Fundos são o novo caminho no futebol. Falta saber se é bom ou mau

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O congresso sobre futebol termina nesta sexta-feira em Cascais Rita Chantre

"Face à estrutura de capitais próprios dos clubes e para terem a possibilidade de dotar as suas equipas com mais capacidade competitiva, os fundos são uma forma alternativa de financiamento", confirmou ao PÚBLICO Fernando Gomes, presidente da Liga, à margem do congresso Football Talks, que hoje termina em Cascais.

"Os fundos têm uma perspectiva positiva, porque dotam o clube de uma capacidade financeira para chegar a melhores jogadores. E têm uma perspectiva negativa, que é parte da mais-valia gerada pela transacção do jogador ser repartida por quem participa no fundo. Mas não há bela sem senão", avisa Gomes.

A opção por partilhar os direitos de jogadores já é vista quase como inevitável. "Se os clubes não tiverem financiamento, não podem ter os melhores jogadores. Nesta altura, os fundos estão no topo da lista de alternativas de financiamento", diz ao PÚBLICO Álvaro Nascimento, professor da Universidade Católica e um dos coordenadores do estudo sobre o futebol português, encomendado pela Liga. "Eles seriam importantes, mas com as restrições de créditos dos bancos são agora muito mais importantes", acrescenta.

Depois de uma primeira experiência de Sporting, FC Porto e Boavista com o First Portuguese Football Players Fund (entre 2002 e 2008), a cedência de partes de passes a este tipo de investidores voltou agora em força. Em 2009, o Benfica formou um fundo supervisionado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e o Sporting fez o mesmo neste ano. O clube de Alvalade cedeu ainda percentagens dos direitos de sete jogadores (Rinaudo, Van Wolfswinkel, Diego Rubio, Elias, Torsiglieri, Eric Dier e Tobias Figueiredo) ao Quality Football Ireland Limited, um fundo com o qual colabora Peter Kenyon, antigo director-geral do Manchester United e Chelsea. O FC Porto, por sua vez, não tem qualquer fundo, mas cedeu várias partes de passes de jogadores a investidores.

O recurso a fundos e parcerias está, aliás, generalizado nos países da América do Sul e entrou em força também em Espanha. Em Inglaterra, desde 2008-09, é proibido que terceiros (empresários, fundos, ou outros) sejam detentores de partes ou da totalidade de passes de jogadores.

A Liga inglesa decidiu proibir este mecanismo com receio de que possa afectar a integridade das competições. "Não vou dizer que não tenha receio que eventualmente um investidor mal-formado tenha a tentação [de influenciar as decisões dos clubes], mas creio que esse risco é relativamente reduzido", argumenta Fernando Gomes.

Frontalmente contra os fundos é Karl-Heinz Rummenigge, director-executivo do Bayern Munique. "Não sou a favor. Os clubes têm de ser independentes", disse ontem o alemão, em Cascais. Também Giorgio Marchetti, director de competições da UEFA, apresenta algumas reservas sobre "este assunto sensível", embora diga que essa matéria é regulada pela FIFA. "Queremos que o sistema de transferências seja o mais transparente possível e que o futebol não crie oportunidades para outras pessoas fazerem lucros injustos."

Peter Kenyon, agora altamente envolvido nos fundos, é obviamente a favor e diz que a proibição "vai custar caro ao futebol inglês, porque será menos competitivo". Sobre a questão da transparência, que considera "um assunto decisivo", Kenyon garantiu que os fundos em que participa em nada interferem na gestão desportiva dos clubes. Algo que, aliás, é proibido pelos estatutos da FIFA.

Os novos donos dos clubes

Além dos fundos de investimento, outra das estratégias no horizonte é a procura de investidores que assumam o controlo dos clubes. Em Inglaterra, por exemplo, essa é uma prática comum. Clubes como o Manchester United (os Glazer) e o Chelsea (Roman Abramovich) têm donos estrangeiros, que fizeram grandes investimentos, com retorno financeiro e desportivo.

"Sessenta por cento dos clubes da Premier League têm donos estrangeiros e 40 por cento são norte-americanos", refere Peter Kenyon, para quem o United e o Chelsea são exemplos de como a prática do new ownership pode funcionar. "Antes do Roman, o Chelsea estava à beira da falência", recorda o britânico, referindo, porém, o caso dos antigos donos do Liverpool como um fracasso.

O Beira-Mar é o caso português. O capital do clube aveirense é detido em 80 por cento pelo investidor iraniano Majid Pishyar. Para Isidoro Sousa, presidente do Olhanense (que não é uma SAD), esta é uma solução legítima para responder às ambições de crescimento dos mais pequenos. "Com um investimento forte, podemos dar o salto. Estamos a estudar duas ou três hipóteses, mas não estamos a pensar em ter uma SAD", referiu ao PÚBLICO o presidente do clube algarvio, frisando que "os sócios ainda não estão preparados" para esta realidade. O Olhanense, revela Isidoro Sousa, ensaiou a criação de uma SAD há cinco anos, mas tal não aconteceu, porque o clube, na altura, não subiu de divisão.

Para Álvaro Nascimento, os clubes portugueses ainda não esgotaram os seus recursos no que diz respeito a injecções de capital: "Podem aumentar determinadas receitas como televisão, patrocínio, antes de irem por esse caminho. Mas podem ser atractivos para investidores estrangeiros."