Chicco Russo: há 30 anos a fazer pranchas de surf

"Chicco Russo" fabrica pranchas há 30 anos e assina-as com a marca que criou, a "Backwash"

Portugal não consegue competir com os preços das pranchas do mercado asiático Miguel Madeira/Arquivo
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Portugal não consegue competir com os preços das pranchas do mercado asiático Miguel Madeira/Arquivo
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"Fiz a minha primeira prancha porque não havia nenhuma à venda", começa Francisco Constantino, mais conhecido por "Chicco Russo". Na altura com 18 anos, estudava Mecanotecnia. Hoje, aos 48, faz pranchas como profissão, na Póvoa de Varzim, um ofício que complementa com reparações em fibras de vidro e compósitos utilizados no fabrico de barcos e casas.

A arte de dar forma a pranchas de surf tem o nome de "shaping" e o artista é o "shaper". Desde o fabrico das primeiras pranchas que é assim e, contra a corrente, este ofício nunca se industrializou. Continua a haver espaço para dezenas de oficinas no país, que fabricam apenas por encomenda. Para "Chicco Russo", a explicação é simples: "industrializado existe no mundo, mas ninguém quer. É diferente", afirma o "shaper".

Neste sector, a personalização é a alma do negócio. "O cliente sonha, a prancha nasce. Há quem pense que as pranchas, sendo feitas à mão, são tortas. Não... por isso é que o 'shaper' é o artista. Se for bom, ficam direitas", garante. Como negócio, as pranchas de surf já tiveram melhores dias. "O mercado nacional está a ser inundado com material estrangeiro, ainda por cima de fraca qualidade", lamenta o "shaper". "A melhor altura foi em finais do anos 90, início de 2000. Também tem que ver com a crise", explica. É pela altura do Natal e no início do Verão que a oficina de Francisco vende mais pranchas, mas sempre para dentro do país.

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A oficina da marca Backwash António Silva

"Não exporto. Actualmente, Portugal está a importar pranchas, não a exportar", diz Chicco Russo, que acredita na capacidade do país para ser um dos grandes exportadores mundiais. O problema, aponta, é "não ter preços" para competir com o mercado asiático.

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Francisco Constantino é shaper desde os 18 anos António Silva

"Para o surfista, a única coisa que a natureza tem é ondas"

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A oficina da marca Backwash António Silva

"Surf e ambiente? Isso é terrível. É tudo à base de petroquímicos - tanto o bloco que é trabalhado (e dá origem à pranchas), como os revestimentos que se usam a seguir", considera. "Chicco Russo" é mais um dos "shapers" que não acredita em materiais alternativos ao poliuretano, polímero que serve de base à prancha de surf. "As alternativas que existem não são viáveis." Segundo o "shaper", o aumento do custo é o principal factor que impede o sector de avançar por um caminho mais sustentável.

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Francisco Constantino é shaper desde os 18 anos António Silva

Por outro lado, também o "shaper" está exposto a riscos que resultam das várias etapas do fabrico de pranchas, desde a inalação de partículas tóxicas ao contacto com químicos cancerígenos. A solução é simples: roupa de protecção e máscara. No entanto, não se sabe até que ponto estas medidas são eficazes e quais as consequências, a longo prazo, do contacto com estes materiais.

O cliente sonha, a prancha nasce, explica o shaper

No que respeita à ecologia, o surf não se fica por aqui. Os fatos utilizados contêm plásticos derivados do petróleo, como o PVC. Também a parafina, que possibilita a aderência dos pés à prancha, é feita com base no combustível fóssil. "Chicco Russo" não tem dúvidas: em matéria ambiental, o surf não é diferente de outros desportos. E quando lhe dizem que o surf cria uma aproximação com a natureza e desenvolve uma consciência ambiental, a sua resposta é directa: "para o surfista, a única coisa que a natureza tem são as ondas."

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