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Falta de desejo sexual tende a ser mais frequente nos trintões

A falta de interesse sexual também afecta os mais novos. É na “casa dos 30” que o problema é mais frequente. O dia-a-dia stressante e as incertezas profissionais são os culpados

Ao contrário do que sugere o senso comum, é na “casa dos 30” que a falta de desejo sexual tende a ser mais frequente. Esta é uma das conclusões de um estudo de Ana Alexandra Carvalheira, presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica, que incidiu sobre uma amostra de quatro mil homens portugueses.

A pergunta era simples: “admite ter perdido o interesse sexual durante pelo menos dois meses no último ano?”. Os resultados dão que pensar: é entre os 30 e os 39 anos que uma maior percentagem de homens responde afirmativamente (24,1%); por outro lado, é na faixa etária superior a 60 anos que se verifica uma percentagem menor (10%), menor até do que entre os homens mais jovens — dos 18 aos 29 anos (16,7%).

De facto, o desejo sexual humano não é uma simples pulsão fisiológica, como a fome ou a sede ou como funciona nos animais. Não é necessariamente quando o corpo está no auge da sua vitalidade que ele é mais frequente. Para além das questões biológicas, a vertente psicológica e a sociocultural completam o triângulo de determinantes da vontade de ter sexo.

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“O nosso dia-a-dia é anti-erótico”

Francisco Allen Gomes explica alguns mecanismos biológicos do desejo sexual

“Aparecem-nos casais jovens com pouca actividade sexual porque realmente, hoje em dia, o nosso dia-a-dia é anti-erótico”, destaca Francisco Allen Gomes, especialista em Psiquiatria com um vasto trabalho na área da Sexologia Clínica.

A presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clinica fala da desconexão das mulheres com o corpo

Ana Alexandra Carvalheira, que conduziu o estudo referido, avança o “cansaço, o ritmo de vida acelerado e o stress profissional” como explicação para os resultados a que chegou.

É também importante que “a pessoa se sinta bem com o seu corpo”. Ana Carvalheira revela que este problema afecta principalmente as mulheres. Muitas “vivem completamente desligadas do corpo”. “Não interpretam os sinais do seu corpo. Muitas vezes têm uma resposta física de excitação sexual mas não há correspondência a nível subjectivo”, explica (ouve áudio à esquerda).

Ainda do ponto de vista psicológico, na existência de uma relação entre os parceiros sexuais, e sendo esta de longa duração, é normal que o casal passe uma “deserotização”, destaca.

A forma como cada indivíduo foi educado e socializado para a sua sexualidade vai ter também influência no seu interesse. “Se a pessoa está inserida numa sociedade que não permite a expressão sexual, o seu cérebro vai ser mais sensível a mecanismos de inibição do que a mecanismos de excitação”, esclarece Francisco Allen Gomes.

O que o corpo determina

Do ponto de vista biológico, sabe-se que “para haver uma excitação sexual, tem de haver uma parte cerebral que faça uma apreciação do estímulo e considere se é ou não positivo, depois é activada uma área motivacional, há uma resposta endócrina [hormonal], uma resposta do sistema nervoso autónomo e, finalmente, uma resposta emocional”, explica Francisco Allen Gomes (ouve áudio à esquerda).

Dando ainda atenção ao corpo, é de destacar que o nível de desejo pode ser alterado, pela toma de determinados medicamentos ou por problemas de saúde. A depressão e a toma de antidepressivos, ou problemas que afectem a irrigação sanguínea ou a condução nervosa (diabetes, hipertensão, excesso de gorduras no sangue, entre outros) são exemplo disto.

Se o desejo não surgir não vale a pena, no entanto, entrar em alarmismos. Cada pessoa tem o seu perfil de desejo sexual, e só quando este causa incómodo ou insatisfação estamos perante um problema. “A maior parte das vezes, não há uma disfunção mas sim uma dificuldade, uma diminuição de desejo por alguma circunstância da vida”, esclareceu a presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica.