John Carpenter sem efeitos

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“O Hospício” concentra na ala psiquiátrica de um hospital os demónios de John Carpenter - e da sua relação com a indústria

A última longa-metragem de John Carpenter, realizador norte-americano de 63 anos, tinha sido "Fantasmas de Marte" (2001), filme que passou despercebido aos olhares dos espectadores e às caixas registadoras da indústria. Depois disso, e interrompendo um contínuo de 17 longas em 27 anos de carreira, o cineasta iniciou uma pausa apenas interrompida pela série de televisão "Masters of Horror", que reunia os contributos de realizadores do universo do fantástico. É o próprio Carpenter quem carrega consigo às costas, desde 1978, a dita alcunha de "master of horror": nesse ano, assina o argumento, a música e a realização de "O Regresso do Mal" - "Halloween", no seu título original. A sua obra definiria, para sempre, o formato clássico, assombroso, do filme de terror norte-americano, muitas vezes reproduzido em "remakes" e recriações adaptadas a outros contextos ou cenários suburbanos e adolescentes de uma América apenas aparentemente pacata.

Décadas depois, Carpenter acusaria o desgaste de um trabalho total e constante. Durante a promoção de "O Hospício", filme com que agora regressa depois de dez anos de ausência, o realizador afirmou, em respostas directas no seu "site" oficial e no Twitter, que o ritmo da indústria sugou a vida do seu corpo e o seu amor pelo cinema, tal como um "zombie" canibaliza as suas vítimas. Carpenter usou os mesmos canais para explicar que não estaria de volta, hoje, se o seu filme não viesse de um projecto de "baixo orçamento e produção concentrada", uma escala de trabalho que lhe devolveu a paixão de estar numa rodagem. "O Hospício" é isso mesmo: um filme de ambições modestas que não esconde uma rodagem austera condensada num local: o Eastern State Hospital do Estado de Washington, nos EUA, hospital psiquiátrico que a equipa de Carpenter partilhou com pacientes reais. Aí, o realizador recria a história de uma jovem hospitalizada que lida com os fantasmas de um local que parece espelhar o mistério das suas perturbações pessoais. Ao povoar a sua ala psiquiátrica com um elenco de jovens e bonitas actrizes, o cineasta estará porventura a manifestar a sua vontade de desfazer, dentro do filme, o conceito de belo da indústria e as suas exigências de uma eficácia mecânica.
Este é pois "O Hospício" de John Carpenter e dos seus demónios.

Contra o 3D

Mas o afastamento de John Carpenter sugere igualmente o rumo que a indústria terá recusado, uma espécie de "e se?" do cinema de terror: um cinema contrário ao estrondo cacofónico e ao espanto artificial e computadorizado dos efeitos especiais. Nos anos 70, o cineasta ganhou o seu lugar pela eficácia com que realizava filmes com poucos meios, algo que deve, em talento e linhagem, a dois mestres: Orson Welles, que mais inteligentemente usou o potencial "fantástico" do cinema e a ilusão de grandes espaços por vias artesanais; e Roger Corman, essencial realizador de série B e prolífico autor de filmes nas duas décadas anteriores. Corman viria a estabelecer-se como mentor da geração seguinte que toma o poder em Hollywood - Coppola, Spielberg, Scorsese -, mas é Carpenter quem recusa a grandiloquência dos meios e opta pelo minimalismo dos efeitos.

Quando o retrato da violência no cinema rompe com os costumes passados, é "Assalto à 13.ª Esquadra" (1976) a ir mais a fundo no tratamento do medo e do perigo, algo que acompanhará sempre o percurso de Carpenter e estabelecerá a ponte entre o cinema clássico e artesanal que o sustenta. Aí, a narrativa de grupo de Howard Hawks num filme como "Rio Bravo" (1959) encontra a metamorfose "zombie" de uma sociedade doente exposta em "A Noite dos Mortos-Vivos" (1968), de George Romero, numa esquadra de polícia em luta contra uma população crescente e indiscriminada de criminosos sem rosto. Também "Nova Iorque 1997" (1981), um retrato da cidade-ilha norte-americana convertida em prisão de alta-segurança, terá imposto, de forma mais definitiva, a recriação de um universo fantástico e futurista sem necessidade de fazer intervir uma parafernália tecnológica incompatível com a essência artesanal do cinema de Carpenter. As origens da série B exprimem-se ainda de forma exemplar em "Veio do Outro Mundo" (1982) - um certo "remake" de "The Thing" (1951), de Howard Hawks -, ou em "Eles Vivem" (1988), crítica implacável ao poder da televisão e ao seu efeito de decadência. E se Carpenter, como Corman, não recusaria um olhar mais emocional sobre as personagens de uma comunidade, como no comovente "O Carro Assassino" (1983), não deixaria nunca de evocar as referências clássicas do cinema norte-americano, fazendo de "O Homem das Estrelas" (1984) homenagem a "Uma Noite Aconteceu", de Frank Capra, no terreno do fantástico.

O regresso de Carpenter confirma agora a paixão pela matéria viva das rodagens que sempre o distanciou da "overdose" dos efeitos de pós-produção. Comentando o espectáculo do 3D, o realizador relembra que cresceu com as primeiras experiências de cinema tridimensional nos anos 50: "Foi ridículo na altura e [é] ridículo agora". E quando lhe perguntam sobre "Avatar" (2009), Carpenter, como nos filmes, poupa-se a meios: "No comment." Isto antes de colocar a indústria num hospício.