Crítica

O mundo à nossa volta

Early Summer, de Daniel Gustav Cramer e Haris Epaminonda, faz do transitório uma experiência do infinito

Uma das primeiras impressões provocadas por Early Summer, que reúne obras de Daniel Gustav Cramer (Alemanha, 1975) e Haris Epaminonda (Chipre, 1980) na Kunsthalle Lissabon, é o cuidado rigoroso na disposição das imagens, das esculturas e dos objectos. Cada peça surge sempre numa relação organizada com outras peças, através da escala ou da forma geométrica; e define-se explicitamente no espaço, operando sobre a arquitectura (no chão, nas paredes) ou envolvendo estruturas determinadas (plintos). A cor também tem a sua importância, pelo modo como marca o ritmo do olhar sobre a exposição: há pedras castanhas, fotografias a preto e branco, estatuetas pretas, plintos brancos. Seja qual fora o ponto de vista, há sempre um plano que conjuga peças diferentes e mergulha o espectador na sua descoberta.

Early Summer é uma exposição de dois artistas, pelo que as obras de Daniel Gustav Cramer (representado em Portugal pela Vera Cortês) e Haris Epaminonda são autónomas de qualquer colaboração (isto se exceptuarmos os projectos em que assumem de facto a condição de dupla). Tal não impede a presença de aspectos comuns: o uso de materiais simples, a apropriação de imagens, a leveza e a discrição dos objetos e das superfícies. A experiência é para o espectador tão poética como fragmentada: descer ao chão, espreitar por detrás dos plintos.

A memória, o conhecimento, o tempo são matérias exploradas pelo artista alemão. Fotografias de vermes catalogados pela ciência ou de uma preguiça embalsamada e colocada numa posição antropomórfica (qual escultura de Rodin) parecem sublinhar o desvelo intrépido da ciência em classificar, compartimentar e representar. Desvelo com limites, como sugere uma pálida carta estelar, vestígio de um projecto internacional que, no século passado, falhou a documentação de todas as estrelas do céu nocturno. Simples, austeras, as peças de Daniel Gustav Cramer criam emoções, gestos invisíveis, imagens que não chegam a ser objectos visuais, e que suspendem, de modo intuitivo, a nossa percepção das formas e suas funções: numa solitária esfera de ferro ou num conjunto de livros em cujas páginas olhamos representações fotográficas do mar.

Haris Epaminonda também lida com o mundo que existe à nossa volta e realiza um processo de selecção de objectos e imagens provenientes das mais diversas origens (revistas, livros, lojas, feiras), mas a sua proposta tem como fim animar as imagens e transformar os objectos, fazer do finito uma experiência do infinito, enriquecendo a linguagens de todos. Reparem nas fotografias distintas de montanhas que emolduradas lado a lado configuram uma nova imagem ou no pequeno filme que, através de um atento processo de montagem, sugere a ideia de uma colagem ou de um poema. Por vezes, a artista ilude-nos - ou melhor ilumina-nos - quando nos mostra um plinto vazio, obrigando-nos a espreitar, a tentar ver parcialmente o que foi escondido. Noutros, somos confrontados com pequenas e frágeis esculturas africanas, como se estivéssemos pela primeira vez num museu. Mas não estamos e, nesse momento, percebemos que não vale interpretá-las ou entendê-las. Basta apenas sentir a sua presença e imaginar a sua história.