Jogos Paraolímpicos

Dez anos depois de perder as pernas Zanardi quer uma medalha em Londres

"Neste momento estou qualificado. Ir a Londres já não é um sonho" diz o italiano
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"Neste momento estou qualificado. Ir a Londres já não é um sonho" diz o italiano DR

O ex-piloto italiano "Alex" Zanardi vai estar nos Jogos Paraolímpicos com o objectivo de conquistar uma medalha no ciclismo adaptado.

Há um antes e um depois na vida de Alessandro Zanardi. Há dez anos, o ex-piloto italiano viu a sua "primeira vida" chegar ao fim, com um acidente na Alemanha, em que perdeu as duas pernas. Começou então uma "segunda vida": lidar com a dependência, reaprender a andar com as próteses. E a prática de uma nova modalidade desportiva, o ciclismo adaptado. A evolução foi tão rápida quanto inesperada, e Zanardi já tem assegurada a qualificação para os Jogos Paraolímpicos de 2012, em Londres. O objectivo é conquistar uma medalha.

"Neste momento estou qualificado. Ir a Londres já não é um sonho, é um objectivo. Agora a questão é preparar-me bem para competir no melhor das minhas possibilidades", contou Alessandro Zanardi, em conversa telefónica com o PÚBLICO.

O ex-piloto italiano compete em handcycle (bicicleta adaptada para a propulsão manual). Em 2011 conseguiu vários resultados assinaláveis, com destaque para a vitória na Maratona de Nova Iorque e o segundo lugar no contra-relógio nos Campeonatos do Mundo de estrada. "Foi uma temporada muito boa. Consegui ganhar várias maratonas, em Roma, em Milão, em Veneza. Mas a Maratona de Nova Iorque foi a que me deu mais satisfação", apontou.

Para chegar aqui o percurso foi tudo menos simples. Em 2001, o acidente no circuito EuroSpeedway Lausitz, durante uma prova de Fórmula CART, atirou-o para o hospital. Ficou lá 45 dias, e quando saiu era um homem diferente. As duas pernas foram amputadas e teve que reaprender a fazer praticamente tudo. "Ser um duplo amputado significa que desde que acordo de manhã até quando vou para a cama à noite, faço tudo com os braços", explicou Zanardi, acrescentando: "No início tenho de reconhecer que foi difícil. Depois o meu corpo ficou mais forte e deixou de ser tão cansativo."

A bicicleta manual chegou em 2007, ao mesmo tempo que competia no Mundial de Turismo. Um patrocinador convidou-o a ir à Maratona de Nova Iorque para um evento. "Eu disse-lhes: "Já que tenho de ir lá fazer um discurso de dez minutos, posso já agora fazer a maratona". Foi algo que disse na brincadeira, mas que depois decidi realmente tentar. Organizei-me num par de semanas, fui a Nova Iorque e terminei em quarto. Foi um excelente resultado, mas fiquei a quase 20 minutos do vencedor", recordou o ex-piloto, com uma gargalhada.

Do carro para a bicicleta

"Mas foi divertido, e foi quando decidi que o handcycling era uma excelente forma de me manter em forma", continuou Alessandro Zanardi, explicando que em 2010, ano em que não teve uma proposta no desporto automóvel que satisfizesse as suas expectativas, decidiu dedicar-se à nova paixão. "Fiz a escolha e decidi deixar as corridas automóveis. Comecei a dedicar mais atenção ao meu treino, e dois anos depois aqui estou. Estou muito feliz por ter tomado esta decisão", reconheceu.

Era o momento para apostar nesta nova modalidade, admitiu o ex-piloto: "Vou ter 46 anos a seguir aos Jogos Paraolímpicos de Londres, por isso não vale a pena alimentar expectativas de ir ao Rio de Janeiro em 2016. É algo que tenho de fazer neste momento."

Zanardi destacou a importância do trabalho com a selecção paraolímpica italiana de ciclismo na sua evolução, e confessou ao PÚBLICO que "continua a não saber muito sobre ciclismo". "Tive de fazer muitos, muitos quilómetros na bicicleta. A mãe natureza não nos deu músculos da mesma qualidade nos braços e nas pernas. Para fazer uma actividade física contínua com os braços, durante mais de uma hora, temos de tornar as fibras dos músculos de brancas em vermelhas. E isto é algo que só se consegue com muito exercício, fazendo muito trabalho com os braços", acrescentou Zanardi.

Nos treinos diários faz uma média de 50 ou 60 quilómetros. "Mas nos três meses antes do Campeonato do Mundo a minha rotina chegava a ser de 120 quilómetros. É algo semelhante ao que os ciclistas fazem. Por vezes, costumo treinar com eles e consigo acompanhá-los, porque as velocidades são semelhantes. Claro que, quando a estrada sobe, para mim é ligeiramente mais difícil, mas é um bom exercício tentar acompanhá-los", disse.

A qualificação para Londres 2012 é o culminar de "uma aventura muito interessante" e Zanardi conclui que seja qual for o resultado alcançado nos Jogos Paraolímpicos, o saldo é positivo: "Se for a Londres e ganhar uma medalha, será um final feliz. Mas mesmo que não consiga uma medalha, só vou perder o final feliz. Foi uma bela jornada."

"Se queremos gozar a vida temos de correr riscos"

Alessandro Zanardi tem uma postura desarmante em relação ao acidente que sofreu e lhe custou as duas pernas. "Sabia que algo podia acontecer. Mas, como sou um optimista, pensava sempre que, se algo tivesse de acontecer, aconteceria a outra pessoa e não a mim. Acabou por não ser assim", disse ao PÚBLICO.

"O facto de não ter as minhas pernas faz com que, se partir uma, a coisa se resolva com um parafuso de quatro milímetros. Para uma pessoa normal seria mais complicado", acrescentou com uma gargalhada, confessando que se tiver a possibilidade de pilotar um carro competitivo após Londres 2012 "provavelmente" fá-lo-á.

Zanardi conhece "muito bem" o vídeo do acidente que sofreu em 2001 e considera que a segurança no desporto automóvel melhorou desde então - "aprende-se sempre com cada acidente". Se assim for, este foi um duro ano de aprendizagem: numa semana de Outubro, as violentas mortes de Dan Wheldon (IndyCar) e Marco Simoncelli (MotoGP) deixaram a modalidade em choque. "É importante, antes de tudo, dizer que a vida é perigosa. Se estamos vivos, estamos em risco de perder algo. Quando estamos mortos não há qualquer risco, mas também não temos nada a desfrutar. Por vezes, se queremos gozar a vida, temos de correr riscos", sublinhou o italiano.