Lisboa

Ao domingo, a fábrica acolhe e reinventa a velhinha feira da ladra

Há quem dê início a novos negócios, do artesanato à gastronomia, nas bancas do Lx Market, todos os domingos em Alcântara
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Há quem dê início a novos negócios, do artesanato à gastronomia, nas bancas do Lx Market, todos os domingos em Alcântara Enric Vives-Rubio

O Lx Market, em Alcântara, propõe, a cada semana, um domingo entre relíquias e achados vintage, produtos naturais, peças em segunda mão ou criações originais. Uma feira da ladra à moda da Lx Factory.

Por entre os velhos mas ainda imponentes edifícios que compõem o espaço Lx Factory sente-se um certo fervilhar. Outrora sede da Companhia de Fiação e Tecidos Lisbonense, a comunidade empresarial, na alfacinha Alcântara, vive a criação como um processo sempre em movimento. Seja nos negócios de moda, de comunicação e publicidade, nos ateliês de arquitectura e oficinas de joalharia ou nos estúdios de fotografia. E, este ano, a cada domingo, há ainda mais animação, graças a um mercado que convida a cidade a entrar por este dinamismo adentro: o Lx Market.

Para alinhar nesta feira da ladra moderna, que se realiza desde Janeiro, basta escolher um domingo qualquer e, saindo do Calvário, seguir pela Rua Rodrigues Faria. Não é preciso sequer decorar número de porta: o destino fica mesmo no fim da via, para lá de uma grande entrada de onde se observa, desde manhã cedo, uma esplanada que convida ao pequeno-almoço, mais ou menos almoçarado. E o nosso destino fica mesmo ali, a dois passos. O Lx Market espraia-se pela calçada interior que, num crescendo ao longo do dia, vai sendo ocupada com itens que, inovadores ou vintage, são postos à venda pelos seus proprietários. Tudo, garantem, em bom estado e a bom preço.

"Não é só um mercado de compra e venda, é um mercado afectivo", considera Teresa Lacerda que, em conjunto com Filipa Briz, se responsabiliza pela organização deste mercado caseiro. Domingo após domingo, os vendedores passam de concorrentes a amigos, companheiros de negócios em dias soalheiros e fins de tarde de agasalhos. Num cruzamento de gerações e acasos. "Há uma senhora já de alguma idade, aqui de Alcântara, que vem simplesmente pelo convívio", conta a mesma responsável. "É dos poucos dias em que sai de casa para passear." Depois há grupos de amigos, que aproveitam o bom tempo e o gosto tão português de "um cafezinho e um dedo de conversa" e que acabam por ser atraídos pelo colorido da feira. Ou quem chegue sozinho, talvez movido pela curiosidade, que de um acaso cria um hábito.

Pela rua, não muito longa, quem chega em busca de achados ou pechinchas vai dando voltas e mais voltas. E a cada volta, é garantida nova descoberta. Há os muito apreciados vinis, com registos longínquos, misturados com sonoridades mais actuais sob a forma de CD. Mais à frente, peças de cerâmica dividem o protagonismo com tecidos coloridos e, do outro lado, malas artesanais que apetecem pôr a tiracolo e surpresas gastronómicas que, de vez em quando, nos oferecem a provar. Como os licores de Maria d"el Juanito, apresentados por Maria e Juanito, um casal que quase nunca falha um domingo. Na banca, exibem as bebidas que produzem: uma fusão de chocolate branco, maracujá e vodka que apresentam como o Licor da Paixão ou o Licor do Amor que, numa mistura de chocolate amargo, piripiri e whisky, "além de saboroso, ajuda a vida amorosa", promete Maria, entre risos, ao mesmo tempo que recorda um pedido de casamento feito após a sua compra. Há ainda o Licor do Desejo, com chocolate branco, cereja e rum, mas "está ainda em fase de testes", esclarece.

Maria e Juanito são apenas um exemplo do grupo cada vez maior de pequenos produtores que procuram o Lx Market para vender e promover os seus produtos. "Muitos até dão um arranque ao negócio desta forma", enfatiza Filipa Briz. Além dos licores caseiros, abundam sabonetes biológicos, azeites e óleos, doces tradicionais. E, se continuarmos o passeio pelas bancas, é certo o avistamento de peças originais, de objectos de bijuteria e vestuário a peças de decoração, muitas assinadas por novos designers que agarram esta oportunidade para mostrarem as suas criações.

O mercado assume ainda uma vertente social, ao receber todas as semanas uma instituição de solidariedade, numa iniciativa que, considera a organização, se tem revelado bem-sucedida. Num destes domingos que por lá passámos, era a vez do Under the Blackbird"s Eye Project, do fotógrafo Xavier Martins, que retratou o Kosovo entre 1999 e 2000, regressando dez anos depois para repetir as mesmas imagens. O resultado dessas viagens compõem uma série de postais cujas receitas de venda se destinam a organizações humanitárias naquela zona dos Balcãs.

Chegados ao final da rua, a única coisa que parece fazer falta é uma esplanada para descansar das andanças e compras. E a esplanada pode estar mesmo quase a surgir: "Se tudo correr bem, é para breve", promete a organização do mercado.

A fábrica não pára

Mas não é só ao domingo que a Lx Factory merece uma visita. É frequente o espaço receber concertos, teatro e outras iniciativas. Mas, mesmo que a agenda esteja vazia de eventos, uma incursão à antiga fábrica revela sempre uma ou outra surpresa.

Por estes dias, vagueando pelo espaço surgem-nos vestígios da Wool, o Festival de Arte Urbana da Covilhã. O balneário da Lx Factory ganhou vida com o mural Desassossego de Mário Belém e Hugo Makarov e, a meio da rua, reconhecível pela parte de trás de um Lancia a sair da parede, o mural Rio Tejo de Bordalo II. Ao lado do balneário, a Red Bull House of Art. O antigo depósito de água exibe, até 11 de Agosto, a instalação O Sol que Emite uma Luz Negra, de Lúcia Prancha (3.ª a sáb., 14h às 19h). E a vista, de 360 graus para a cidade de Lisboa, justifica a visita.

De volta ao centro da acção, na rua onde se desenrola o mercado, a livraria Ler Devagar vale sempre uma espreitadela. Nem que seja pela beleza de ver um antigo armazém forrado a livros até ao tecto. Novidades, edições antigas, publicações não comerciais e outras grandes preciosidades encontram-se por aqui. Pelo amplo espaço, onde antes funcionava uma rotativa de impressão de jornais, podemos folhear demoradamente um livro. Mesmo ao lado, a discoteca da Ler Devagar, especializada em música portuguesa e dos países lusófonos. É por aqui que nos cruzamos com o primeiro (e único) turista. Alheio a tudo, devora um livro.

O Lx Market funciona todos os domingos das 12h às 20h (no Inverno entre as 11h e as 18h). Para conseguir um espaço na feira, é necessário preencher uma inscrição no site do mercado (www.lxmarket.com.pt) e pagar entre 24,60€ e 30,75€.