“Só me lembro da dor no pulso que me fez largar a máquina”

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Pensou: "Saiu o meu número." Estava preparado. Toda a vida se preparara para aquilo. Ergueu o braço, o pulso a tremer sob o peso da máquina fotográfica, e disparou três vezes. Depois sucumbiu à dor, pousou a câmara. Telefonou à mulher, não queria que ela soubesse por outros. E agora sim, podia fumar um cigarro. Meteram-no num helicóptero Dust-off, que chegou àquele lugar do distrito de Arghandab, província de Kandahar, no Afeganistão, exactamente nove minutos depois da chamada. Mas disso João Silva já não guarda qualquer memória.

"Naquele momento tirei fotografias, porque é o que eu faço, é o meu instinto", diz ao Ípsilon numa entrevista por telefone a partir de Joanesburgo, a propósito da exposição que inaugura amanhã no Centro Português de Fotografia, Porto. "Em várias ocasiões, pessoas levaram um tiro, ao meu lado. E o que eu faço é começar a tirar fotografias. Sempre o fiz, com estranhos, com amigos. Se tivesse acontecido com o soldado que ia ao meu lado, teria continuado a fotografar. Teria continuado o meu trabalho".

Foi isso que fez a 18 de Abril de 1994, quando dois dos seus melhores amigos foram alvejados na "township" de Tokoza, arredores de Joanesburgo, num tiroteio entre apoiantes do ANC e a National Peacekeeping Force. Greg Marinovich estava a seu lado quando foi ferido, três vezes. E o que João fez foi fotografá-lo. Depois ajudou-o. Mas ouviu alguém gritar que Ken também fora ferido. Correu para o outro amigo, Ken Oosterbroek, que já estava a ser assistido por um colega. Fotografou-o também e voltou para Greg. Meteu-o num blindado e correram para o hospital, a uns quatro quilómetros. Greg sobreviveu, Ken não. Morreu logo no local, souberam depois. Greg ganharia o Pulitzer com as fotografias de Tokoza.

Quando era criança, João Silva não pensava ser fotógrafo. Nasceu em Lisboa há 45 anos, mas foi cedo viver para Moçambique, com os pais. Depois da independência, a família fixou-se na África do Sul. Foi já em Joanesburgo que foi um dia ajudar um amigo a fazer fotografias, para um trabalho de design gráfico. Gostou tanto que decidiu nunca mais fazer outra coisa. Comprou uma máquina e começou a registar os acontecimentos da sua comunidade. Mas pouco depois Nelson Mandela foi libertado da prisão, e começaram os tumultos que levariam ao fim do apartheid. Sempre gostara de História. A ser fotógrafo, nunca se especializaria em moda ou desporto. O que ele queria era registar a História, no momento em que acontecia. E naquela altura não era preciso ir longe. A História fazia-se na sua vizinhança. Os olhos do mundo estavam na África do Sul e no fim do regime de discriminação racial.

"A violência começou e eu senti que tinha de fazer um registo disso, como fotógrafo", diz. "Era importante, era o fim do apartheid, e muita gente estava a morrer. Eu queria que ficasse registado que houve um preço alto para a democracia e a liberdade".

Em vários bairros de Joanesburgo, como o Soweto e muitas "townships" dos subúrbios, havia combates entre o ANC e as forças do regime, mas também entre as várias facções negras. Essas zonas eram referidas pelas populações como "bang bang", e foi essa a designação por que começou a ser conhecido um pequeno grupo de fotógrafos particularmente corajosos, de que João fazia parte.

A imprensa falava deles como o Bang Bang Club. No seu núcleo duro, eram quatro: João Silva, Ken Oosterbroeke, Greg Marinovich e Kevin Carter. Entre 1990 e 1994, cobriram a violência nos bairros com tanta ousadia e tanto talento que ganharam vários prémios e foram contratados pelos melhores jornais e revistas. Eram quatro jovens inteligentes, criativos e bem-parecidos, com uma inesgotável energia e uma paixão pela arte fotográfica, a aventura e o perigo. Uma enorme camaradagem e também alguma rivalidade entre si. Machismo e uma crescente desenvoltura a trabalhar no meio da catástrofe e do sofrimento humano.

Fotografar para não pensar

Os combates na África do Sul foram a melhor escola possível para um grupo de fotógrafos de guerra. Dali, era lógico que partiriam para zonas de conflito noutras partes do mundo. Somália, Sudão, Angola. Ainda em 1994, no auge da tensão na África do Sul, João fez, por exemplo, a sua primeira viagem ao Afeganistão. As diversas facções de mujahidin lutavam entre si de forma selvagem, após a retirada das forças soviéticas. Cabul estava dividida em sectores comandados por senhores da guerra. Milhares de civis tentavam escapar aos bombardeamentos, aos abusos e à fome, correndo para campos de refugiados no Paquistão. João fotografou tudo isso antes de regressar a África, e não teve dúvidas de que voltaria ao Afeganistão.

Esse ano de 1994 seria trágico para o Bang Bang Club. Em Abril, Greg ficou ferido e Ken morreu numa "township" de Joanesburgo. João, que estava ao lado deles, sofreu um choque emocional, mas não parou de trabalhar, para não pensar no assunto. "O combate continuou no dia seguinte, e eu fui para o local. Logo a seguir houve as primeiras eleições livres. Era importante, e eu cobri tudo, embora a minha cabeça estivesse noutro lugar. Mas quando acabou, estava a correr o genocídio no Ruanda. Fui logo para lá. Os hutus ainda estavam em Kigali. Eu e um fotógrafo espanhol andávamos a viajar de um lado para o outro, à procura de histórias, e estávamos em Kigali quando a cidade caiu às mãos dos rebeldes. Não parei de trabalhar, para não pensar nas coisas".

Um ano antes, João tinha ido com Kevin Carter, o outro elemento do Bang Bang Club, para o Sul do Sudão. Estavam os dois a fotografar um campo de refugiados quando Kevin viu uma imagem que lhe pareceu plena de simbologia: uma criança prostrada, quase a sucumbir à fome, e um abutre olhando-a, não muito longe. Kevin esperou pacientemente que a enorme ave se aproximasse, entrando no enquadramento. Fez a fotografia e sentou-se à sombra de uma árvore a fumar um cigarro. Ganharia o Pulitzer a e fama mundial com essa imagem, que fez a primeira página do "New York Times" do dia 26 de Março de 1993. Mas também ganhou com ela a acusação de muitos, que não compreenderam como pôde o fotógrafo preparar friamente aquela fotografia, em vez de correr a ajudar a criança. O que aconteceu à menina debruçada, em posição fetal, sobre o chão árido do Sudão?, perguntaram muitos leitores do "New York Times". O que fez Kevin por ela? "Ele não fez nada de mal", diz João. "Eu estava lá. Não vi aquela imagem porque andava do outro lado do campo a fazer outras parecidas. Aquilo era um campo de refugiados, a criança não estava abandonada. Havia um lugar com comida e um hospital. Mas a imagem isolou aquele momento, é essa a sua força. O leitor vê e pensa: o fotógrafo estava no meio do deserto, passou por ali e deixou a criança abandonada. Mas a verdade é que a criança não estava abandonada. Nós passámos lá umas horas, a fotografar. Depois entrámos no avião da ONU e fomos para outra área do sul do Sudão. Kevin não fez nada de mal".

A publicação da fotografia fez disparar a quantidade de donativos para ajudar a região. "Foi a coisa mais importante que poderia ter acontecido ao Sudão, naquele período. Aquela imagem ajudou milhares de pessoas. Ao fazê-la, Kevin fez muito mais pelas crianças esfomeadas do que se tivesse ido atrás daquela criança. Onde a colocaria? Um metro mais para ali ou para aqui? Mas o criticismo que recebeu afectou-o muito".

Tanto que, meses após ter recebido o Pulitzer, se suicidou. Tinha 33 anos. "Era uma personalidade complexa. Demasiado sensível. Era o que hoje chamaríamos um bipolar. Passava por períodos de grande tristeza. Depois de uma situação de tiroteio, ou quando encontrávamos corpos mutilados, Kevin tinha sempre de falar sobre aquilo. A sua cabeça não parava. Ficava muito afectado. Eu amava-o, e ainda amo. Mas acho que era o tipo de pessoa que nunca deveria ter feito o trabalho que fazia".

Nem João nem Greg deixaram que a morte de Kevin, três meses após a de Ken, os perturbasse demasiado. Continuaram a trabalhar, sem reflectir sobre as questões éticas, o perigo e a responsabilidade que a sua actividade implicava. Mas sabiam que teriam de parar, para pensar. "Não sei se foi a morte do Ken, a culpa por ter sobrevivido, o facto de ter fotografado o meu amigo morto... Eu estava confundido. Eu e o Greg sentimos que era preciso compreender o que tinha acontecido".

Em 1997, começaram a escrever um livro, "O Bang Bang Club", que seria transformado num filme, realizado pelo sul-africano Steven Silver. "Durante três anos trabalhámos nesse projecto. Fazíamos todas as perguntas, e tentávamos dar-lhes respostas. Queríamos a verdade, perceber o que tinha acontecido, as nossas acções, porque continuávamos a fazer aquele trabalho, e a história do país naquele período. E o que tinha acontecido ao Ken. Foi uma terapia, uma catarse, para adormecer os demónios".

O preço a pagar

Depois do filme, prosseguiu o seu trabalho de sempre. Passou muito tempo no Afeganistão e no Iraque, onde foi todos os anos, desde 2003. Em 2010 esteve lá três meses, antes de seguir para Kandahar. Há 15 anos começou a trabalhar com contrato para o "New York Times". Ganhou prémios, entre os quais o World Press Photo.

"Nunca pensei que o que fazemos é uma coisa má. Somos fotojornalistas. Não somos nenhuma ONG. Há situações em que podemos ajudar as pessoas, e isso acontece muitas vezes. Levamos feridos para o hospital, etc. Mas não estamos lá para ajudar. O nosso papel é outro. O fotógrafo ajuda com as imagens. A nossa responsabilidade são as escolhas que fazemos. Temos de decidir como usamos a máquina, para informar o mundo. Porque aquilo para onde apontamos é o que o leitor vai perceber da situação".

Naquela manhã de 23 de Outubro de 2010, em Arghandab, a missão era precisamente encontrar minas. João estava "embedded" com as tropas americanas, juntamente com uma correspondente, Carlotta Gall, também do "New York Times". Era uma zona onde não havia combates, mas muito perigosa, porque podia haver emboscadas, ou engenhos explosivos. A patrulha seguia em fila. À frente ia um soldado com um cão, para detectar explosivos. A seguir outro soldado, e depois João. "Eu era o terceiro na linha. O tipo do cão passou e não detectou nada. Era uma mina moderna, feita de plástico, de tipo russo, por isso o cão não a apanhou. O segundo homem passou e não aconteceu nada. Era uma missão para encontrar minas, e eu encontrei uma mina".

João ouviu um clique mecânico sob os pés e soube imediatamente o que ia acontecer. "Hey guys, I need help here", disse ele depois da explosão. Os paramédicos arrastaram-no para fora da "kill zone" e começaram a aplicar torniquetes, a dar injecções. João estava lúcido. "Saiu o meu número", pensava. Viu que as pernas tinham desaparecido. Disse-o à mulher, enquanto os paramédicos faziam o seu trabalho. Mas acrescentou que ia sobreviver. E ainda: "I love you", antes de passar o telefone de satélite a Carlotta, que explicou o resto.

"Não me lembro de sentir dores nas pernas. Só me lembro daquela dor no pulso, que me fez largar a máquina. Mas ainda tirei três fotografias. Não são muito boas, mas foi o que consegui. Tentei continuar, mas não consegui mais. Fiz o meu trabalho. Mal aquilo aconteceu, o meu instinto foi logo fotografar. Era o que faria se a vítima fosse outro tipo qualquer. Aconteceu a mim, a importância de fazer o registo é tão grande como se fosse a outro qualquer".

João Silva foi tratado no hospital militar de Walter Reed, por estar a trabalhar "embedded" com as tropas americanas. Em 18 meses, foi submetido a mais de 50 cirurgias. Foram-lhe aplicadas próteses, já consegue andar, mas ainda não correr. No ano passado, participou na Maratona de Nova Iorque, em cadeira de rodas. Quando a recuperação estiver terminada, tenciona voltar às zonas de conflito.

Entretanto, o festival de fotojornalismo Visa pour l'Image de Perpignan, França, decidiu montar uma exposição com o trabalho de João Silva no Afeganistão. A associação cultural Estação Imagem quis trazer a exposição a Portugal. Em parceria com a Direcção-geral de Arquivos/Centro Português de Fotografia, e com o apoio do Visa pour l'Image e do "New York Times", mostra desde sábado as fotografias que João fez no Afeganistão até o pulso lhe doer demasiado para conseguir segurar a máquina.

"Valeu a pena", diz ele. "A escolha foi minha. Ninguém me obrigou a fazer aquele trabalho. Três ou quatro anos depois de ter começado, já tinha vários amigos mortos. Sempre soube que havia um preço a pagar, e que seria elevado".