Ludopédio

Salvador inventou um Braga de elite, Jardim está a torná-lo mais refinado

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António Salvador é o denominador comum de um Sporting de Braga que não precisou de muito tempo para se tornar ambicioso e capaz de ameaçar a ditadura dos três "grandes". Na fórmula entraram outros ingredientes, como o apoio da câmara municipal, a qualidade dos treinadores e dos jogadores contratados e o crescimento exponencial das estruturas, do orçamento e até do número de adeptos que passaram a ter o clube da cidade como primeira escolha. A verdade é que Salvador também pode reclamar os seus méritos em qualquer um destes itens.

Eleito há nove anos, o jovem presidente bracarense tem um estilo de gestão pouco ortodoxo e nada consensual. Gosta de se rodear de bons profissionais, mas, por vezes, acaba por os desautorizar em episódios em que explode e acaba a usar o vernáculo bem à moda do Norte. Vê-lo aos pontapés aos caixotes do lixo não é nada de anormal. Mas foi o seu espírito de exigência a contribuir para a mudança de mentalidades. A sua ambição começou por ser vista como desmedida, mas essa batalha acabou por também a ganhar, tanto em termos internos como na forma como hoje o clube é visto por adversários, agentes desportivos e comunicação social.

Salvador nunca escondeu o sonho de conquistar troféus e, na assembleia geral de apresentação de contas, em Outubro, mostrou até confiança na conquista do título: "Não sei quando, mas pressinto que vai acontecer". O presidente bracarense tem levado a água ao seu moinho no que respeita ao desempenho desportivo, mas fá-lo sem abdicar de uma gestão financeira rigorosa e sempre à procura do lucro.

No último exercício conhecido (2010-11), a SAD apresentou um saldo positivo de 5,2 milhões de euros (superior aos 3,3 da época anterior), para o que em muito contribuiu o desempenho nas provas europeias (primeiro na Champions e depois na Liga Europa, onde só perdeu na final para o FC Porto), que permitiu o encaixe de 18,7 milhões de euros. O bom desempenho no binómio desportivo e financeiro levou a que a UEFA atribuísse ao Braga o prémio "Best Sporting Progress 2011".

Para António Salvador todos os jogadores têm um preço, que ele faz questão que seja baixo quando tenta comprar e muitíssimo alto na hora de vender. No último defeso, o Braga gastou cerca de três milhões de euros em contratações ­- boa parte do dinheiro foi investido nos jovens Rodrigo Galo e Zé Luís, do Gil Vicente (onde estão agora, por empréstimo). Ao invés, conseguiu bons encaixes só com as transferências de Matheus para o Dnipro (Ucrânia) e de Moisés para o Al-Rayyan (Qatar). Mais, os sete milhões da venda de Sílvio ao Atlético de Madrid só serão contabilizados no próximo exercício, onde poderão ou não vir a constar os 15 milhões acordados com o clube madrileno caso opte por contratar o até agora emprestado Pizzi.

Hoje, o orçamento do Braga ronda os 15 milhões de euros, o mais baixo entre todos os actuais líderes dos grandes campeonatos europeus. Este valor poderá ser ligeiramente inflacionado em função dos prémios que venham a ser pagos aos treinadores e aos jogadores. Na época passada, os gastos com o grupo de trabalho foram de 14 milhões de euros, mais três milhões do que em 2009-10. Num caso e noutro, muito longe dos valores atingidos por Sporting, Benfica e FC Porto, cujo orçamento ultrapassa os 100 milhões de euros.

Salvador tem sabido imprimir também uma estratégia inteligente na forma como o clube se implanta e cresce na cidade. Contribuiu para isso a campanha que promove os "Guerreiros do Minho", slogan que deve causar urticária para os lados de Guimarães. Os jogadores e os treinadores são levados com frequência às escolas para sessões de promoção com os estudantes e, em certos momentos, o clube facilita os acessos aos jogos através da distribuição de bilhetes grátis ou patrocinados. Isso - a par dos resultados - tem contribuído para que a taxa de ocupação do estádio suba de forma sustentada.

A política seguida na contratação de treinadores também fica ligada ao sucesso. Houve casos de insucesso, mas a taxa de acerto é claramente positiva. A começar por Jesualdo Ferreira, que somou dois quartos lugares na liga em 2004-05 e 2005-06. Jorge Jesus também deixou a sua impressão digital. Terminou no quinto posto do campeonato, mas após uma boa participação na Liga Europa. Domingos anunciou que iria tentar fazer melhor. E conseguiu-o de forma clara. No primeiro ano, ficou no segundo lugar da liga, depois de ter lutado pelo título até à última jornada com o Benfica. E na época passada ficou na quarta posição, mas a presença na final da Liga Europa transformou-se num momento inolvidável. De tal forma que Salvador, pressionado pelos adeptos, viu-se obrigado a convidar Domingos a renovar, quando há meses assumira um compromisso secreto com Leonardo Jardim. Domingos lá aceitou ficar com o odioso da recusa à proposta, até porque também lhe surgira entretanto o convite do Sporting...

A verdade é que Jardim tem sido uma boa surpresa. Já se sabia que era alguém capaz de apresentar resultados (tinha promovido Chaves e Beira-Mar), mas restavam dúvidas sobre se a fórmula resultaria num clube com outras dimensões. Filho de ex-emigrantes e natural da Venezuela, licenciou-se em Educação Física na Universidade da Madeira, onde se estreou como adjunto no Camacha.

Em Braga, foi inteligente para aproveitar o melhor do que tinha herdado, até no que respeita ao desenho táctico. Quem trabalha ou já trabalhou com ele elogia a vertente psicológica do seu trabalho. Reservado por natureza, Jardim fala quase sempre em tom baixo e raramente na primeira pessoa. Mas engana-se quem pense que isso são sinais de falta de autoridade ou liderança. "Antes pelo contrário", garantem.

Num recente colóquio, o técnico confirmou ter uma forma de liderança muito própria quando revelou ser fã da estratégia GALO ("Gestão Andando de um Lado para o Outro"). Dentro das instalações do clube, entenda-se, porque não tem "o hábito de ligar o computador" nem fica "ao telefone com empresários"... Na referida palestra mostrou a forma sagaz como procura relacionar-se com a administração ("Só tenho reuniões pontuais para rever estratégias e dar conhecimento do que se passa"), colaboradores ("engraxo quem está abaixo, o roupeiro, o massagista... não o chefe. Escuto, escuto, escuto...) e os jogadores ("gostam de ser reconhecidos e temos de gerir os egos").

Independentemente disso, Jardim tem tido o mérito de encontrar boas soluções para os problemas resultantes tanto das saídas como das imensas lesões que têm atingido o plantel. Vandinho, pêndulo defensivo desde os tempos de Jorge Jesus, foi substituído sem drama, primeiro pelo líbio Djamal e agora por Custódio, que parece rejuvenescido. A certa altura, na defesa não restava ninguém que jogara na primeira jornada. Mas quem os substituiu nunca funcionou como corpo estranho. E até Leandro Salino se transformou num dos melhores laterais direitos da liga, antes de se lesionar.

Outra ausência importante resolvida com mestria tem sido a de Alan, um dos dez jogadores que já passaram pelo FC Porto, Sporting ou Benfica. Os restantes são Hélder Barbosa, Ukra, Miguel Lopes, Custódio, Hugo Viana, Nuno André Coelho, Quim, Ruben Amorim e Nuno Gomes. Apenas dois (M. Lopes e N.A. Coelho) não sabem o que é festejar um título nacional, algo que não será fruto do acaso.

O Braga nunca ganhou na Luz, mas pode nem precisar de o fazer para chegar ao título. Venha ou não a consegui-lo, já ninguém lhe tira o mérito de se ter transformado na melhor novidade do futebol português nos últimos anos.