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Futebol português é uma Babel de 47 nacionalidades distintas

Sá Pinto treina um plantel com jogadores de dez países diferentes
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Sá Pinto treina um plantel com jogadores de dez países diferentes Foto: Francisco Leong/AFP

Quando aterrou em Londres para treinar o Chelsea, em 2004, José Mourinho encontrou um balneário com qualquer coisa como 17 nacionalidades: os ingleses eram a maioria, havia também um contingente português e futebolistas de países tão diversos como a Costa do Marfim (Didier Drogba), a República Checa (Petr Cech) ou a Islândia (Eidur Gudjohnsen). A comunicação poderia colocar uma barreira difícil de ultrapassar. Mas não foi isso que mostrou o saldo final dessa primeira temporada do técnico português em Stamford Bridge: os blues sagraram-se campeões da Premier League, um título a que juntaram a vitória na Taça da Liga inglesa.

Mourinho já explicou o seu método de trabalho: “Uma vez que falo cinco línguas, posso ter uma relação especial com os jogadores. Eles sentem-se mais confortáveis a exprimir as emoções numa língua em que não tenham dúvidas”, lia-se num trabalho sobre o treinador português, publicado em Março de 2011 pela revista norte-americana Sports Illustrated.

Este é um método que poderia ser bastante útil aos treinadores da Liga portuguesa. Há, em média, 7,3 nacionalidades por equipa na presente edição do campeonato. No total, há futebolistas de 47 países distintos, segundo os dados compilados no portal zerozero.pt. Sporting e Académica são os campeões da diversidade, com dez nacionalidades nos respectivos plantéis. No extremo oposto está o Moreirense, com futebolistas provenientes de apenas quatro países: Portugal, Brasil, Argélia e Uruguai.

No Chelsea, Mourinho dava o treino em inglês mas depois conferenciava com os jogadores na língua em que estes se sentissem mais confortáveis. A receita que aplicou com sucesso em Itália, no Inter de Milão, e actualmente no campeão espanhol Real Madrid.

Domingos Paciência teve uma experiência semelhante quando comandou o Sporting na primeira parte da temporada 2011-12. Tal como esta época, o plantel “leonino” era um dos que continham mais nacionalidades. Ao PÚBLICO, o treinador explicou a forma como encarou esse desafio. “A prioridade do treinador é aprofundar o conhecimento de cada jogador, o contexto cultural de onde provém e, assim, facilitar a sua adaptação”, sublinhou.

“Linguagem universal”

A par dos “leões” estava a União de Leiria: jogadores de 12 países no total alinharam por cada uma destas equipas em 2011-12. Manuel Cajuda enfrentou um desafio semelhante ao de Domingos Paciência no Sporting. Para ultrapassar a barreira da língua, há sempre um esforço das duas partes. E também a “linguagem universal do futebol”, apontou Cajuda: “Acabamos por nos fazer entender com mais facilidade.”

“Hoje cada vez mais se fala inglês. Mas nem todos falam e tentamos também fazer com que os estrangeiros se debrucem sobre a nossa língua”, prosseguiu o técnico, dando conta de cuidados específicos “em relação a determinados conteúdos do treino”. “E na palestra pré-jogo tínhamos o cuidado de falar o mais possível na língua dos jogadores que iam jogar”, acrescentou.

Não há barreiras para as instruções à equipa durante o jogo: “Quando falava em português, o adjunto transmitia para a língua que o jogador percebesse. E, quando são interessados, os jogadores vão começando a perceber algumas palavras. As palavras-chave e os gestos, no treino e nos jogos, são decifráveis”, garantiu Domingos.

O Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol tem vindo a alertar para o cada vez menor espaço para jogadores portugueses nas equipas da I Liga. E a mesma preocupação levou o Governo a criar um grupo de trabalho para estudar medidas de protecção dos jovens praticantes e das selecções nacionais.

Mas o futebol é cada vez mais uma indústria globalizada, com praticantes de uma variedade de países a circularem pelos campeonatos, que obriga a uma revisão de prioridades na construção das equipas técnicas. “Os meus adjuntos têm conhecimentos de inglês e francês. Espanhol falo eu, que vivi lá dois anos”, explicou Domingos Paciência, numa referência ao período em que representou o Tenerife.

A experiência no estrangeiro é uma vantagem, concordou Cajuda: “Quanto estive no Egipto cumpri o Ramadão. O estrangeiro naquele país era eu”, concluiu o técnico, para ilustrar a necessidade de uma ambientação cultural. Na sociedade das nações em que se tornou o futebol, a palavra-chave é adaptação. Válida para treinadores e jogadores.

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