Portugueses aprendem novas línguas para tentar fugir à crise

O aumento da emigração tem sido acompanhado por uma procura crescente das escolas de línguas
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O aumento da emigração tem sido acompanhado por uma procura crescente das escolas de línguas Fernando Veludo/NFactos

A procura do Inglês continua em alta, mas os portugueses em trânsito para o estrangeiro estão agora a procurar cada vez mais os idiomas de "países economicamente fortes". O Alemão surge à cabeça.

Muitos adultos portugueses que querem ir trabalhar para o estrangeiro estão a matricular-se em cursos para aprender novos idiomas. As inscrições em aulas de línguas estrangeiras têm aumentado nos últimos anos e a crise não será alheia a este acréscimo. Apesar de o Inglês continuar a ser bastante procurado, há agora novos focos de interesse, como o Alemão, o Mandarim, o Árabe ou o Russo.

De acordo com o director do Instituto de Línguas da Universidade Nova de Lisboa (ILNOVA), Carlos Ceia, no ano lectivo passado "houve uma clara tendência para o aumento da procura de línguas de países economicamente fortes ou que representem oportunidades de novos contactos internacionais". "Estão neste caso, por ordem de procura, o Alemão, o Mandarim, o Árabe e o Russo. Em particular, registou-se uma enorme procura do Alemão, tendência que se está a repetir neste início de ano lectivo", diz o docente.

Entre 2010 e 2012, a procura de línguas como o Alemão, o Mandarim, o Árabe e o Russo "praticamente duplicou" e no ano lectivo que agora começou o Alemão e o Mandarim têm sido as línguas mais procuradas. Apesar de salvaguardar que o ILNOVA não faz inquéritos aos alunos para averiguar as suas motivações, Carlos Ceia sabe que muitos pretendem "estender as suas ligações comerciais a novos países economicamente fortes" ou, então, querem mesmo emigrar para esses locais.

Cursos para enfermeiros

Desde a fundação do ILNOVA, em 2006, as matrículas têm crescido de ano para ano: "Começámos com 250 alunos e hoje temos quase 1000. Este aumento crescente pode explicar-se por sentirmos que hoje, em muitas profissões, as pessoas sentem cada vez mais que aprender línguas estrangeiras pode fazer a diferença nas suas carreiras profissionais", explica o catedrático de Estudos Ingleses, ressalvando que o Inglês "sempre teve uma procura forte" que ainda hoje se mantém.

Já o presidente e fundador do Centro de Cursos Livres, David Bracke, diz que as línguas mais procuradas nesta instituição são o Neerlandês e o Norueguês. Conta, por exemplo, que neste momento estão a ser programadas mais quatro turmas de enfermeiros que querem aprender Neerlandês e, também, o Francês.

Ao longo do ano, este responsável prevê que surjam outros grupos de enfermeiros interessados. Só neste sector da saúde prepararam-se, neste centro e nos últimos dois anos, 100 profissionais que foram trabalhar para a Bélgica. "Há grandes lacunas, sobretudo na parte flamenga", nota David Bracke, sublinhando que existe ainda um programa de Neerlandês para dentistas que vão para os Países Baixos.

No que toca a outras línguas, e para além do Inglês, este centro tem registado maior procura do Alemão da parte de engenheiros e do Norueguês da parte de profissionais ligados a empresas petrolíferas. "O Mandarim está em ascendência tanto a nível pessoal como a nível empresarial. O Árabe mais a nível empresarial", enumera David Bracke, acrescentando ainda que o Russo registou igualmente "um ligeiro aumento".

Também no Instituto Espanhol, fundado em 2001, os alunos são cada vez mais. De acordo com dados fornecidos pela instituição, as inscrições passaram de 431 em 2001 para mais de duas mil actualmente. "Por trás dos números estão motivações culturais, académicas e laborais, esta última com um papel preponderante nas inscrições", diz o director, Pablo Moreno.

O "portunhol" já não chega

"O Espanhol é útil e o "portunhol", muitas vezes, não basta. Há alguns anos, a proximidade entre a língua portuguesa e a espanhola era suficiente para manter relações de menor importância. No entanto, esse vago conhecimento tem-se revelado inoperante no actual cenário de fortes intercâmbios culturais, políticos e económicos", nota Moreno. Sobre o perfil destes alunos, o responsável adianta que são "finalistas de cursos superiores e jovens trabalhadores que procuram na aprendizagem do Espanhol uma forma eficaz de aumentar as expectativas profissionais".

Também no Goethe-Institut (Instituto Alemão) a procura tem crescido: em 2010/11, havia 1052 alunos e, um ano depois, já eram 1341. A instituição confirma a tendência de muitos dos novos inscritos pretenderem, no futuro, estudar ou trabalhar na Alemanha ou na Suíça.

Verifica-se ainda um aumento na procura de cursos intensivos de curta duração. No Goethe, as inscrições nos cursos de Verão, por exemplo, passaram de 184 em 2010 para 355 em 2012. Há também novos modelos de cursos, bastante intensivos, para grupos profissionais específicos como os enfermeiros.

Apesar de ser visível o interesse de determinados grupos profissionais, uma grande percentagem (41%) dos inscritos neste instituto são estudantes, sobretudo das engenharias. Quanto às idades, 35% têm entre 19 e 25 anos e 34% estão na faixa etária entre os 26 e os 35 anos.