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Os líderes estudantis recusam a ideia de os jovens de hoje não serem reivindicativos Laura Haanpaa
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Ricardo Morgado e Carlos Veiga lideram as academias de Coimbra e Lisboa Miguel Manso

Crise académica: os líderes estudantis de hoje também querem mudar o mundo

Na celebração dos 50 anos das lutas estudantis de 1962, o P3 foi conhecer os actuais líderes das academias de Coimbra e Lisboa. Viver em democracia torna a luta deles mais simples?

As primeiras memórias políticas têm Cavaco Silva, primeiro-ministro, e Mário Soares, presidente da República, como protagonistas. Lembram-se de auto-estradas a proliferar, da internet aparecer, da TVI a nascer, de estarem, de repente, inundados num mundo de informação. Na semana em que se celebram os 50 anos das revoltas estudantis de 1962, fomos conhecer os actuais líderes de duas das maiores universidades do país.

Carlos Veiga, presidente da Associação Académica de Lisboa (AAL), era sempre “o primeiro a falar sobre tudo” e o eterno eleito como delegado de turma. Ricardo Morgado, da Associação Académica de Coimbra (AAC), cresceu numa família filiada em partidos políticos e cedo se inscreveu nas estruturas locais da Juventude Social Democrática (JSD), em Gouveia.

Foi nas escolas que o associativismo começou a colar-se a eles. Aconteceu de “forma natural”, relembra Carlos Veiga, 25 anos: de delegado de turma e presidente da associação de estudantes, ainda no ensino secundário; quando entrou no curso de Direito da Universidade Católica, em Lisboa, rapidamente se tornou representante dos alunos no conselho pedagógico, tendo sido eleito presidente da Associação Académica da Católica no 4º ano. Mais tarde, surge a presidência da AAL, onde está desde Dezembro e 2011.

Ricardo Morgado, 23 anos, finalista do curso de Engenharia Biomédica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, foi também presidente da Associação de estudantes na escola secundária e juntou a esse treino algum envolvimento com a JSD. No 2º ano da faculdade começou a envolver-se em campanhas, no 3º foi convidado para a direcção-geral. “Aí tudo começou a ser mais sério.” Quando regressou de Praga, onde fez seis meses do programa Erasmus, iniciou a campanha para a presidência da AAC. Foi eleito no final do ano passado.

"Há coisas que não mudaram assim tanto"

Ser líder estudantil hoje é completamente diferente de ser líder estudantil há 50 anos? “Há coisas que não mudaram assim tanto, às vezes acho que é mais difícil lutar agora”, atira Ricardo Morgado. E o presidente da academia lisboeta arrisca uma justificação: “Naquela altura havia um inimigo com uma cara – o Estado Novo – e uma causa – a repressão”.

O papel das associações académicas está agora mais confinado ao ensino superior: o combate ao desemprego jovem, aos cortes no financiamento do ensino superior, bolsas e transportes e à desistência dos alunos por falta de condições são as grandes lutas deles.

Carlos e Ricardo não fazem ideia do que é viver num país onde não podem dizer a alta voz aquilo que pensam. Mas garantem que sabem bem o que é viver num país que não os ouve. “Hoje podemos falar, mas ninguém nos ouve”, lamenta Carlos Veiga. “O Estado escuda-se nessa democracia. Faz reuniões de concertação social e não negoceia. É uma ilusão, a democracia acontece de quatro em quatro anos".

O papel das universidades

A revolta estudantil de 1962 espalhou pelo país sementes que viriam a revelar-se fundamentais para o desmoronamento do regime ditatorial. Os estudantes universitários eram uma minoria muito respeitada e as universidades pequenas ilhas de debate, de liberdade, de diálogo. O que são hoje? “Um espaço de qualificação e preparação para o emprego”, responde o presidente da academia coimbrã.

A feroz competitividade e luta por um lugar no mercado de trabalho alterou a forma como os alunos se relacionam e encolheu o papel das universidades. “A estratégia é saber qual a média que precisam para entrar na empresa x ou y. A questão agora é o ‘meu emprego’ e não o ‘nosso Estado’”, lamenta Carlos Veiga.

Mas, a vontade de mudar o mundo, tão gritante na luta de 62, morreu? “Eles sabiam que podiam fazê-lo. Mudar o mundo era mudar Portugal, hoje mudar o mundo é mesmo mudar o mundo”, analisa Carlos Veiga. O líder de Coimbra lembra o “espírito de reivindicação” da geração à rasca para dizer que essa vontade não morreu, mas faz uso do mesmo exemplo para lamentar outro facto: “A juventude não tem interlocutores. O 12 de Março foi organizado por quatro pessoas, juntou milhares e depois não teve repercussões”.

A rua é para os dois dirigentes associativos a última luta (“Prefiro uma boa negociação a um longo litígio”, diz Carlos). Nenhum deles foi às manifestações de 12 de Março e de15 de Outubro. É preciso pensar no “depois da rua”, atenta Ricardo Morgado, sob pena de as manifestações não servirem para nada. “Era preciso que as associações académicas tivesse mais esse papel, já que as jotas não o têm. Mas é difícil mobilizar pessoas”.

O que os líderes estudantis garantem é que a política já não tem uma força relevante no associativismo universitário: nas listas que lideram há estudantes de todos os partidos e fazer carreira na política não é um objectivo para eles. "As juventudes partidárias ficaram com esse papel de captação de gente para a política", diz Ricardo Morgado. Dentro das universidades, só entram duas cores: "O preto e branco da associação", completa. 

Lê mais sobre os cinquenta anos da revolta estudantil de 1962 no Domingo, na Revista 2 do PÚBLICO, edição impressa ou exclusivo para assinantes.

Artigo alterado às 16h37. A fotografia foi corrigida.