadas num registo da opereta. Tem a ver também com a morte: há um sítio de onde não se regressa e há uma salvação que se calhar não chega.

Está a descrever o Ocaso em Carvangel. E quanto à primeira novela, O Varandim?

O primeiro conto também é do mesmo ambiente, embora não tão colorido, talvez um bocadinho mais sombrio e mais soturno.

O tema é o nosso comprazimento com a morte e com o sofrimento dos outros. O impulso para o espectáculo do sofrimento, a execução pública, é irresistível: ver os outros a espernear na forca. E como isto foi importante em Portugal.

Mas este livro traz um registo novo?

É um registo diferente, com ecos do passado. Com a idade que tenho já não me estou só a debater com os outros, estou a debater-me comigo próprio e com o que já fiz. Assombro-me a mim próprio mesmo que não queira.

Claro que se compararmos com Quando o Diabo Reza [romance publicado na Tinta-da-China em 2011], que trata de vadios lisboetas de hoje, há um salto muito grande.

Trata-se de uma passion papillonne, como a referida por Charles Fourier [1772-1837]. A paixão ‘borboleteante', a paixão de andar de paixão em paixão, a curiosidade de deambular, de bater a várias portas, de espreitar a várias fechaduras.

Escolheu uma epígrafe, retirada de Os Sabres de Mensur, de um tal de Ron Hurbezirk. Este senhor existe?

A epígrafe é obviamente inventada. Tem que ver com estes jogos de imaginação e com uma reminiscência de um autor de que gosto muito enquanto autor - é um dos autores mais geniais do século XX : o Jorge Luis Borges. Muitas vezes misturava uma erudição verdadeira com uma erudição dissimulada. Em alguns contos as duas estão presentes, lado a lado.

Mas voltando aos sabres de Mensur...

Não quis deixar de fazer menção a uma célebre instituição alemã: a Mensur, que é uma carnificina extremamente bárbara, que os estudantes praticavam entre si com espadas, picando-se e cortando-se as caras. Aqueles nazis que nos aparecem de vez em quando com as caras cortadas, e não só nazis, prussianos também. Estamos numa época que tem que ver com esse exercício que não era só um duelo, era um massacre. Na Alemanha do princípio do século XIX, aqueles rapazes faziam gala em exibir a sua coragem e aparecer com as cicatrizes, a que não deixavam sequer fechar os bordos para ficarem com aquele aspecto com que o Oskar Werner aparece no filme A Nave dos Loucos.

Na citação inventada, um marquês diz que, "de uma forma geral, tudo aquilo que se diga é igual ao litro". E um major responde-lhe "Tem dias... atrás de tempos, tempos vêm, e essas tretas todas". Isto parece remeter para os tempos actuais.

Trata-se de uma grande desconfiança em relação às retóricas e em relação aos discursos. Mesmo ao próprio discurso sobre a literatura que muitas vezes é ele próprio inquinado de ideias feitas, de preconceitos, de dogmas, de parcialidades e de equívocos. Tudo isso contido numa epígrafe de quatro linhas.

Quando se lêem estas duas novelas, tudo parece passar-se à nossa frente. Há muito de fílmico, começou por uma imagem também?

Mas que excelente pergunta, porque eu não sei responder. Por que é que isto me interessou? Talvez como reminiscência da opereta. Interessou-me a variedade de povos e de crenças que havia naquela altura, interessaram-me estas personagens: os anarquistas, os jesuítas. Interessou-me trabalhar algumas referências alemãs, usar nomes - de certo modo como o Gogol -, que significam alguma coisa. Interessou-me que um leitor que saiba alemão vá descobrir alguma coisa por baixo destes nomes, porque eles têm um sentido.

Quer dar algumas pistas?

Para quê? Não vale a pena.

Nem toda a gente sabe alemão.

Pois não, mas há dicionários para isso. E pode-se sempre telefonar à embaixada ou para o instituto alemão.

Faz parte do jogo com o leitor?

Faz parte da proposta lúdica que um livro também é sempre e de uma proposta de decifração que um livro necessariamente supõe. Nós não temos sempre de perceber as palavras todas. Se agarrar nas primeiras páginas de D. Quixote, tem logo expressões sobre armas, sobre comida e sobre vestuário do século XVII. Não somos obrigados a ir ver tudo.

Durante a leitura do seu livro, pensei se não o devia ter lido em formato electrónico para ter um dicionário integrado.

A nossa leitura hoje... Estou a ler sabe o quê? Com muito gosto e muito devagar, A Paleta e o Mundo, de Mário Dionísio, que são cinco volumes. E paro a cada nome e vou ver. A Internet dá-me essa possibilidade de ver. Na verdade, dá-me uma aproximação, porque uma pessoa só conhece um quadro quando vai ao museu vê-lo. Mas dá-me a possibilidade de saber de que é que estamos a falar. Quando se lê agora a Guerra e Paz, pode-se ir ver a cara de cada um daqueles generais, como é que estavam vestidos, quem é aquela gente? É uma leitura mais rica.

Estava a explicar como lhe surgiu este universo...

Pode ter começado primeiro com o conhecimento de que no século XIX havia um negócio que era arrendar janelas para se assistir às execuções. Pode ser que tenha partido exactamente daqui. Depois temos uma belíssima obsessão - uma daquelas fixações dos escritores - com um navio que nunca mais aparece: o Maria Speranza, que não foi inventado agora, também já vem de O Livro Grande de Tebas Navio e Mariana [escrito quando tinha 30 anos]. É aquele navio que se espera sempre e que nunca vem...

Sendo que a vida das personagens é feita em função dele.

Sim. A certa altura da nossa vida passamos por um certo istmo e já não há regresso. Neste conto ninguém volta para trás. Por outro lado, perdura aquela obsessão da ameaça: o grande canhão, esmagador, que nunca disparou nada.

Há sempre interferência de influências de cinema - como o Amarcord de Fellini - e literárias. Há uma personagem, Booltheswif, que tem um nome que soa a Boule de suif, bola de sebo em francês e que é o nome de um conto de Maupassant que é uma obra-prima, em que dentro de uma diligência vai um mundo inteiro.

E não se esqueceu do universo das pernas de pau dos piratas.

Já não é do meu tempo, porque eu herdei essas referências. Há uma banda desenhada que sempre me fascinou chamada Katzenjammer Kids - no português do Brasil Os Sobrinhos do Capitão -, em que dois miúdos traquinas vivem num país que não se sabe bem onde é. Esta BD começou no século XIX, há um capitão com umas barbas. Mas seguramente está aqui o universo do ‘pirata da perna de pau com olho de vidro e cara de mau', tal como está Corto Maltese.

Não sei se reparou que há certas coisas que se comem nesse livro que não existem... O Boris Vian inventava flores, eu invento legumes.

Isso leva-nos ao trabalho que faz com a linguagem. Qual é o seu método?

Uso todos os dicionários. Desde o dicionário de alemão, ao dicionário de rimas que me serve para as evitar. Não escapa nenhum. Ai de quem prescinda deste instrumento e das ferramentas essenciais que são os dicionários. O José Saramago dizia, citando o Camilo Castelo Branco: "compulsa com a mão diurna e nocturna os dicionários". A linguagem deste livro, o estilo - para usar uma palavra que está a cair em desuso, mas às vezes convém despertar palavras adormecidas porque elas fazem falta - é bastante simples, permite um nível de leitura e uma aproximação bastante rápida. Agora não é a literatura kitsch. Não contem comigo, não me proponham essa troca de eu fazer uma literatura kitsch para obter do outro lado um leitor kitsch.

Eu sou pelo leitor exigente e rabugento. O tal leitor que é capaz de me acompanhar na decifração e que podia ser o autor do meu livro. Eu convido-o a ser o autor comigo. Felizmente ainda há muitos leitores desses, ao contrário do que se pensa. E são esses que estou a convocar neste meu livro.