Entrevista a Patrícia Mamona

"Eu era um bocado rebelde e fugia de casa para ir treinar"

A vice-campeão europeia do triplo salto quer chegar à final olímpica nos Jogos de Londres
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A vice-campeão europeia do triplo salto quer chegar à final olímpica nos Jogos de Londres Foto: Laszlo Balogh/Reuters

Nos últimos anos, o atletismo português ganhou relevância nos saltos com os resultados de Naide Gomes no comprimento e de Nelson Évora no triplo salto. Depois dos Europeus que estão a decorrer em Helsínquia, há mais um nome a acrescentar à lista: Patrícia Mamona, que se sagrou ontem vice-campeã europeia do triplo salto.

A atleta do Sporting, de 23 anos, fez a sua melhor marca do concurso logo no primeiro salto (14,52m), um novo recorde pessoal que também foi o novo máximo português da especialidade. Nem Évora nem Naide, lesionados, estarão em Londres, onde seriam candidatos a medalhas, um objectivo que não passa, para já, pela cabeça desta jovem estudante de Medicina que foi viver para os EUA aos 19 anos. Mas em 2016, no Rio de Janeiro, admite que pode chegar ao pódio.

Esta medalha foi uma surpresa para si...

Foi uma surpresa, não estava nada à espera. Queria bater o meu recorde pessoal (que é recorde nacional), ir a uma final e dar o meu melhor. Há dois anos já tinha sido finalista - fiquei em oitavo - e queria fazer pelo menos igual. O pódio e a competição em geral foi uma surpresa. A qualificação foi muito fácil para mim, completamente ao contrário de há dois anos, que foi mesmo à última. Na final, fiz o meu melhor salto logo ao primeiro ensaio. Foi um momento fantástico.

Qual é a importância de fazer um salto daqueles logo ao primeiro ensaio?

Dá confiança para o resto do concurso e, de certa forma, atribular as adversárias. Se elas querem fazer melhores marcas, têm de saltar mesmo a sério. A campeã também fez o melhor salto logo à primeira.

Quais foram as diferenças entre o Europeu de 2010 em Barcelona e este?

Há dois anos vinha de uma época longa nos EUA, e foi lá que comecei a saltar 14 metros. Fui a Barcelona principalmente para aproveitar a competição.

É um habito fazer o melhor salto logo à primeira?

Costuma acontecer exactamente o oposto. Costumo melhorar com o decorrer da prova. Ainda bem que abri logo com uma boa marca. Depois, tentei acalmar-me porque estava muito emocionada. O treinador, de fora, só dizia: "Calma, calma, isto ainda é só o primeiro ensaio, tens mais cinco saltos", mas as emoções tomaram conta de mim. Os outros ensaios já não foram tão bons como o primeiro, estava a tentar manter-me calma, estava toda contente. Se as outras fizessem melhor, eu estava lá para responder.

Era esta a marca que esperava fazer nesta altura da carreira?

Esta marca até apareceu um bocadinho tarde. Esperava já estar a saltar assim há algum tempo, mas não aconteceu. Mas tenho estado muito bem nestas competições e vou conseguindo corrigir alguns erros técnicos durante a época, mas ainda tenho muito para melhorar, o que para mim é óptimo, porque significa que ainda tenho muita margem de progressão.

Chegar aos 15 metros?

Quem sabe daqui a quatro anos... Nos Jogos Olímpicos do Brasil talvez possa ser uma candidata à medalha... Estou no bom caminho.

E para estes Jogos de Londres?

Bater o meu recorde pessoal e chegar à final. Tudo o que vier a seguir é um prémio.

Fez bem a mudança para os EUA em 2009?

De certa forma, melhorei muito a nível de força e de rapidez.

Foi difícil a adaptação aos EUA?

Não foi nada complicada. Tirando a língua, já que eu não estava habituada a falar inglês de forma tão continuada. Quanto a viver sozinha, já estava mais ou menos habituada a este estilo de vida, já que o meu pai foi viver para Inglaterra há algum tempo. Se eu chegasse lá e não gostasse, podia sempre voltar a Portugal. Não tinha nada a perder.

E apetece-lhe ficar por lá?

Sim e não. Não gosto de ficar muito tempo afastada da minha família. Mas tenho lá amigos e quero continuar os meus estudos, o que para mim é o mais importante. Em Portugal está difícil conseguir equivalências e ficar nos EUA é a melhor opção.

Quanto tempo mais até acabar os estudos?

A segunda parte do meu curso são quatro anos, mas tudo vai depender de como conseguir conciliar os estudos e o atletismo a grande nível. Provavelmente os estudos vão ficar para segundo plano.

Como é que começou no atletismo?

Comecei no desporto escolar. Quando era mais nova, comecei em provas de corta-mato e acabei por ganhar à minha turma. Depois, convidaram-me para ir fazer atletismo, mas os meus pais não eram muito a favor.

Como é que os convenceu?

Eu era um bocado rebelde e fugia de casa para ir treinar. Depois o meu treinador foi falar com os meus pais e eles lá aceitaram.