Crítica

Qualquer coisa que de repente revele tudo

O novo livro de Vítor Nogueira é um belíssimo objecto a ter entre mãos - e confirma a sua poesia da atenção e do olhar

Vítor Nogueira tem já publicada uma meia dúzia de livros de poesia e não só. “Modo Fácil de Copiar uma Cidade” é o mais recente, da & etc. Belíssima edição um objecto a ter com cuidado entre mãos, capa de Luís Henriques. Alguém a tratar de uma horta entre prédios altos, à beira da estrada ou talvez via rápida, emblema do todo: um fio de luz que se acende entre ruínas que são ainda sensíveis.

O autor nasceu em Vila Real, dirige o Teatro Municipal da cidade. Porém, a sua atenção poética recai ultimamente sobre a cidade de Lisboa. Repetimos a palavra atenção. Se se colocar frente a frente poesia da imaginação vs. poesia da atenção, esta é notoriamente uma poesia da atenção, da atenção aos poucos, à medida da ronda do olhar pela cidade do sujeito que vê, ou de um olhar quase anónimo que enuncia. Poesia mais do objecto do que do sujeito, cujo halo todavia transpira entre frestas ou entre asserções que se querem considerações prosaicas de ordem geral, firmes, geométricas, convocando todo um léxico da arquitectura e da pintura. Considerações que vão vacilando, cuja segurança se esbate e transmigra da luz à sombram mimando o campo semântico da pintura que embebe esta poesia, Mas interrogações várias minam retoricamente as certezas, introduzem o tempo, acendem o vestígio morto numa folha de papel; é que haver o nada é diferente de não haver nada: “A invenção, isto é, a expressão verdadeira/ de um assunto.// O cinzeiro, isto é, o que podemos garantir/ que realmente aqui estivemos.” Das fissuras da pedra exala aquilo, um rastro, um nada que vai ser conferido numa folha de papel, isto é, num poema. A fenda (“na muralha”), a fissura, a cortina são referências imagéticas e teóricas desta arte de Nogueira. À medida que nos aproximamos da terceira e última parte do livro, abate-se alguma disforia, declina-se a sombra. Um belo poema, “Janela”, cheio de interrogações. Retóricas, claro, mas também existenciais - “Porquê aquele apartamento? Quem conheces/ que lá more? Um p eixe sozinho num tanque/ despojado? A última peça do teu quebra-cabeças?/ Depois, estranhamente, uma sensação de perda: são apenas dois andares, mas a falta que te faz/ o tamanho respeitável do pescoço da girafa.// Por vezes é a sede que nos torna vulneráveis./ Não te aproximes demais. Estimulemos os sentidos/ e fiquemos pela cortina. Uma cortina translúcida, perfilada a tinta branca, solvendo com pincel seco./ E enquanto fazes isso, imagina que a cortina/ cobre aquilo que quiseres. O tempo que for preciso.” O que se apreende apreende-se sempre em diferido, nunca na hora, não há sincronicidade, e essa diferença de raiz, a consciência dela, traz ao poeta, ao sujeito que enuncia no poema a percepção do mundo em volta, uma tonalidade sentimental entristecida, de infinita perda, assim como as situações que convoca mais ou menos alegoricamente: “a verdade é que o futuro imediato/ é um comboio que saiu agora mesmo/ da estação, alguns segundos antes/ de razões ou despedidas. ''Sinto muito./ A seguir.'', diz a senhora do guiché,/ cabelo agora branco, a mesma voz/ de sempre, habituada a calafrios.” Na pintura algo semelhante se passa, o que se pinta é sempre já ou será fantasmático, não se vê de fora. Aquele barco que se vê, o pintor pinta-o com a fantasia, nem sequer o faz com a mão, e deixa muitas coisas por pintar.

Começámos pelo fim, voltemos ao princípio: “Modo Fácil de Copiar uma Cidade” é antes de mais, ou em primeiro grau, uma teoria da pintura, uma poética da pintura, uma aula dada a futuros pintores directamente interpelados por um locutor que encadeia logicamente o discurso, que orienta os passos a dar. No primeiro poema ensina-se a erigir uma linha de mira, um ponto (im)pessoal de observação e consequente transporte pictórico; a polissemia de “linha de mira” é evidente e abrange vários géneros e campos. “Para facilmente poderdes copiar uma cidade,/ construí um quadrado com uma rede estirada,/ de modo que as malhas fiquem todas direitas/ na sua proporção. A seguir fazei num papel/ a mesma rede com linhas. Depois procurai/ o lugar de onde melhor se descubra a cidade,/ os olhos e o quadrado num só ponto(...)// E assim podereis ir/ pelas malhas, copiando a pouco e pouco”. E assim é, deste primeiro ao último poema, “de volta/ enfim, a um mundo que entendamos./ eu e tu e a nossa vidinha”.

Pelo meio, muitas são as linhas, ou figuras, que se cruzam. A poesia de Vítor Nogueira é do lado da hiponímia, isto é, faz-se porção a porção, já que nenhuma coisa visível se vê toda juntamente. Alem de que o que não se vê, residual, não cessa de se perseguir, por isso não se destapa a cortina. Pontuam traços “pobres”, intensidades porém múltiplas do visível: as viúvas que se automedicam ao lado do casal de namorados “que passou mesmo agora”. Note-se a presença de dícticos espaciais e temporais recorrentes. O “aqui” e o “agora”, o “de fora” e o “de dentro”. É que a linha de mira, que é a linha da enunciação, acompanha a “aula”, a deambulação do olhar. Voltemos atrás, surge então o mendigo, “o velho do umbigo” e as suas coisas, “mantimentos entregues pela igreja/ múltiplos apêndices dispersos pelo chão”: é difícil ao homem do umbigo manter a velocidade, podia mudar de jardim talvez, irrompe uma figura que corre, praticante de jogging, figura que “leva força e sentimentos nas pernas”, a horta e o quintal, os pombos, “digam o que disserem, o grande vadio das cidades/ é o pombo(...)Sabe-se acaso o destino de uma asa que esvoaça?”, temos as feiras e o deslizamento das cores que nelas enlouquece, os quintais e as hortas e muito mais. Ah! E o rio claro só pode ser o Tejo que leva e traz o barco no seu fio de luz reverberante e cujo destino só a fantasia desenha, não a mão do pintor na hora.