Entrevista a Godinho Lopes

“Quero acabar com a falta de competência no futebol e com a incapacidade de gerar receitas”

Foto
Foto: Pedro Cunha

Responsável pelas construções do Estádio José de Alvalade e da Academia de Alcochete, Godinho Lopes quer regressar ao Sporting e rentabilizar as infra-estruturas leoninas, assim como potenciar as receitas do clube, que estão, segundo diz, “paradas há sete anos”. Mas “terminar com a incompetência no futebol” é o objectivo que permitirá o sucesso a outros níveis.

PÚBLICO - Estas eleições estão a ser mais complicadas e difíceis do que imaginou quando apresentou a sua candidatura?

GODINHO LOPES - Não. Estamos é a viver um momento que é favorável aos populismos, graças ao insucesso no futebol. O que está na génese da crise que o Sporting atravessa é o futebol e todos os sócios e adeptos estão descontentes. Agora, o que está em causa nestas eleições é quem será capaz de dar a volta ao clube mais depressa, sem hipotecar o seu futuro. É esta a mensagem que quero passar.


Ficou surpreendido com os mais recentes estudos de opinião que colocam bem posicionado para a vitória o candidato Bruno de Carvalho?

Este tipo de inquéritos são feitos à porta do estádio e as pessoas respondem debaixo da tensão de irem para um jogo, sentindo-se tristes por, mais uma vez, não terem a certeza de a sua equipa ir ganhar, independentemente do seu adversário. Os resultados em Alvalade têm sido perfeitamente desastrosos. Mas, daqui para a frente, as pessoas vão perceber que quem tem uma estrutura forte à volta do futebol, que garante resultados imediatos, somos nós. Não é o nome de um treinador que traz o sucesso ao futebol de uma equipa, mas sim uma estrutura. É por isso que alguns clubes são vencedores, independentemente do nome do seu treinador. Não apostamos em treinadores que têm ainda de se adaptar ao futebol português e não falam sequer a língua, para além de terem atrás de si uma estrutura pouco clara e pouco sólida e duvido que apareçam os jogadores necessários para a completar. Pelo contrário, nós temos, não só, uma estrutura sólida, conferida por Luís Duque e Carlos Freitas, como os nomes de jogadores que temos apresentado, como Hugo Almeida e Garay, fazem parte das nossas escolhas e são nomes altamente conceituados. Vamos apresentar ainda mais nomes até às eleições.


Não está preocupado com essa candidatura?

Não disse isso, estou a dizer é que não me surpreende. A minha mensagem tem de passar e as pessoas têm de perceber que não vêm para o futebol pela primeira vez representar um grande clube como o Sporting Clube de Portugal sem terem um passado.


Há um mês atrás consideraria Bruno de Carvalho um adversário de peso?

Acho que, neste momento, o Sporting está aberto a populismos fáceis, pela situação em que se encontra. Aquilo que nós temos de fazer é desmontar esses populismos, perceber que é um balão cheio de nada e que no dia seguinte se esvazia.


Teve necessidade de endurecer o discurso, ao qualificar o seu adversário de “Vale e Azevedo de terceira categoria”.

Foi a única vez que falei da concorrência e não falei de mais ninguém. Quis responder aos ataques que me tinham sido feitos, por todos os outros candidatos. Quando aparece alguém que apresenta um fundo para resolver a situação actual no Sporting é de um aventureirismo total. Os fundos podem ser uma solução, mas não nesta fase e não é assim que se constituem. Estou de acordo com os fundos e também pretendo trabalhar com eles, mas através de jogadores que sejam primeiro contratados para o Sporting e colocados na montra do futebol, devidamente integrados no plantel e a dar resultados. Só depois, passados um ano ou dois, os fundos poderão ser constituídos. Têm duas vantagens: primeiro geram uma mais-valia imediata para o Sporting e, em segundo, as pessoas podem apostar comprando unidades de participação, enquanto nós gerimos a componente desportiva. Isto é completamente diferente do que se passa com o fundo que foi apresentado. Como é que se aposta em jogadores que vão integrar um clube, que vêm para um país novo, com um treinador novo e para um campeonato onde não sabem se vão ou não resultar? É um tiro no escuro.


Mas convidou Bruno de Carvalho para integrar a sua lista…

Não é isso que está em causa. O que está aqui em causa objectivamente é que eu tenho tradição de gerir e não viria para um clube desta dimensão com um projecto “aventureirista”. Percebi também que o seu passado [Bruno de Carvalho] não apresentava condições para poder servir o Sporting com garantias de solidez.


Já falou e negociou directamente com a banca credora?

Sim, também. É evidente, com quem é que vou negociar? Negociei com eles e com outras instituições financeiras, que me permitem dizer que temos condições para acabar esta época, como para arrancar com a nova temporada e fazermos aquisições.


Mas Nobre Guedes [que preside interinamente o Sporting e integra a lista de Godinho Lopes] já disse que a questão financeira está resolvida até ao final desta temporada…

Sim, porque se utilizou mais dez milhões de euros de receitas futuras. Eu, na forma que tenho de gerir e de estar, não vivo com o futuro, vivo com o presente. Preciso de dinheiro para regularizar as contas, para viver com o presente, e preciso de investir. Aqui a questão é: quem é que tem credibilidade para passar do balcão e negociar junto da banca? Uma coisa é certa, a banca não vai emprestar nem mais um euro ao Sporting.


A banca não iria negociar com outro candidato que vencesse as eleições?

Não sei. Isso é uma questão com cada um. Agora, há pessoas mais credíveis e outras menos credíveis. Eu primeiro fui conhecer a situação do clube e depois fui negociar, de forma que, quando arrancasse com o meu projecto, ele tivesse sustentabilidade.


Como define a situação actual do Sporting?

Os dois últimos anos representaram um ciclo muito negativo do ponto de vista do futebol. Mas a principal razão para a crise que o clube atravessa foi o fosso que foi criado entre os adeptos e o clube. Passaram a ser tratados como sócios e adeptos e não como consumidores. Este fosso agravou-se ainda mais nos últimos anos e separou os adeptos do clube, deixando de haver o suporte emocional que é fundamental. Não estamos a falar de uma empresa.


E em termos financeiros?

As anteriores direcções negociaram com a banca o abatimento da dívida financeira, quer através do lançamento dos VMOC [Valores Mobiliários Obrigatoriamente Convertíveis - 55 milhões de euros], quer através da negociação da dívida da Câmara Municipal de Lisboa [18 milhões de euros]. No total são menos 73 milhões de euros de passivo, que já foi muito mais alto, mas que terminará este mandato muito próximo dos 180 milhões. Há uma diminuição considerável. Esta foi uma das áreas em que as direcções de Filipe Soares Franco e José Eduardo Bettencourt trabalharam bem. Mas, pela informação que nos foi disponibilizada a nós e aos outros candidatos, temos condições de garantir que o Sporting estará melhor quando sairmos daqui a três anos.


Pretende também renegociar com os patrocinadores?

Sim, dentro de aproximadamente um ano. É nessa altura que termina o actual contrato com a Puma e, neste momento, com os acordos plurianuais em vigor com a televisão e com outras entidades, a par de uma auto-estima muito em baixo, teremos 2011 e 2012 para inverter a situação. Nessa altura, acredito que já com outra pujança e outra alma estaremos em melhores condições para renegociar. Hoje, seria perder tempo.


Vai promover uma auditoria?

Estou aberto, mas não será por proposta minha, porque eu acredito na honestidade das pessoas que estiveram no Sporting. Uma coisa é a competência, outra é a honestidade. A SAD é auditada todos os anos por estar na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e no resto do clube as coisas estão certas, com certeza. Mas estou aberto para qualquer auditoria proposta por um conjunto de sócios e que seja aprovada em assembleia-geral. Agora, há dois tipos de auditoria: a de gestão e a financeira. A primeira mexe com as pessoas, com a sua capacidade, competência e incompetência, mas é preciso lembrar que elas foram eleitas pelos sócios do clube. Seria um lavar de roupa suja que não leva a nada.


Acusam a sua lista de ser demasiado heterogénea, com um universo de sensibilidades diferente, que pode trazer alguma instabilidade se vencer…

O que está em causa é quem lidera os projectos. Convidei isoladamente cada membro da minha lista, expliquei como era o meu projecto ao nível da liderança e das propostas para o Sporting. Todos aceitaram. Talvez outros candidatos não tivessem capacidade para o fazer. Não gosto de ter à minha volta “yes men”, mas gente competente. Os meus verdadeiros opositores estão nas outras listas.


Continua a rejeitar o rótulo de candidatura da continuidade?

Completamente. Orgulho-me daquilo que fiz no Sporting durante os quatro anos que lá estive [foi vice-presidente entre 1999 e 2003]. Foi um momento de sucesso, não havia nenhuma academia ou estádio a serem construídos no país, ganhámos dois campeonatos, mudámos a imagem do clube. Quero agora completar aquilo que ficou por fazer.


Os apoios de José Roquette e Dias da Cunha à sua candidatura tornaram ainda mais difícil afastar esse rótulo…

Eu não estou preocupado com os apoios que me dão. O passado é o que é e eu não rejeito nenhum apoio, seja de quem for. Agora, vou demonstrar que aquilo que propomos e o que vamos fazer é completamente diferente daquilo que existe.


Nunca foi uma voz crítica…

Porque quando saí do Sporting, em 2003, estava envolvido num processo judicial que só terminou em Agosto do ano passado com a minha absolvição. Até essa altura não faria sentido manifestar-me.


Mas o processo nada tinha a ver com o Sporting.

Sim, é verdade, mas entendi, por coerência, que não devia esconder-me atrás do Sporting. Quando fui absolvido e resolvi que tinha condições para voltar ao clube, coincidiu praticamente com a demissão de José Eduardo Bettencourt, que é o momento quando começo a falar.


Será oposição se não ganhar?

Eu vou ganhar as eleições.


Essa sua confiança numa vitória já levou a que tivesse actos de gestão no clube nestas últimas semanas? Esteve envolvido na passagem de José Couceiro de director desportivo a treinador?

Acha isso possível? Não estive envolvido em nada que envolvesse José Couceiro ou outro qualquer acto de gestão. Não tenho nada a ver com isso. Dei-lhe foi os parabéns por ter tido a coragem a deixar de ser o director para o futebol e passar a treinar a equipa neste momento difícil. Tenho acompanhado jogo a jogo José Couceiro com mensagens de incentivo.


Não acha que a sua lista foi privilegiada em termos de informação interna em relação às restantes candidaturas?

Fui é mais competente e menos aventureiro do que os outros. Entrei com os pés assentes no chão e essa é a única diferença. Só me candidatei depois de saber que tinha as condições reunidas para poder ganhar.


A presença na sua lista de José Maria Ricciardi [presidente do Banco Espírito Santo de Investimento e ex-vice-presidente do conselho fiscal e disciplinar] não indicia alguma promiscuidade entre os credores e os órgãos sociais do clube?

Em primeiro lugar, ele está aqui como adepto, está do lado da bancada e não do lado da banca; em segundo lugar, está porque é uma pessoa competente para o lugar e, em terceiro lugar, não há promiscuidade nenhuma entre o Sporting e os fornecedores ou credores, cada um está sentado do seu lado da mesa. As minhas negociações foram feitas com as respectivas entidades financeiras, mas não com ele. Não há misturas.


Os seus críticos responsabilizam-no por alguns defeitos na construção do estádio, nomeadamente pela sua falta de rentabilidade e pelos problemas estruturais ao nível do relvado, mas também pelos excessivos custos em manutenção da Academia…

Em primeiro lugar, no que diz respeito ao estádio, eu fui contra a venda do património não desportivo, porque ele tinha determinados objectivos quando foi constituído e pretendia trazer rentabilidade ao clube. O insucesso do Alvaláxia deveu-se ao facto de o Sporting não estar vocacionado para explorar centros comerciais, mas eu deixei preparado um contrato para ser assinado com uma empresa que o sabia, a MDC, mas não quiseram seguir essa linha. Depois, o edifício Visconde de Alvalade estava arrendado e conseguia pagar-se a si próprio. Com a decisão de vender, não sei o que vai ser quando um dia mais tarde se decidir demolir o estádio. A única coisa que me agradou, em todo este processo, foi de que a sua venda foi superior ao custo de construção: 50 milhões de euros contra 44, já com juros. Significa que o investimento não foi assim tão mau e rendeu um resultado de seis milhões de euros.


Mas não levantou expectativas demasiado elevadas em relação à rentabilidade do estádio?

Não. O que acontece é que eu saí do clube e tinha idealizado um determinado projecto que não teve seguimento. O auditório não é praticamente utilizado, tem 2100 metros quadrados de zonas no seu interior para fazer almoços, jantares, baptizados, casamentos ou reuniões de empresas que nunca são usadas, está tudo vazio. Fez-se todo um equipamento que está subaproveitado, mas terá continuidade comigo. Fui eu que o criei e tenho condições de o rentabilizar. Por outro lado, a questão do relvado é uma falácia, tem estado impecável nos últimos jogos. O que houve foi incompetência, porque toda a gente sabe que quando se faz um relvado naquelas condições ele tem de ser tratado de maneira diferente de um campo aberto, arejado. O estádio foi feito há oito anos e se precisar de melhorias, nós estamos aqui para as fazer.


As infra-estruturas do Sporting acabaram por sair muito caras…

No estádio, executei um projecto que já estava contratualizado, sem tecto máximo, e consegui travar e não derrapar. O primeiro preço que apareceu em Alvalade para este projecto era de 160 milhões de euros e, no final, custou 88 milhões. Depois, cada um dos espaços criados não foi rentabilizado. As coisas podem ser montadas, mas depois há gente capaz e gente incapaz para pegar nos projectos. Em relação à Academia, falta pagar 5,5 milhões de euros do investimento total feito e ela é uma das melhores na Europa, mas mais uma vez não se tem sabido aproveitar as infra-estruturas para gerar rentabilidade.


Se vencer, como vai manter a maioria accionista da SAD quando os VMOC forem transformados em acções?

Foi aprovada na assembleia geral do Sporting e na assembleia geral de accionistas da SAD a emissão destes valores obrigacionistas, com a garantia de, a partir do segundo ano, após o lançamento dos títulos, se os dois bancos que os adquiriram [BES e Millennium] quisessem transformá-los em acções, haveria forma de o Sporting manter os 51 por cento. Fazia um aumento de capital de 13 milhões de euros na SAD, integrando a SPM [sociedade Sporting Património e Marketing, detida em 100 por cento pelo Sporting] na SAD. Estas possibilidades garantiam que o clube manteria a maioria accionista, o que será uma realidade com a nossa candidatura.


Começou por anunciar que não iria falar de treinadores e novos reforços para o futebol, para não desestabilizar a actual equipa, mas acabou por ceder durante a campanha. Sentiu necessidade de o fazer para responder aos concorrentes?

Eu não cedi. Só decidimos candidatar-nos depois de conhecermos a estrutura de futebol e quais seriam os jogadores do actual plantel com capacidade de continuar depois das eleições. Carlos Freitas é a única pessoa credível de todas as candidaturas com a capacidade de negociar com empresários e foi capaz, ao identificar as lacunas da equipa, de ir falar com cada um deles para tratar das contratações. Os dois nomes que já circulam e outros três que estarão a circular nos próximos dias representam exclusivamente essa capacidade.


Quais vão ser as funções de cada um dos elementos que já apresentou para a estrutura do futebol?

Manuel Fernandes irá integrar o corpo técnico e, juntamente com Carlos Freitas, vai propor a Luís Duque os novos reforços a serem seleccionados, mas irá também criar uma escola para treinar avançados, desde as classes de iniciados até aos seniores, algo que não existe no Sporting nem no futebol português. Nélson vai dirigir uma área de treino de guarda-redes. Depois, elementos como o Luís Vidigal vão voltar a dar a mística, alma e o orgulho de vestir a camisola do Sporting. No Brasil, André Cruz vai auxiliar Carlos Freitas com o scouting [prospecção de talentos]. Beto poderá vir a integrar a área de relações internacionais. Cada um terá a sua missão dentro do futebol do clube.


E isto não vai encarecer substancialmente a estrutura?

Depende da rentabilidade que seja retirada de cada um. Não podemos olhar só para os custos, mas também para as receitas, que estão paradas há sete anos. O Sporting não tem feito qualquer aproveitamento em termos de bilheteira, de merchandising, marketing, publicidade ou sponsorização. A falta de competência tem sido ao nível do futebol, mas também nestes níveis que referi. Quero acabar com isso.


A equipa B vai permitir diminuir custos com o plantel principal?

A equipa B ou uma equipa satélite, depende das condições que nos forem dadas para a sua inscrição e o momento da sua inscrição. Vai servir para que os jogadores que saem dos juniores joguem nos mesmos moldes nessa equipa. O plantel principal será reduzido a 20 jogadores e o mesmo número terá a tal equipa B ou satélite. Irá reduzir o orçamento, mas serão criados prémios para os jogadores não perderem a ambição. Hoje, o Sporting tem 80 jogadores a quem paga, desde a formação. O plantel principal custa hoje 17 milhões e qualquer coisa, mas temos mais cerca de cinco milhões em custos de direitos de imagem e de assinatura de passes, para além de mais 3,9 milhões em 16 jogadores que se encontram emprestados.


Sabe quantos sócios têm as quotas em dia?

Segundo a informação que me deram, dos 83 mil sócios cerca de metade tinha as quotas em dia e os que poderiam votar andavam na casa dos 30 e poucos mil. Mas só tenho os números que me dão.