Declínio começou há uma década

Crise e grandes superfícies estão a matar a Rua Direita de Viseu

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Sérgio Azenha (arquivo)

Durante séculos, a Rua Direita de Viseu foi o shopping center da cidade e ponto de encontro privilegiado para todo o distrito, mas hoje é um espaço moribundo onde se multiplicam placas de “vende-se” ou “arrenda-se”.

Ao longo dos quase dois quilómetros que ligam o centro de Viseu, nas “quatro esquinas”, até às “portas” do Parque do Fontelo, a norte da cidade, cerca de 300 lojas, cafés e restaurantes servem de cenário para o lamento dos seus proprietários: “Isto já não dá para viver!”

O momento da viragem, o início do declínio, está bem marcado no calendário de Ana Basto, da Ourivesaria Basto, que explicou à Agência Lusa que foi há dez anos que “tudo se complicou”, com o surgimento de várias grandes superfícies comerciais, sendo as mais apontadas o Fórum Viseu e o Palácio do Gelo, shoppings que albergam centenas de lojas e os grandes supermercados.

Ainda há dez anos a Rua Direita fervilhava de vida e negócio, como admite o presidente da Associação de Comerciantes do Distrito de Viseu (ACDV), Gualter Mirandês, que aponta a “aposta errada” nas grande superfícies como a razão para a morte lenta desta artéria, que ainda hoje é sinónimo de comércio tradicional.

Gualter Mirandês lembra que a Rua Direita “perdeu notoriedade” essencialmente porque Viseu foi “invadida por área comercial totalmente desenquadrada da sua realidade e tradição”, e sinaliza o facto de este ser um problema que afecta quase todas as cidades.

Como pano de fundo, Mirandês nota que “Portugal é dos países da Europa com mais espaço comercial por 1000 habitantes, cerca de 400 metros quadrados”, o que, no seu entender, levou à desertificação dos centros das cidades e, em Viseu, “ao atrofiamento do comércio tradicional e degradação física dos edifícios”.

Crise também afecta shoppings

O presidente da ACDV aponta ainda o dedo à lei do arrendamento, porque não permite a figura do trespasse, “o que leva a que os empresários procurem a periferia para se instalarem”.

A crise dos últimos dois, três anos, também deixou a sua marca e Gualter Mirandês sublinha que “até nos novos formatos comerciais, como os shoppings, surgem problemas, com muitos espaços comerciais a encerrar”, demonstrando que “a crise não está só no chamado comércio tradicional”.

Para Manuel Campos, da Ribeiro & Campos Lda, que há 49 anos se dedica aos fatos de homem e senhora, para além da diminuição do poder de compra, o problema da Rua Direita é também esta ter deixado de ser o ponto de encontro concelhio e mesmo distrital.

“Os tempos eram outros, esta rua era o ponto de encontro do distrito, era uma alegria formidável. Essa alegria morreu com o surgimento de novos pontos de interesse na cidade. A Rua Direita deixou de ser ponto de passagem, a concorrência dos centros comerciais de grande dimensão foi demais”, aponta Manuel Campos.

À porta da Estrela da Moda, pronto-a-vestir aberto há dezenas de anos, Abel Ferreira repete o lamento da falta de clientes e atira uma frase que sintetiza a realidade dos dias de hoje na Rua Direita: “Há dias em que não entra um cliente e semanas em que não se abre a caixa registadora.”

Para trás ficou a ideia, que surgiu ainda nos anos de 1990, de transformar a Rua Direita num centro comercial, constando do projecto a cobertura da artéria, a renovação das lojas e uma significativa alteração na estrutura comercial. Muitos comerciantes ainda hoje se agarram a esta ideia como hipótese para salvar os seus negócios.