Crítica

O reino dos invisíveis

Desde o seu aparecimento que a fotografia é um campo de debate intenso e polémico. As imagens produzidas por esse dispositivo misterioso apresentam-se, quase sempre, como descrições apodícticas do mundo às quais nenhum mistério escapa: a sua suposta transparência é tal que não deixa margem para discussões ou equívocos.

Para Baudelaire, esta era a grande mais-valia desta invenção: ser a secretária e a anotadora de quem tivesse, na sua profissão, necessidade de uma absoluta precisão material. Porém, quando a essas imagens se associava a imaginação, caia em desgraça. Para o poeta, contemporâneo das primeiras perplexidades produzidas por estas imagens não artísticas, a fotografia prolongava a memória, protegendo as ruínas do seu desvanecimento, e constituía um auxiliar precioso para os naturalistas, botânicos e para o todo da ciência.

A investigação de Margarida Medeiros, que tem a ambição de compreender a fotografia não como uma prática artística, nem como competência técnica, mas na relação singular que estabelece com o seu objecto, vem inscrever-se precisamente neste âmbito. Escreve a autora: "A preocupação central deste livro é pois pesquisar a forma como a natureza automática e indicial da fotografia se prestou à constituição de um sistema de verdade, de prova, de apodicticidade" (p.62). Mas não é neste aspecto que reside a sua singularidade. Entre as imagens que estuda - e que são os seus argumentos -, surgem os fantasmas, os espectros, os fluidos e eflúvios e toda aquela dimensão da vida que não é visível e, logo, também não é fotografável. O que faz inscrever este estudo na "estranha ligação entre a imagem fotográfica, cuja história começa na captação técnica do visível, e a possibilidade estendida de se poder também tornar prova do invisível" (p.62).

Esta extensão significa a entrada de uma dimensão oculta, que provoca uma crise da referencialidade da imagem fotográfica. Os acontecimentos destas imagens são elementos exclusivamente fotográficos: aquilo que a câmara dá a ver não é o visível ou o existente, são seres cujo aparecimento depende exclusivamente do mecanismo revelador da câmara obscura. Esta capacidade de revelação do invisível promove uma crise de referencialidade: o pressuposto de que a fotografia detém com o seu objecto uma relação sem sombra ou desvio é abalado com a descoberta de que existe uma dimensão oculta que só à câmara se torna presente. Diz a autora: "Imagem, réplica, assombração, fantasma, verdade, falsidade, imitação, foram apenas alguns dos nomes que a fotografia tomou enquanto pensada pelo ser humano (críticos, historiadores, teóricos, pensadores) sem que um único modelo se tivesse imposto como o mais adequado" (p.263).

É na tentativa de investigação desta multiplicidade de sentidos e modelos - a que também se poderia chamar gramática - que Margarida Medeiros explora as relações da fotografia com a psicologia, o espiritismo, o mediunismo, os fenómenos auráticos. Uma investigação que obriga a regressar ao início da fotografia, porque "trata-se sempre de afirmar o lugar de origem da fotografia como uma espécie de caixa de Pandora, onde todos os segredos da nossa contemporaneidade estivessem já liminarmente desenhados e inscritos" (p. 60).Neste contexto, existem duas utilizações da fotografia particularmente pertinentes. A primeira é a sua utilização no contexto da psiquiatria e da psicologia (sublinhe-se a existência de uma surpreendente proximidade entre os conceitos de inconsciente e câmara escura), em que a câmara é utilizada como um médium.

A segunda utilização é a feita pelo espiritismo, que usa o dispositivo fotográfico para provar a existência dos seres por si afirmados, mas colocados em dúvida pela ausência de uma prova material da sua existência. Neste sentido, a fotografia permite revelar ao mundo a realidade espírita e, desta forma, provar a verdade das afirmações acerca da existência de seres imateriais: "A tecnologia fotográfica [...] parte de uma caixa negra (a câmara obscura, a relação positivo/negativo) para revelar ao mundo a realidade que, frequentemente, e sobretudo no caso do espiritismo, não era conhecida antes. É nesta semelhança intrínseca entre os dois tipos de dispositivos automáticos (máquinas e psiquismo) que assentará toda a produtividade da imagem espírita" (p.145).

E umas páginas mais à frente acrescenta a autora: "A fotografia [...] foi manipulada no âmbito do espiritismo devido à tradição de verdade documental que lhe é intrínseca. Essa verdade era no entanto produzida por intermédio de uma mais ou menos obscura tecnologia, envolvendo placas, químicos, lentes, uma espécie de caixote e uma câmara escura onde tudo finalmente vinha à luz. A verdade apodíctica, objectiva, da fotografia decorria de processos semelhantes aos da magia, que lhe são sensivelmente contemporâneos. O espiritismo, ao usar a fotografia como prova do improvável, apostava nesse lado obscuro da técnica, que era apenas conhecido de alguns e do qual outros tantos desconfiavam, quanto mais não fosse pela sua familiaridade com o truque mágico e os seus segredos" (p.187).

As explorações feitas por Margarida Medeiros não desviam este livro de uma investigação em que a fotografia é entendida como prática cultural. Uma das suas premissas é identificar os "aspectos culturais da fotografia (...) nas ocorrências da história da fotografia que demonstram como a sua função realista, de testemunho, de reveladora/duplicadora de uma realidade existente, decorre de uma cultura que confia e delega na máquina, no autómato ou nos mecanismos automáticos essa função de autenticidade" (p. 8).

Esta investigação mostra uma dimensão pouco habitual no pensamento sobre a fotografia, mas que é essencial para o conhecimento da sua natureza surpreendente. A linha de força não é definir ou fixar um momento da história da fotografia ou da arte, mas mostrar as suas muitas utilizações e, sobretudo, identificar as diferentes expectativas presentes a cada momento do fabrico das imagens, confirmando a paradoxalidade do meio fotográfico, bem como a enorme polissemia dos objectos que fabrica. Daqui nasce a identificação de um território entre a prova e o indicio, o material e o imaterial, o visível e o invisível. Um retrato no qual a fotografia surge como um ser de múltiplas fisionomias, nomes e constituições, a viver numa região de intervalo entre o ser e o aparecer.