No dia 12 de Março, juntaram-se 300 mil pessoas em Lisboa e 80 mil no PortoNelson Garrido
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No dia 12 de Março, juntaram-se 300 mil pessoas em Lisboa e 80 mil no PortoNelson Garrido

Uma conversa de amigos que acabou em manifestação

Eram apenas quatro amigos descontentes. Lançaram um movimento no Facebook e milhares de pessoas saíram às ruas

Quando a música dos Deolinda estourou, um rastilho de revolta percorreu a internet. Eram quatro amigos - Alexandre de Sousa Carvalho, 25 anos, Paula Gil, 26, João Labrincha, 27, e António Frazão, 25 - mas rapidamente passaram a dez, a muitos, a não se sabe quantos.

O 12 de Março surgiu assim: sem preparação, sem profissionalismos, de forma laica, pacífica e apartidária. Por quatro amigos que decidiram juntar-se. Ninguém adivinhava a repercussão que acabaria por ter: 300 mil pessoas em Lisboa, 80 mil no Porto, gente espalhada por todo o país.

Paula Gil não acreditava no que via. Foi na sua casa que se juntaram as pessoas que levantaram o protesto em Lisboa. No Porto, duas dezenas reuniram-se no Café Aviz. A música dos Deolinda, destinada aos jovens, tornou-se curta. O que se viu nas ruas era um país de luto.

PÚBLICO -
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Paula Gil foi um dos jovens que organizaram o protesto de 12 de Março DR

Perspectiva: desemprego

Na véspera da manifestação, o movimento do Facebook que a desperou tinha juntado 60 mil pessoas. Diziam que a luta estava ganha – tinham fomentado o debate, a democracia participativa -, mas não sonhavam que fosse de forma tão significativa.

Paula Gil conhece bem esse país de luto: a mãe está desempregada, o irmão procura o primeiro emprego, a avó tem uma reforma mínima. Ela é licenciada em Relações Internacionais. No fim do ano termina o estágio profissional que está a fazer, imagina-se desempregada.

Em sete meses, quase nada mudou: trocou-se de Governo, chegou a troika, anunciaram-se novas medidas de austeridade. “As pessoas saíram à rua para lutar contra a precariedade”, lembra Paula Gil. E isso, lamenta, continua igual: “As pessoas são tratadas como números e os mercados como pessoas”.