Reprivatização

Governo diz que proposta chinesa para a EDP era “a mais forte em termos globais”

Chineses passam a ser os maiores accionstas
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Chineses passam a ser os maiores accionstas Filipe Arruda

A secretária de Estado do Tesouro e Finanças, Maria Luís Albuquerque, anunciou hoje que a proposta da Three Gorges, que pagou 2,69 mil milhões por 21,35% da EDP, foi seleccionada por ser “a mais forte em termos globais”.

“Numa avaliação global, a proposta da Three Gorges é financeiramente a melhor de todas, e nos restantes aspectos é também uma proposta muito forte”, sublinhou a secretária de Estado.

Em causa está uma proposta de 2,69 mil milhões de euros por 21,35% da posição do Estado na eléctrica, sendo que a venda dos restantes 4%, associados a um empréstimo obrigacionista, “não está condicionada”, indicou a secretária de Estado.

Globalmente, em causa estará um investimento superior a 8 mil milhões de euros, incluindo investimentos assegurados por bancos chineses “à economia nacional”. Directamente ligados à EDP, prevêem-se financiamentos adicionais de 2000 milhões de euros na aquisição de posições minoritárias em parques eólicos, até 2015. Outros 4000 milhões de euros estarão disponíveis em linhas de crédito disponibilizadas por bancos chineses.

A primeira tranche, no valor de 600 milhões de euros, deverá ser paga antes do final do ano na assinatura do contrato de promessa compra e venda. O restante dinheiro deverá ser entregue aquando da assinatura final, que o Governo prevê agora para “Março ou Abril” devido à necessidade de aprovações pelas autoridades regulatórias.

Em causa estarão as autoridades dos Estados Unidos e também do Brasil, país no qual a Three Gorges pretende partilhar a 50% os activos da EDP com a eléctrica portuguesa. A EDP detém 51% da EDP Brasil.

As declarações da secretária de Estado foram entretanto esclarecidas pelo gabinete do ministro das Finanças, Vítor Gaspar, que indicou que não haverá qualquer participação chinesa na EDP Brasil e que eventuais investimentos da Three Gorges em parques eólicos no país se concretizarão através da EDP Renováveis e com participação minoritária.

As restantes propostas eram também de qualidade, sublinharam tanto a secretária de Estado como o secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Luís Marques Guedes. “O processo foi um processo limpo, bastante transparente e com bastante qualidade”, frisou o mesmo responsável.

As acções da eléctrica liderada por António Mexia, que chegaram a estar suspensas, juntamente com os títulos da EDP Renováveis e com as obrigações da Parpública (que vendeu os 21,35% detidos pelo Estado), voltaram entretanto a serem negociadas no mercado de capitais. A EDP fechou a sessão a ganhar 3,7% para 2,33 euros, mas chegou a subir 5% após o anúncio do vencedor.

“Mais companhias chinesas irão investir"

Já o presidente da China Three Gorges Corporation (CTG), Cao Guangjing, considerou hoje “muito inteligente” e “justa” a decisão do governo português. “Estou muito feliz (...). A decisão do governo português é boa para o desenvolvimento da EDP e para o desenvolvimento das relações entre os nossos dois países”, disse Cao Guanggjing à agência Lusa em Pequim. “Mais companhias chinesas irão investir em Portugal”, acrescentou.

Em declarações à agência Lusa, Cao Guangjing disse também estar “agradecido” ao governo português pela forma como conduziu a privatização da EDP e adiantou que irá pessoalmente a Portugal assinar o contrato para a compra das acções.

A entrada da China Three Gorges Corporation na EDP “será benéfica para as duas empresas, e para os dois países, especialmente nos mercados internacionais”, disse o presidente da companhia chinesa.

Reacções da E.ON. e da Eletrobras

Dois dos candidatos preteridos já reagiram ao resultado da privatização. O presidente da E.ON, Johannes Teyssen, afirmou que a empresa não podia pagar mais do que o valor que ofereceu. “A aquisição de uma participação na EDP teria sido favorável para a E.ON e para a EDP. No entanto, não conseguimos de oferecer mais do que podíamos justificar como um valor apropriado tendo em conta a criação de valor”, afirmou hoje em comunicado o presidente da E.ON. De fora ficaram ainda os brasileiros da Eletrobras e da Cemig.

O presidente da Eletrobras, José Costa, defende que o plano estratégico que apresentou para a EDP era “de alta qualidade” e adianta que a participação no processo “foi importante em sua caminhada rumo ao exterior”.

Em nota escrita, enviada ao PÚBLICO, a empresa brasileira não critica a decisão do Governo, referindo apenas que “a experiência adquirida no processo de disputa pelos 21,35% da EDP pertencentes ao Governo de Portugal será muito útil para Eletrobras em seu caminho para ser uma empresa internacional”.

Sobre a proposta, a Eletrobras refere que “apresentou uma excelente proposta, cuidadosamente elaborada com foco no crescimento da EDP e na agregação de valor aos acionistas”.

José Costa acrescenta que “o projecto estratégico apresentado previa investimentos conjuntos que fortaleceriam o posicionamento das duas empresas no mercado internacional”.

O presidente da empresa refere ainda que os planos de internacionalização da companhia serão mantidos, embora, no momento, não se vislumbre outra tentativa de compra de participação de activos no exterior. “Nosso Planejamento Estratégico para 2020 aponta uma meta de termos 10% de nosso faturamento vindo de operações internacionais. Essa meta não foi alterada e temos confiança de que a atingiremos”, disse José da Costa.


Notícia actualizada às 19h08

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