Monumento soul

No fim, tudo se resume a esta voz. Uma voz imponente, toda ela urgência, uma voz em que acreditamos, sem cinismo e sem reservas. Há algo de demasiado real, de indiscutivelmente verdadeiro na voz de Charles Bradley, 62 anos e álbum de estreia acabado de editar - e, sim, temos perfeita consciência que "verdade" é um conceito de aplicação perigosa na música popular. Ainda assim, é isso que sobressai neste monumento soul que é "No Time For Dreaming".

Álbum sem tempo, tem o órgão hammond fervilhando para se destacar ou remetendo-se, humilde, aos bastidores da canção, tem os metais acentuando frases ou oferecendo novos escapes melódicos, tem percussão para acentuar a elegância do ritmo e um vibrafone que dá tom de fantasia nocturna a música que é suor de vida, que é realidade "in your face", sem espaço para escapismo.

Charles Bradley não poderia estar em melhor companhia. A Menahan Street Band, composta por membros da Budos Band, dos Dap-Kings, dos Antibalas ou dos Expressions, acompanhantes desse digníssimo veterano chamado Lee Fields, é um super grupo versado e rodado em toda a música negra. Não são meros conhecedores de todo o funk e toda a soul: são verdadeiramente a soul e o funk. Quando se lhes depara uma voz como a de Charles Bradley, de uma rouquidão exigente, dramática na catarse e na ternura, é como se cumprissem o seu destino.

Quando ouvimos uma voz como a de Charles Bradley, falar de revivalismo torna-se um absurdo. Sim, "No Time For Dreaming" é um álbum de soul clássica, filiação Stax, James Brown, Marvin Gaye. Mas que isso não nos desvie do essencial: Bradley não surge aqui como veterano que nos recorda mitos de ontem. Construiu-se nessa história para se apresentar perante nós, agora, com a sagacidade de uma vida longa e com a ambição de um novato desejoso de deixar a sua marca.

"No Time For Dreaming" é um álbum de acusações e de alertas, de salvação e concórdia. É a vida de um homem ou, perdoe-se a redundância, a alma de um homem tornada canção. Estupendas canções: o desespero sem resignação do primeiro single, "The world (is going up in flames)", a exuberância de "Golden rule" ou a autobiografia como motor criativo nas turbulentas "How long" e "Why is it so hard" - nelas, a soul como vitória sobre os tormentos da vida.

E, em todas elas, a elegância e sabedoria da Menahan Street Band: metais em desvio afro-beat em "The world (is going up in flames)", a citação enviesada de "Season of the witch", pelos Vanilla Fudge, em "I believe in your love", as figuras de guitarra apontando a uma inesgotável fonte soul chamada Steve Cropper (dos Booker T & MGs) e i, controlo perfeito das dinâmicas musicais, seguindo Bradley nos seus caminhos de angústias não resolvidas, de questionamento social, de conforto e pacificação encontrados nos braços de uma mulher.

Charles Bradley, 62 anos, é o presente. Valeu a pena a espera.