Portugal ganhou uma patente

Investigadores portugueses criam novo método para datar árvores centenárias

Oliveira de Pedras d'el Rei, perto de Tavira, tem mais de dois mil anos
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Oliveira de Pedras d'el Rei, perto de Tavira, tem mais de dois mil anos Melanie Maps (arquivo)

As oliveiras antigas, basta terem mais de 150 anos, ficam com o tronco oco. Sem a parte mais antiga para contar os anéis de crescimento ou fazer uma datação com carbono 14, André Soares dos Reis, proprietário de uma empresa que vende oliveiras ornamentais, estava a ver-se confrontado com um problema: como garantir aos clientes a idade das oliveiras antigas?

Bateu a várias portas, todos lhe diziam que isso era impossível. Não desistiu e, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) encontrou quem aceitasse o desafio de desenvolver um método de datação de árvores antigas.

Também o engenheiro florestal José Luís Louzada, da UTAD, começou por dar uma resposta negativa a André Soares dos Reis, proprietário da empresa Oliveiras Milenares, no Vimieiro, perto de Arraiolos. Mas a insistência do empresário foi tal que José Luís Louzada acabou por lhe dizer: "Neste momento, não há desenvolvido nenhum método, a não ser que estudemos o problema para ver se conseguimos arranjar um método alternativo. Está disposto a pagar, podendo nunca chegar-se a bons resultados?"

Entre 2007 e 2008, e pagas "algumas dezenas de milhares de euros" pelo empresário, diz José Luís Louzada, estava desenvolvido um método e as oliveiras puderam passar a ter um certificado oficial a atestar a idade.

Como é que o investigador, com outros colegas da UTAD, resolveu o problema dos troncos ocos? "Já que não podíamos contar os anéis ou fazer a datação por carbono 14, fomos encontrar um modelo matemático que relacionasse a dimensão da árvore com a idade. Mas precisávamos de saber quanto tempo esta espécie demora a atingir determinada dimensão."

Para tal, a equipa teve de estudar os padrões de crescimento da oliveira, no clima português, e usou uma abordagem que faz lembrar as matrioskas, as bonecas russas que vão saindo umas de dentro das outras, na questão dos troncos ocos. "Partimos progressivamente de árvores maiores para mais pequenas, que tinham a parte central do tronco intacta, para estudar o crescimento desta espécie. Nessas árvores, já podíamos contar os anéis e sabíamos a sua forma e dimensão."

Com esses dados, fez-se um modelo matemático, que relaciona a idade, para esta espécie, em condições mediterrânicas, com características do tronco como o perímetro e o raio. Ficou então a saber quantos anos têm de passar até uma oliveira atingir certa dimensão. "Depois de termos esta função, sabe-se a idade de qualquer árvore. Basta medi-la e introduzir os dados num programa de computador."

Datação até três mil anos

Em rigor, a equipa desenvolveu mais do que um modelo matemático. Um deles é para árvores com 500 a 600 anos, com uma margem de erro de cerca de um por cento. A partir daí, não funciona bem, pelo que se aplica outro modelo, com dois por cento de margem de erro: "Numa árvore com mil e tal anos, são mais ou menos 20 anos de erro, o que não é nada. Até três mil anos, este modelo funciona bem", diz José Luís Louzada.

Para validar o método, dataram-se com carbono 14 algumas árvores com o tronco intacto, no Instituto Tecnológico e Nuclear, em Sacavém.

O método permite ainda datar oliveiras novas sem lhes causar danos. Pelos métodos tradicionais, para aceder à parte central, a zona mais velha, formada nos primeiros anos de vida, ou corta-se a árvore ou retira-se um cilindro de madeira com uma broca.

"Desenvolvemos de raiz uma metodologia que permite datar árvores por um processo rápido, não destrutivo, que não provoca qualquer lesão e, talvez o aspecto mais importante, é exequível em árvores ocas", resume José Luís Louzada. "A nível mundial, não existia qualquer método de datação de árvores antigas que satisfizesse todos estes requisitos, o que revela o seu carácter inovador."

Por causa disso, André Soares dos Reis quis proteger o método com uma patente, em partes iguais entre o empresário e a UTAD, para que a concorrência não certifique a idade de árvores velhas. No final de 2008, o pedido deu entrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Passados os dois anos em que teve de ficar pendente, verificando-se se há patentes iguais, a patente deve estar a sair em breve, diz José Luís Louzada. "A patente é do método em si. Neste momento, é para oliveiras, mas pode ser aferido para diferentes espécies."

A ideia é estender o registo de patente à União Europeia, até porque é para Espanha, França e Alemanha que André Soares dos Reis mais exporta oliveiras. Seguem agora acompanhadas por um certificado da UTAD. "Este é um bom exemplo da aplicação e transferência directa da investigação para o mercado", diz Louzada.

A empresa de André Soares dos Reis certifica igualmente a idade de oliveiras vendidas por outras empresas. Ou, como sucedeu agora, o empresário ofereceu ao Convento do Espinheiro, em Évora, a datação da oliveira no seu jardim. Tem 1098 anos, e o certificado é entregue a 19 de Fevereiro.

Mesmo com tal idade, é uma jovem ao lado de uma oliveira do aldeamento turístico de Pedras d"el Rei, perto de Tavira, classificada como árvore de interesse público em 1984. Pelo método do carbono 14 - embora não se saiba quem fez a datação ou que parte da árvore, oca, foi testada -, terá 2016 anos. "Pelo nosso método", diz José Luís Louzada, "a oliveira de Pedras d"el Rei tem 2210 anos".