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Empresa de Pereira Cristóvão foi contratada logo após tomada de posse

Ex-vice está indiciado de burla qualificada, peculato e branqueamento de capitais, entre outros crimes
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Ex-vice está indiciado de burla qualificada, peculato e branqueamento de capitais, entre outros crimes Foto: Pedro Cunha

O contrato entre a empresa de investigação, acusada de ter vasculhado a vida de jogadores do Sporting e de árbitros, foi assinado com o clube de Alvalade poucos depois da tomada de posse da direcção presidida por Godinho Lopes, no final de Março de 2011. O acordo, segundo o PÚBLICO apurou, foi assumido pela sociedade Sporting Património e Marketing (SPM), por sugestão de Paulo Pereira Cristóvão, e rubricada pelos vice-presidentes Carlos Barbosa (que abandonou a direcção em Fevereiro último) e José Filipe Nobre Guedes. Ambos já foram ouvidos pela Polícia Judiciária (PJ) e alegaram desconhecimento sobre a verdadeira actividade do prestador de serviços.

“O contrato foi-me entregue por Paulo Pereira Cristóvão um mês depois de entrar no clube”, admitiu ao PÚBLICO Carlos Barbosa, que na altura presidia a SPM: “Estranhei apenas tratar-se de algo relacionado com o futebol, mais no âmbito da SAD [Sociedade Anónima Desportiva], mas ele explicou-me que essa sociedade estava com muitas dívidas e não tinha meios financeiros para este encargo.” Assim, o ex-dirigente, informado que o presidente Godinho Lopes estava a par de tudo, acabou por assinar um contrato que envolvia o pagamento de “pouco mais de oito mil euros, mais uma outra verba, que no total deveria perfazer aproximadamente 10 mil euros mensais.” De seguida, o documento foi igualmente assinado por Nobre Guedes, arquitecto da recente reestruturação financeira leonina.

“Foi isto mesmo que fui dizer à PJ, quando fui chamado a prestar declarações. Só ali é que fui esclarecido que esta empresa era suspeita de fazer perseguições e espionagem a jogadores. A mim, ele [Pereira Cristóvão] apenas adiantou que o contrato se destinava à ‘logística do futebol’. Nunca desconfiei que fosse algo menos lícito”, justificou Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Clube de Portugal. “Para minha grande surpresa, a Judiciária informou-me que tinha assinado um papel que era o documento-chave de todo este processo. Aquele que fazia sair o dinheiro do Sporting para a tal empresa de espionagem que, por sua vez, estava relacionada com outras que envolviam o Paulo Pereira Cristóvão”, contou.

O PÚBLICO procurou também na quinta-feira contactar Filipe Nobre Guedes, mas tal não foi possível. O mesmo aconteceu em relação a Godinho Lopes, que viajou na quarta-feira para Angola, na companhia de José Maria Ricciardi, vice-presidente do Conselho Fiscal e Disciplinar dos “leões” e presidente do Banco Espírito Santo Investimentos. Neste país, os responsáveis do clube lisboeta procuram um investidor e capital fresco para a depauperada SAD sportinguista.

A reunião misteriosa

Dois meses depois de ter sido constituído arguido (12 de Abril), por denúncia caluniosa, acusado de ter montado uma armadilha ao árbitro assistente José Cardinal, em vésperas do Sporting-Marítimo, dos quartos-de-final da Taça de Portugal (3-0), Paulo Cristóvão acabou por anunciar a sua saída do clube, onde entrou há 15 meses. Inicialmente, o ex-vice-presidente para o património, infra-estruturas e para as relações com as claques chegou a pedir a suspensão do seu mandato (uma situação que não estava prevista nos estatutos do clube), mas acabou por voltar atrás, cinco dias depois, após uma longa reunião em Alvalade, que durou nove horas.

Um encontro que, segundo o PÚBLICO apurou, ainda hoje levanta questões a alguns dos seus intervenientes. Numa primeira fase, Godinho Lopes defendeu a saída do seu ex-vice-presidente para proteger o nome do Sporting, apoiado vivamente por Luís Nobre Guedes e pelo vogal (e deputado do PS) Rui Paulo Figueiredo. Após uma pausa e uma reunião paralela entre o presidente e Pereira Cristóvão, o líder leonino mudou de opinião, defendendo a continuidade do dirigente. Este argumentou ao longo de toda a reunião ser vítima de uma armadilha montada contra si, envolvendo a própria PJ, onde já desempenhara funções como inspector.

Argumentos que haveriam de vingar, acabando por ser reintegrado, contra os desejos de muitos dos restantes dirigentes, nomeadamente a Mesa da Assembleia Geral liderada por Eduardo Barroso.