Crítica

Teenage Proust

Uma mise en scène da memória, cheia de rock''n''roll e tudo, mas nada pateta

Amável e, para além da amabilidade, muito bem conseguido filme que nos chega do Chile. Cristian Jiménez varia sobre um tema clássico: o coming of age, a despedida da adolescência e a entrada na idade adulta. Com um tempero que, neste caso, faz toda a diferença: as suas jovens personagens são bibliófilos furiosos, os livros e a literatura fazem parte do dia-a-dia, são um instrumento da relações de uns com os outros e de todos com o mundo - à semelhança, e não parece exagero dizer isto, de certas personagens da nouvelle vague (em Rohmer, em Godard, em Truffaut, em Eustache), onde os livros (ou, o que vai dar ao mesmo, os filmes, os quadros, a música) apareciam como expressão de uma espécie de lust for life. Na sua estrutura cronologicamente diferida - oito anos para a frente, oito anos para trás, alternadamente de capítulo em capítulo -, Bonsai filma o tempo do primeiro amor e o tempo da reflexão sobre o primeiro amor, através do destino (anunciado logo na primeira frase da narração off, ao mais puro estilo spoiler) do jovem casal protagonista: há oito anos conheceram-se e namoraram, oito anos depois perderam o contacto, por razões de que o filme avança apenas algumas dicas cifradas, particularmente através da literatura.


Apesar de alguns momentos um pouco corny (“Escrever é como tratar de um bonsai”) aparentemente sem antídoto, Jiménez domina muito bem o contraponto - que é o segredo para o tom do filme, perfeitamente doseado: nunca demasiado melancólico, nunca demasiado alegre, nunca completamente grave, nunca completamente irrisório. O olhar sobre as personagens - são mais maduros do que parecem? são só miúdos? - segue as mesmas linhas, perfeitamente de acordo com o estilo inexpressivo (no melhor sentido da palavra), e portanto aberto a toda a ambiguidade, dos seus jovens actores. E com isto o filme chega muito bem, provavelmente até melhor do que a encomenda, aonde queria chegar: a uma evocação, a curta escala, do “tempo perdido” proustiano, uma mise en scène da memória, frágil mas não etérea, pelo contrário sempre dependente de coisas físicas, sons e palavras, gestos e movimentos dos corpos. Um pequeno Proust adolescente, cheio de rock and roll e tudo. Um “teenage Proust”, mas nada pateta.

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