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Dulce Félix: da linha de montagem à linha de meta

Ana Dulce Félix enrolada na bandeira portuguesa, após a final dos 10.000m nos Europeus de atletismo
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Ana Dulce Félix enrolada na bandeira portuguesa, após a final dos 10.000m nos Europeus de atletismo Foto: Tobias Schwarz/Reuters

Um emprego fixo é um objectivo cobiçado neste momento em Portugal, mas Ana Dulce Félix precisou de o abandonar para conseguir atingir o topo na sua outra ocupação: correr.

Entrar na última volta da final dos 10.000 metros do Campeonato da Europa de Atletismo com quase nove segundos de vantagem sobre as adversárias é algo que não é compatível com um trabalho a tempo inteiro. A atleta minhota trabalhou cerca de nove anos numa fábrica do sector têxtil, mas só começou a atingir o seu potencial depois de decidir que se dedicaria exclusivamente ao atletismo. A opção nunca deu frutos como no último domingo, em Helsínquia, Finlândia, onde se tornou a sexta atleta a conquistar uma medalha de ouro para Portugal num Europeu.

A um mês de disputar a maratona nos Jogos Olímpicos de Londres, na qual tem expectativas de terminar nas dez primeiras, Dulce Félix, de 29 anos, juntou-se a um grupo exclusivo em que já estavam Rosa Mota (três vitórias na maratona), Francis Obikwelu (duas nos 100m e uma nos 200m), Manuela Machado (duas na maratona), Fernanda Ribeiro (10.000m) e António Pinto (10.000m), responsáveis por dez dos títulos portugueses nos Europeus de pista, evento que se realiza desde 1934. O 11.º teria sido possível sem a opção que Dulce tomou há menos de quatro anos, no final de 2008? "Não, seria muito difícil", responde a própria, ouvida pelo PÚBLICO. "Desde que deixei de trabalhar os resultados apareceram. Tenho mais descanso, mais disciplina no treino. Optei por deixar o emprego e não estou nada arrependida", explicou.

Não é coincidência então que as dez medalhas que conquistou em grandes competições internacionais (quatro individuais e seis colectivas) tenham todas sido obtidas de 2008 para cá. "Não chega só treinar, também se tem de descansar. Levantar às 6h da manhã para treinar e depois ir trabalhar não dá. Assim, só se pode evoluir até certo ponto", explicou Maria do Sameiro Araújo, a treinadora de Dulce Félix desde 2007.

O triunfo em Helsínquia teve outro significado para um país que historicamente sempre produziu óptimos fundistas: foi a primeira grande vitória portuguesa no fundo desde que Fernanda Ribeiro foi campeã olímpica nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, também na dupla légua. Há alguns anos, não parecia possível. Nem a Dulce Félix, que admitiu nunca ter pensado ganhar a vida como profissional de atletismo. Começou a competir no ACR Conde, antes de passar, aos 12 anos, para o Vizela, clube que representou até se transferir para o Sporting de Braga em 2007, aos 24 anos. Nessa altura, ainda trabalhava. Durante o período em que conjugou a carreira desportiva com o emprego na fábrica de confecções da J. F. Almeida, em São Martinho do Conde (Guimarães), de onde é natural, mostrou o mesmo espírito de sacrifício que é apontado como uma das suas grandes qualidades. Ajudava a fazer toalhas. "Trabalhava oito horas de pé em frente a uma máquina automática, das 6 da manhã às duas da tarde. Quando decidi passar a treinar duas vezes por dia, fui falar com o patrão para ver se me deixava trocar os horários. Passei a trabalhar das 8 às 16 horas. Treinava às 6 da manhã antes de ir para a fábrica e depois ao final da tarde. Fiz isto uma época, não aguentei", revelou. Quando escolheu deixar o emprego para se concentrar a 100% no atletismo, ganhava um salário de 455 euros.

Rapidamente percebeu que tomou a opção correcta. Em 2009, nove anos depois de fazer a sua estreia internacional como júnior, acumulou vitórias em corta-mato (Tilburg, Roeselare e Torres Vedras) e na estrada (São Silvestre de Lisboa e da Amadora), retirou, por exemplo, 40 segundos de uma só vez ao seu recorde pessoal nos 5000m e até foi eleita atleta europeia do mês de Novembro pela Associação de Atletismo Europeia, que a voltou a coroar exactamente dois anos depois, por causa do excelente quarto lugar na Maratona de Nova Iorque e o sucesso no crosse da Amora. Ela, Jéssica Augusto e Nélson Évora, campeão olímpico do triplo salto, são os únicos portugueses que receberam este prémio duas vezes. Na pista, também deixou vários sinais de qualidade, como o oitavo lugar nos 10.000m do Mundial de Daegu (Coreia do Sul), em 2011, no qual foi a melhor europeia, um indício do que viria a fazer um ano depois.

Na Finlândia, a atleta do Maratona ganhou os 10.000m do Europeu de forma categórica. Fugiu da concorrência a oito voltas do fim e ninguém a conseguiu acompanhar. "Pensava que me poderiam apertar mais um bocado pelo menos até ao último quilómetro, mas, felizmente, não. Não queria que acabássemos todas juntas no final, assim não ganharia de certeza, porque as minhas adversárias têm melhor ponta final", disse Dulce Félix, sobre a corrida que lhe permitiu vencer a primeira medalha de ouro individual em grandes competições internacionais. O risco compensou: a diferença para a segunda, a britânica Joanne Pavey, foi superior a quatro segundos.

Prémio "milionário"

O seu currículo prova que é uma atleta todo-o-terreno. "Tem excelentes resultados em corta-mato, em pista e em estrada, que é onde mais gosta de correr", sublinhou Sameiro Araújo, que completa o perfil da sua pupila. "É extremamente lutadora e bastante determinada. Quando tem objectivos, luta até ao fim. Tem um espírito de sacrifício notável e gosta de fazer muitos quilómetros". Características que assentam que nem uma luva na maratona, a sua grande aposta e a prova que vai disputar em Londres, na sua estreia nos Jogos Olímpicos, apesar de também ter mínimos para os 10.000m. O regime de treino para a maratona olímpica inclui correr 200 a 220 quilómetros por semana durante três meses.

Na primeira tentativa na prova mais longa do atletismo, em Nova Iorque, desistiu aos 33km. Na segunda, em Viena, terminou no 2.º lugar, conseguindo um grande tempo e o mínimo olímpico. Depois, em Novembro passado, brilhou no regresso à cidade norte-americana e a uma das melhores maratonas mundiais: foi quarta, a primeira não-africana. Pela sua performance nesse dia recebeu o que levaria mais de 77 meses a ganhar no seu antigo emprego: mais de 35 mil euros (um cachê não-divulgado, mais 17.500 euros pelo 4.º lugar e outro tanto pela marca: 2h25m40s).

Com essa marca, Dulce Félix passou a ser a quinta portuguesa mais rápida de sempre na maratona, atrás apenas de Rosa Mota, Jéssica Augusto, Manuela Machado e Marisa Barros. Mas mesmo assim não pensa, realisticamente, em medalhas nos Jogos. "Um Europeu não se equipara a uns Jogos Olímpicos ou a um Mundial. Vão competir atletas de todo o mundo e as candidatas têm tempos cinco minutos mais rápidos do que a minha melhor marca...". Segundo os registos da Federação Portuguesa de Atletismo, a corredora do Maratona, clube que representa desde 2010, é também a 7.ª do ranking nacional nos 10.000m, a 8.ª nos 5000m e a 15.ª nos 1500m, além de deter o recorde português da meia-maratona.

Medalhada nos dois últimos Europeus de corta-mato (3.ª em 2010 e 2.ª em 2011), conseguiu agora a sua vitória mais famosa aos 29 anos, o que não é demasiado tarde para uma fundista de elite. "A Manuela Machado e a Conceição Ferreira, duas atletas que treinei, começaram a ganhar aos 29 anos e ainda conquistaram vários títulos depois disso", sublinhou Sameiro Araújo, que reconhece só ter percebido o verdadeiro potencial de Dulce Félix depois de ter começado a trabalhar com ela. "Sabia que era uma boa atleta, mas sinceramente nunca pensei que poderia chegar aonde chegou", admitiu. A sua atleta também teve dúvidas e também por isso demorou a deixar o trabalho na fábrica de têxteis. Foi um risco, mas calculado, porque, afinal, Ana Dulce Félix já tinha outro emprego a tempo inteiro: correr. O talento para o cumprir bem foi determinante para que, seis anos depois, se voltasse a ouvir A Portuguesa num Europeu de atletismo. Um trabalho bem feito.