Crítica

Uma família russa

A “alma russa” vem sempre à tona, no comunismo ou no capitalismo

O fim da URSS não parece ter feito muito bem ao cinema russo, provavelmente por razões que Orson Welles explicaria com o exemplo dos suíços e do relógio de cuco. (Mas seria um mau exemplo: pelas crónicas a democracia russa tem mais a ver com a Itália dos Bórgias do que com a Suíça). Em todo o caso, a economia de mercado e o capitalismo falharam a prosperidade de pelo menos uma coisa: desapareceu algo de semelhante à constelação de autores que, durante os agrestes anos 70 e 80, de Tarkovski a Muratova, de Konchalovski a Panfilov, fez do cinema made in USSR um dos pólos mais importantes da cinematografia mundial. Sokurov à parte, a representação russa no circuito internacional perdeu peso e quantidade. Andrei Zyagvintsev, que ganhou um Leão em Veneza pelo seu primeiro filme, O Encontro, disparando disparatadíssimas proclamações de se ter encontrado um “novo Tarkovski”, é hoje o seu ponta de lança. Não está bem à mesma altura, e O Encontro irritava bastante na maneira como pedia para ser visto enquanto tarkovskiano, mas Elena vem mostrar que Zyagvintsev pode, pelo menos, ser um elegante cultor da aquela espécie de “cinema-esperanto” que pulula pelos grandes festivais de cinema mundiais.

Elena é ao mesmo tempo muito lento e muito directo, género o que se leva é o que se vê. Ao fim de quinze minutos, ainda pouco mais vimos do que uma velha senhora a levantar-se, a fazer a toilette, a tomar o pequeno-almoço com o marido, a sair para a rua. Sequência que, de resto, ganhará um sentido especial - a princípio parece apenas estilo, “dilatação do tempo” por “dilatação do tempo” - cerca de uma hora mais tarde, quando vemos as mesmas acções repetidas, em enquadramentos idênticos, mas já sem marido - aquele processo que Tarr levou ao extremo no Cavalo de Turim, a descrição de uma rotina a que foi subtraído um elemento fundamental. Elena decide-se, portanto, na duração e pela duração, seja pelas rimas seja, propriamente, por uma questão de ritmo (e aqui falamos também de um ritmo “psicológico” na relação com o espectador, cujo olhar sobre a personagem desliza imperceptivelmente ao longo do filme).

História da implacabilidade do instinto maternal, mais uma “mãe russa” como sobre tantas se escreveu ou filmou (e se confundiu, como talvez Zyagvintsev queira fazer, com a “Mãe Rússia”), “clássica”, portanto, mas temperada pelas alusões à contemporaneidade (o dinheiro de que o neto precisa para escapar à tropa e à guerra na Ossétia), fala de uma “falha geracional” (os miúdos, nascidos e crescidos depois da URSS) sob o disfarce de uma fábula sobre o curto-circuito entre a natureza e a moralidade, o crime e (a ausência do) castigo. Zyagvintsev falou do Match Point de Woody Allen como “inspiração”. Sinuosa referência, visto que Allen se inspirou, ele próprio, em algo tão russo como Dostoievsky. A “alma russa”, portanto: vem sempre à tona, no comunismo ou no capitalismo.