Crítica

Deserto de almas

Uma versão de O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes que nunca tenha sido feita: minimal, distante, sem se deixar seduzir, nem deixar alguém seduzir-se, pelas suas personagens.

Pegar na sordidez moral das histórias de James M. Cain - em especial O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, que Jerichow adapta parcial e veladamente - e transpô-la para a época contemporânea, numa região do norte da Alemanha (do Leste): eis uma parte importante do projecto de Christian Petzold, mas que não resume tudo. A sua ideia é ir mais longe do que uma mera troca de cenários, e talvez por isso a zona de Jerichow, assim se chama a cidade, seja filmada como uma geografia à americana, horizontal e dispersa, onde a todo o lado se tem que ir de carro (se Jerichow é assim ou não, não sabemos, mas é importante que o filme a mostre assim - basicamente, é Petzold a filmar a antiga Alemanha de Leste como um deserto). A sua ideia, que parece óptimo princípio quando se trata de pensar um remake, é fazer uma versão filmada de O Carteiro... que nunca tenha sido feita: minimal, distante, sem se deixar seduzir, nem deixar alguém seduzir-se, pelas suas personagens.


Parece óbvio que Petzold teve em conta as mais célebres versões cinematográficas da história de Cain; e parece óbvio porque faz o contrário de todas elas. Nenhuma da intensidade erótica da versão Rafelson de 1981 (com Jack Nicholson e Jessica Lange): os corpos mal se tocam, e quando se tocam não há ali excitação alguma para ninguém, é uma coisa de impulso, quase animal, e neutra. Em vez do realismo sujo, promíscuo, da versão Visconti (Ossessione, de 1942), apenas uma espécie de fealdade muito normal e muito banal, snack-bars de beira da estrada, rulotes de kebabs, piqueniques na praia (aquelas entusiasmantes praias do mar do Norte) acompanhados de canções duvidosamente popularuchas. E em vez daquela sordidez feita pasta da versão Tay Garnett de 1946 (será pacífico dizer que é a melhor de todas), que parece que nos suja as mãos só por estarmos a ver o filme, obra-prima de glamour oleoso com o par mais sleazy da história do cinema americano (Lana Turner e John Garfield) - em vez disso, dizíamos, apenas desafectação, cuidadosa remoção de qualquer efeito de espectáculo, redução das personagens a meras silhuetas andantes e, a partir de certa altura, conspirativas (do amante sabemos muito pouco, da mulher o que sabemos é ela que o conta duma golfada, e o marido acaba por ser a personagem mais clara, mais exposta na sua fragilidade humana, mas nem por isso mais “simpática” do que a dos outros dois).

Tirar tanto de tanta coisa tem os seus riscos, mas também também não há razão para pensar que não era aqui, a esta versão esquelética, despovoada, e quase esquemática, da história de Cain, que Petzold queria chegar. Com tão reduzida caracterização, sobressaem os pormenores estranhos, provavelmente para serem tomados como simples falsas pistas - é importante o marido ser turco? é importante que o amante seja um veterano do Afeganistão “desonrosamente” desmobilizado? (Quem saberá). E com tão reduzida “acção”, sobressaem (traço reconhecível de outros filmes de Petzold) os micro-acontecimentos, os gestos, as posições, os contrastes físicos dos actores - e disto se pode dizer que é, no fundo, a “matéria” do filme. Não toda, no entanto: nos silêncios, nos “intervalos” entre as personagens (muito bem dados naqueles planos gerais em que estão os três, e há geralmente muito “ar” entre eles), há ali uma questão de comunicação, ou meramente de expressão, como que um bloqueio, que tem certamente a ver com a intimidade e os afectos mas também pode ter a ver - tanta falta de ambição, tanto tédio - com um comentário (ou talvez apenas com uma caricatura) de tipo sociológico. Maneira de dizer que, se Jerichow é de facto uma versão “nunca feita” da história de Cain, certos momentos permitem imaginar o que seria um nunca filmado Carteiro Toca Sempre Duas Vezes por Antonioni.