Festival terminou ontem

A pop desafiadora dos Alt-J e uns explosivos Black Gnod na despedida do Milhões de Festa

Actuação dos Alt-J
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Actuação dos Alt-J Paulo Pimenta

Aaron Beam, dos Red Fang, a banda mais esperada da noite, dirá em palco algo que temos por muito certo ao fim de três dias de Milhões de Festa: “Quero ver um concerto a nadar, é isso que quero fazer”. A frase chegou na conclusão dos elogios que a banda americana fez ao festival de Barcelos e aos amigos todos (Baroness, Weedeater) que haviam passado por ele nos dias anteriores. E, ainda que os Red Fang, banda stoner à antiga, não proporcionem propriamente nostalgia, ouvimo-los falar de ver concertos a nadar, lembramo-nos da tarde que terminara horas antes, na piscina, a dançar o rock’n’roll retro, o funk e o disco turco da sessão de DJ Fitz, e nostálgicos ficamos. Era o Milhões de Festa a caminhar para o seu final.

No último dia, os Alt-J mostraram um outro lado da pop britânica, os Red Fang puseram corpos em sobressalto e a Discotexas Band de Xinobi ou Da Chick mostrou-se uma fonte inesgotável de groove de bom gosto – da escola LCD Soundsystem até mais lá atrás, a house com atitude de banda, ao disco, ao hip hop. Com a sempre efusiva Da Chick no comando das operações, ela que já aparecera em palco durante a óptima actuação dos Memória de Peixe - duo de guitarra e bateria que processa camadas de som como cientista sonoro, que improvisa como combo jazz e que faz a festa, muito dançante, como banda rock moderníssima -, a Discotexas Band manteve o Milhões de Festa vivo nas últimas horas de edição 2012. Ainda chegariam depois os Shangaan Electro para lançar dança e canto sul africano sobre batidas em ritmo infernal – sempre rápido, rapidíssimo -, mas deles não serão feitas as recordações da despedida do Milhões de Festa.

Domingo, o dia em que os Red Fang foram recebidos por uma multidão que ansiava reencontrá-los – a quantidade de t-shirts de Mastodon, com quem partilharam digressões, não enganava -, tivemos a privilégio de assistir a um momento sublime e representativo daquilo que o Milhões de Festa tem de melhor. No Palco Vice, cerca de uma da madrugada, encontrámos os Black Gnod, banda de uma noite só. Ou seja, os barcelenses Black Bombaim e os ingleses Gnod. Partilharam uma digressão britânica e, ontem à noite, juntaram-se para um concerto sem rede. Tínhamos perante nós dois baixistas, dois guitarristas, um baterista, um vocalista e teclista e uma manipuladora de efeitos sonoros. Começaram titubeantes, apalpando o som que poderia nascer do momento. A hora seguinte seria nada menos que sublime: sem pausas, com o homem dos Gnod berrando ao microfone como Alan Vega do Além e com a banda unida na mesma procura de som, de excesso decibélico, de entrega a um xamanismo rock’n’roll com devoção a Hendrix, aos Spacemen 3, aos Comets On Fire. Um concerto no fio da navalha que a todos transportou na sua voracidade, na capacidade de aqueles músicos em palco se unirem numa única entidade que se materializou, grandiosa, empolgante, perante nós. À nossa volta, muitos rostos de olhos fechados absorvendo o impacto da muralha que se erguia e que foi construção magnífica que uns milhares viram numa noite de Barcelos. Viram-na porque o Milhões de Festa é um festival que procura e aprecia o inesperado, que não se importa de correr riscos. Por concertos como o dos Black (Bombaim) Gnod, que continue assim.

O dia de encerramento do Milhões ficou ainda marcado pela estreia dos ingleses Alt-J no preciso momento em que começam a tornar-se um fenómeno pop em Inglaterra – outra boa marca do Milhões de Festa, a possibilidade de ver bandas no seu tempo certo, no momento da revelação. A delicadeza das canções do quarteto de Leeds não provocaram naturalmente a euforia que o Palco Milhões viveria mais tarde com os Red Fang, mas provaram como a música de “An Awesome Wave”, o álbum de estreia, é uma síntese feliz do moderno e do intemporal, do néon urbano e da placidez bucólica, de desejo de experimentação e apreço pelo formato canção clássico. Num momento ouvimo-los em harmonizando as vozes “a capella” como em preciosidade folk perdida nos tempos, no seguinte somos assaltados pelos ritmos secos e quebrados do baterista que dispensa pratos ou pelos graves de sintetizador que nos ressoam na caixa torácica. Numa cena britânica que, no que à pop diz respeito, anda anémica há muito, os Alt-J são uma bem-vinda novidade. Pelo palco Milhões passaram “Matilda”, de raízes folk bem expostas, uma “Breezeblock” recebida com entusiasmo pelo público que já tem os Alt-J no radar melómano e essa “Taro” que é balada trágica que o ritmo do baterista, como sempre, transforma em algo mais indefinido e desafiador.

Entre o encontro com uma novidade que começa a marcar o panorama musical contemporâneo (os Alt-J), o mergulho de cabeça numa experiência única (o encontro dos Black Bombaim com os Gnod), a entrega ao rock mais visceral, mais físico (o dos Red Fang), e o festim hedonista que transforma palcos a céu aberto em pistas de dança (a Discotexas Band) revela-se a identidade deste Milhões de Festa cuja quinta edição terminou ontem. As expectativas da organização foram superadas, as do público não precisavam de o ser. O Milhões de Festa não engana. É sempre um prazer.