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Megafone

Frank Ocean e a bissexualidade masculina

A recente “saída do armário” de Frank Ocean tem provocado uma miríade de reacções um pouco por toda a Internet, muitas delas expressando que Frank Ocean é gay. Isto é falacioso e ainda demonstra o quão mal compreendida é a bissexualidade

Para um homem, é perfeitamente aceitável e compreensível que uma mulher tenha vontade de estar com outras mulheres: mesmo assumindo-se totalmente heterossexual, o homem vê a mulher como uma figura tão divina que, na cabeça dele, faria sentido se todas as mulheres fossem lésbicas. No entanto, um homem ter mínima queda para o mesmo sexo é, para outro homem, algo absolutamente repulsivo, e apenas consegue perceber isso nos, tão diferentes dele, homossexuais.

Eu gosto tanto de mulheres quanto qualquer homem, e gosto tanto de homens como qualquer mulher. Esta noção é, ainda hoje, depois de tanto progresso a que temos assistido na abertura de mentalidades em relação à homossexualidade, difícil de perceber.

Admito que não tive, não tenho, nem terei as dificuldades sociais que terá alguém exclusivamente homossexual. Sempre vivi com a minha atracção por homens escondida debaixo daquela por mulheres, sempre escondi isto em mim, nunca pensei que iria contar a alguém e que algum dia a minha força de vontade de estar com um rapaz ultrapassasse as barreiras sociais que tanto me assustam. Ser julgado por um ou outro amigo mais conservador, ter de contar aos pais, passar pelo secundário, deve ser um terror; tudo isto, dispensei bem na minha vida. Ter de ser aberto ao mundo, nunca foi, portanto, a minha maior vontade.

Quando cheguei ao 12º ano e uma professora perguntou à turma quem é que tinha namorada ou namorado, aos rapazes e raparigas respectivamente, pensei na pergunta de outra maneira, pensei que a pergunta fazia todo o sentido e que achava natural se as pessoas achassem que eu era gay, achava que era uma dedução natural, embora nunca ninguém alguma vez mo tenha dito, e nem fosse totalmente verdade.

Porém, meses depois, arranjei namorada, a primeira pessoa que julguei saber disto tudo. Falávamos fantasiosamente de ménages-à-trois com outro rapaz, comentávamos juntos os rapazes, mas nunca lhe confessei mesmo nada. Até ao dia em que acabámos, e, na nossa primeira conversa racional, lhe disse, “quero tanto estar com um rapaz”. Depois de oito meses escondido atrás de uma relação com uma rapariga, senti finalmente a necessidade fatal de me meter com o meu próprio sexo. Ela reagiu com um certo choque. Admito que o timing também não foi o melhor.

Depois de ficar sem namorada e entrar na universidade, a minha vida mudou muito. Aliás, virou ao contrário. E aos poucos fui falando mais à vontade de certas coisas, que fizeram com que fosse questionado e, finalmente, respondesse directamente a alguém: “Sim”. Mas nunca consegui contar a toda a gente. O que poderia eu dizer ao meu melhor amigo de infância? A outro melhor amigo que manda piadas homofóbicas? A ainda outro melhor amigo que vejo todos os dias e é possivelmente um dos rapazes mais bonitos que já conheci e com o qual costumo comentar as raparigas da nossa turma? Isto tudo aliado à falta de confiança com a qual vivo diariamente faz com que sinta constante medo de ser totalmente mal compreendido.

Outro motivo pelo qual, ainda hoje, não sou aberto a maior parte das pessoas, é a questão da “moda”. Já ouvi tantas vezes, de heterossexuais e de homossexuais, até já um célebre artigo sobre isso houve, que “ser gay/bissexual está na moda”. Sinceramente, não sei como é que alguém conseguiria fingir algo que é tão um impulso físico, algo tão pouco racional, apenas para estar na moda. Só sei que, devido ao facto de a sexualidade alternativa na minha universidade (sim, é artística) ser tão frequente, que tenho medo de ser passado por alguém que está a seguir uma moda, que se quer inserir na sociedade artística, ser pseudo, ser hipster. E ser bissexual é ainda pior. Porque é nunca renunciar ao sexo oposto, é um aparente sinal de fraqueza aos olhos do, tão moral e puro sexualmente, hetero ou homossexual.

Acho que, se as pessoas soubessem de todos os meus problemas, não duvidariam que a minha sexualidade não é nem nunca será uma escolha, e muito menos baseada na opinião social. De que serve ter uma sexualidade alternativa para impressionar, se eu não consigo contá-la a quase ninguém? Foi preciso meter-me numa curta relação com um rapaz para ter confiança em mim suficiente para estender ligeiramente o pequeno círculo de pessoas que sabem que eu sou bissexual. Ainda hoje sinto que ninguém me percebe muito bem.