Villas-Boas não é dado a depressões mas ainda deve largar uma "bomba"

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Villas-Boas continua em silêncio Foto: Reuters

André Villas-Boas transformou-se, a 22 de Junho de 2011, no treinador de futebol mais caro do mundo, depois de Roman Abramovich ter pago 15 milhões de euros para o libertar do FC Porto, onde o neto do 1.º visconde de Guilhomil acabara de ganhar todos os troféus em disputa. O Chelsea preparou então um contrato milionário de três anos para segurar o "mini- -Mourinho", mas AVB (como passou a ser tratado em Inglaterra) viu a auréola de técnico da moda consumir-se rapidamente no clube londrino ao longo dos últimos oito meses. E, como vários outros, acabou despedido pelo milionário russo. Desde aí, não teve nenhuma aparição pública, nem os tablóides ingleses conseguiram arrancar-lhe uma palavra, sinais que poderiam indiciar que o jovem de 34 anos vivia num quadro depressivo. Puro engano. Garante quem lidou de perto com ele no FC Porto que isso nem se coloca a quem "não tem picos de euforia nem de desânimo".

"O André é um caso especial: anda sempre com os pés bem assentes no chão, mas, ao mesmo tempo, tem o condão de conseguir andar com a cabeça nas nuvens", sublinha o referido responsável portista. O aparente contra-senso tem uma explicação: Villas-Boas tem a capacidade de "olhar com pragmatismo para as questões", de as analisar sob todos os prismas possíveis, mas, depois dessa fase mais analítica, "é também capaz de abordar os problemas de forma atrevida e surpreendente".

Quem lidou com ele no Dragão sabe que o jovem treinador tem, normalmente, "dois momentos de reacção". Neste momento, deve estar a viver o primeiro, "em que se limita a analisar a comunicação". "Ainda não falou porque está a apreciar tudo o que se diz e publica. Mas a seguir, no momento que achar mais oportuno, não se vai limitar a falar: vai largar uma "bomba". Não será, provavelmente, contra ninguém, mas será uma reacção com força."

A propósito, o responsável portista recorda a conferência de imprensa em que AVB tentou devolver a confiança ao FC Porto para a segunda mão da eliminatória da Taça de Portugal, que iria jogar na Luz. No primeiro jogo, no Dragão, o Benfica vencera por 2-0, mas AVB apresentou-se aos jornalistas com um discurso ainda mais confiante do que era habitual. "A mensagem foi assimilada pelos nossos jogadores" - os portistas venceram por 3-1 e acabaram por conquistar a prova.

O mais provável é que a "bomba" de que fala a fonte portista vá ser detonada por AVB de forma a atingir vários dos jogadores mais veteranos do balneário do Chelsea. A própria imprensa britânica considera que Lampard, Terry, Drogba e Ashley Cole, entre outros, contribuíram de forma decisiva para a saída do técnico português. A propósito, vale a pena atentar na seguinte passagem de um texto publicado pelo The Guardian: "A decisão de os próprios subordinados matarem o comandante acontece em todas as guerras quando os experientes soldados perderam o respeito pelo seu líder e passam a colocar a sua sobrevivência à frente da lealdade." Segundo o jornal inglês, aquela situação verificou-se no Chelsea por duas vezes: a primeira há três anos, com o brasileiro Luiz Felipe Scolari; a segunda agora, com o português.

O jornalista inglês Duncan Castles, que acompanhou durante muitos anos o Chelsea, revela ainda que André Villas-Boas logo na primeira conversa com Abramovich, antes de assinar o contrato, deixou clara "a necessidade de efectuar uma reestruturação, que incluía a venda ou a dispensa de alguns jogadores". Segundo Castles, deviam receber guia de marcha futebolistas como Lampard, Drogba, Cole, Essian, Malouda, Obi Mikel, Kalou e Paulo Ferreira. O guarda-redes Cech estaria na corda bamba e o espanhol Fernando Torres também podia ser dispensado, desde que alguém pagasse boa parte dos 58 milhões de euros que ele custou.

Assegura ainda o jornalista que Abramovich aquiesceu imediatamente. Mas, acrescenta, o russo terá acabado por nunca dar cumprimento ao plano por temer que isso pudesse causar-lhe problemas junto da FIFA, que vem desenvolvendo um projecto de fairplay financeiro precisamente para impedir gastos astronómicos e explorações deficitárias sistemáticas.

André Villas-Boas confiou em demasia no apoio que Abramovich lhe foi reafirmando em privado. Numa dessas conversas, o russo ter-lhe-á garantido que a "limpeza de balneário" ia mesmo fazer-se no final da corrente época, o que pode ter contribuído para o tiro no pé que a generalidade dos analistas desportivos locais consideram ter sido dado por AVB, quando afirmou que não precisava de "ter o apoio dos jogadores porque tinha a confiança do dono do clube".

Mas pode vir a não ser exactamente assim. Segundo a generalidade da comunicação social inglesa, Abramovich mantém a ideia de despedir boa parte dos jogadores que faziam parte da lista negra de Villas-Boas.

O Daily Express contou que Abramovich foi ter com Villas-Boas ao centro de estágio depois do treino matinal. Levou com ele o director executivo Ron Gourlay e, sem delongas, "comunicou-lhe que o seu tempo no clube tinha chegado ao fim". Com dois anos e dois meses de contrato para cumprir, pagos à conta de 4,5 milhões de libras por ano, a contratação e o despedimento do técnico português devem ter custado ao russo 27,5 milhões de libras.

No dia a seguir ao despedimento do técnico, Abramovich foi ao balneário falar com os jogadores. Começou por lhes dizer que se alguém discordasse da decisão podia seguir as pisadas do treinador. Mas, pela primeira vez desde que há sete anos comprou o clube, apontou também o dedo aos jogadores.

Oconhecimento destes factos irá funcionar, segundo Jorge Silvério, mestre em Psicologia do Desporto, como "causa atenuante", contribuindo para que André Villas-Boas não se deixe afectar animicamente com o despedimento. Aquele responsável, que é também o provedor do Adepto da Liga dos Clubes, diz haver muitos trabalhos sobre o despedimento em geral, mas "pouco ou nada" sobre as suas implicações e particularidades no mundo do futebol.

"A seguir a um despedimento surge, normalmente, um estado depressivo. Nem todos reagem da mesma forma, mas é normal surgirem problemas de auto-estima e de falta de confiança. Não conheço suficientemente Villas-Boas, mas por aquilo que me é dado perceber, ele é dos que têm grande autocontrolo", refere, antes de acrescentar os ganhos, nesta vertente, que AVB terá adquirido dos vários anos de contacto com José Mourinho.

Uma segunda fonte que lidou de perto com AVB no FC Porto acredita que o jovem técnico ficou muito desiludido com a decisão de Abramovich por achar que não merecia ser despedido. "Tinha deixado o clube e a cidade de que tanto gosta e a verdade é que acabou surpreendido quando percebeu que não tinha o respaldo que esperava do russo." Mas, acrescenta o mesmo responsável, a "arrogância, no bom sentido" vai permitir-lhe "levantar-se rapidamente".

De facto, as mais recentes informações apontam nesse sentido. André Villas-Boas é dado como estando perto de se mudar rapidamente para o Inter de Milão, no que seria continuar a trilhar os caminhos percorridos por José Mourinho.

O clube italiano perdeu a corrida a AVB no início da época, mas a imprensa transalpina garante que o dono Massimo Moratti mantém o interesse no técnico português.

Num artigo do Daily Express, intitulado "Como tudo correu errado a André Villas-Boas em 256 dias", é dito a certa altura que Villas-Boas foi despedido no dia a seguir a ter dito aos jornalistas que o Manchester City era melhor do que Chelsea. É possível que isso tenha funcionado como a última gota no copo cheio de Abramovich, a quem a contratação do português terá custado, directa e indirectamente, 60 milhões de euros, se incluirmos os dez milhões com que antes teve de indemnizar Carlo Ancelotti. Tal como o italiano, AVB sai de Londres com os bolsos cheios, o que também é bem capaz de ajudar a evitar os quadros depressivos...