Corpo de Khadafi “num congelador” à espera de decisão sobre o enterro

O corpo do coronel foi fotografado hoje já lavado, vestido, e preparado para os ritos fúnebres
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O corpo do coronel foi fotografado hoje já lavado, vestido, e preparado para os ritos fúnebres Thaier al-Sudani/Reuters

O cadáver do deposto líder líbio Muammar Khadafi está guardado num antigo armazém de congelamento de carne em Misurata, com o enterro adiado por “uns dias” pelas autoridades líbias, enquanto são investigadas as circunstâncias em que o coronel morreu, ontem, durante a batalha da tomada de Sirte pelas forças do Conselho Nacional de Transição.

Morto por combatentes revoltosos, após ter sido encontrado escondido no interior de uma conduta de esgoto à saída de Sirte, o corpo do coronel foi fotografado hoje já lavado, vestido, e preparado para os ritos fúnebres – mas não será enterrado ainda hoje, ao contrário dos ditames do Islão, segundo os quais o funeral deve ser feito até um máximo de 24 horas após a morte.

Um dos ministros do governo provisório da Líbia explicou que o enterro foi adiado "por uns dias... para asseverar que toda a gente fica a saber que ele morreu e como morreu". E quanto ao local do enterro: "Ainda não foi tomada nenhuma decisão", avançou esta fonte, Ali Tarhouni, citado pela agência noticiosa britânica Reuters.

Imagens divulgadas entre a noite de ontem e a manhã de hoje mostram que o ex-ditador (de 69 anos e que governou a Líbia durante 42 anos com um regime autocrático), foi capturado ainda vivo e só depois morto às mãos daqueles que, durante os oito meses da revolta popular, apelidou de “ratazanas”.

Um dos médicos que analisaram o corpo sustenta que a causa de morte foi um tiro nos intestinos, após a captura. "Khadafi foi apanhado vivo e morto depois. Há uma bala que penetrou na zona do abdómen, ao nível dos intestinos, e essa foi a causa principal da morte. E havia também um outro ferimento a tiro que lhe atravessou a cabeça", descreveu Ibrahim Tika, ao canal de televisão al-Arabyia.

Pouco antes, o primeiro-ministro de facto, Mahmoud Jibril, citou um relatório no qual é sustentado que Khadafi foi retirado de um cano de esgoto sem oferecer resistência, alvejado num braço e posto numa camioneta que, depois, "foi apanhada em fogo cruzado" a caminho do hospital.

As Nações Unidas instaram a um inquérito às circunstâncias da morte do coronel. "Não é claro como ele morreu. E há por isso necessidade de uma investigação", frisou já esta manhã em Genebra o porta-voz do alto comissariado dos direitos humanos da ONU, Rupert Colville. E referindo-se às imagens de vídeo divulgadas nas últimas horas, mostrando Khadafi vivo e depois morto rodeado por combatentes anti-regime: "Vistas em conjunto são muito perturbadoras".

Vários fragmentos de vídeos filmados com telemóveis mostram imagens do coronel rodeado e empurrado por vários homens, as roupas ensanguentadas e um ferimento a sangrar junto ao olho esquerdo, mas ainda capaz de andar – numa imagem vê-se Khadafi a levar uma das mãos à cara. Noutras imagens é arrastado e tirado de uma camioneta de caixa aberta, lançado ao chão e virado da posição de bruços para cima, a camisa coberta de sangue a ser-lhe despida, não sendo claro aqui se ainda se encontrava vivo.

Fotografias tiradas já com o cadáver numa ambulância mostram que Khadafi sofreu vários ferimentos, incluindo uma grande ferida redonda junto à têmpora esquerda, e cortes no centro da testa e ao longo do pescoço. Médicos que viram o corpo relatam ainda a existência de um ferimento a tiro no peito e um outro na cabeça – não sendo claro porém se estas foram infligidas durante a batalha ou já depois da captura.

Um dos ferimentos que mais se debate é aquele que Khadafi sofreu na têmpora, levantando suspeitas de que terá sido executado sumariamente e à queima-roupa após ser capturado. Peritos ouvidos por vários media duvidam desta teoria de execução com um tiro muito próximo, “de contacto” com a pele, uma vez que o ferimento deste tipo de disparos costuma ter marcas em forma de estrela e manchas de resíduos de pólvora em volta, e não redondas como o que é visto em Khadafi.

O médico que descreveu à Al-Arabyia os ferimentos mortais de Khadafi, contou também ter observado o corpo do filho do coronel Moutassim, que foi morto também ontem durante ou no fim da batalha de Sirte. "O cadáver apresentava um ferimento muito grande na área entre o cimo do peito e logo abaixo do pescoço e outros três, menores, nas costas e na parte de trás de uma das coxas. O estado do sangue demonstra que Moutassim morreu depois de Khadafi".

Notícia actualizada às 14h30