Marta de La Cal: De Portugal para a Time

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Cláudia Andrade (arquivo)

As duas mais longas travessias de Marta de La Cal aconteceram por acaso. Foi por acaso que, aos 19 anos se envolveu no jornalismo. E foi por acaso que chegou a Portugal, como turista, e decidiu cá ficar como correspondente da revista Time. Há 37 anos.

É americana. "Mas neste momento não, com George Bush" (esta será a única vez que se refere negativamente a alguém em toda a conversa). A referência ao presidente norte-americano é acompanhada com um arrepio da expressão, como quem acabou de sugar um limão. Os documentos de identificação continuam a fazê-la pertencer ao outro lado do Atlântico. Mas sente-se portuguesa.

A mais antiga correspondente estrangeira em Portugal, a trabalhar para a revista Time, contou ao PÚBLICO como foi a sua passagem pela história recente de Portugal e como encara o presente de um país que também já considera seu, no ano em que foi eleita membro honorário da Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal.

Apesar da pronúncia denunciar muito claramente a sua anglofonia. Marta de La Cal veio para Portugal sem querer, "como turista", com o marido. "Viemos em 1967...ou seria 66? Já não me lembro". E ficou: "Ainda estive cinco anos em Espanha, mas preferi Portugal. Os portugueses são uma gente simpática e pacífica".

Recusa-se a dizer a idade. A sua idade é mais ou menos a da história que já testemunhou, desde os tempos da menina do Colégio Americano em Cuba, que decidiu começar a escrever para o Times of Havana. "O editor era um soldado fidelista". Às tantas Cuba tinha de ficar para trás: "Escrevi umas coisas que o Fidel Castro não gostou. Então vim para Espanha". Ao país então dominado pelo franquismo poucas referências faz. Mesmo porque logo decidiu trocar a ditadura de Franco pela de Salazar.

Começou então a escrever para a McGraw-Hill World News. "Eles queriam uma jornalista. Mas o que eu lhes propus e tinha mesmo vontade de fazer era escrever um livro sobre Cuba". Não se mostraram interessados. Marta de La Cal tinha mesmo de ser jornalista. Mesmo porque havia coincidências que a empurravam sempre nesse caminho: "O correspondente deles em Portugal tinha morrido umas semanas antes e eles estavam mesmo desesperados".

A melhor parte estava para vir. Nos tempos da revolução de 1974 Marta de La Cal confessa que se divertiu muito. "No dia 25 de Abril andámos a perseguir os tanques na entrada em Lisboa. Os capitães eram muito simpáticos". E lembra como, nos dias a seguir, Otelo Saraiva de Carvalho, chegava de helicóptero à Fundação Calouste Gulbenkian, onde decorriam as conferências de imprensa, em pose de herói: "Era tão divertido", lembra entre gargalhadas, acrescentando que os correspondentes estrangeiros na altura eram mais do que os 40 que hoje estão em Portugal: "Até chegámos a fazer um jogo de futebol com o Conselho da Revolução. O Vasco Lourenço corria muito".

Naquela altura da revolução, Marta de La Cal recorda que não foi só a jornalista que ficou marcada. Foi toda a sua família. "Lembro-me de um dia ir ver os paraquedistas que, com paraquedas coloridos, atraiam as pessoas. Caiam aqui e ali nas serras onde as povoações mais isoladas não sabiam da revolução. Era assim que chegavam às pessoas. De repente vejo um dos paraquedistas a fugir com a minha filha debaixo do braço. Perguntei-lhe onde é que ele pensava que ia com a criança e ele disse que ela queria saltar mas que não me preocupasse que ele não a largava. Agarrei-me a ela e disse que ele devia estar louco. A minha filha acabou por ter mais tarde um negócio de Bungee Jumping e o meu marido sempre disse que foi por causa de mim, que não a deixei saltar naquele dia."

Trabalhar em Portugal hoje é assim tão divertido como naquele tempo? "Nem por isso". Entre os melhores momentos recentes lembra uma entrevista com a "simpática e talentosa" cantora Mariza. E o mundo também está diferente: "Já perguntei à Time se queria uma entrevista com o novo Presidente da República. Mas passa-se tanta coisa no mundo. Ainda não me responderam". Marta de La Cal acha que o Portugal de hoje é um país melhor e livre. "Mas economicamente está um caos. Acho que o euro foi um erro". Defende que Portugal tem no futebol um bom trunfo turístico e que o problema da integração dos imigrantes na nossa sociedade tem de passar pela educação e pelas escolas. E impressionou-a o recente caso da entrada da Polícia Judiciária no jornal 24 Horas: "Temo que José Sócrates faça o mesmo em Portugal que Bush fez com o Patriotic Act".

Quando os judeus de Belmonte tinham medo

Teve de ser o chefe da comunidade judaica em Lisboa a acompanhar Marta de La Cal a Belmonte para que os judeus falassem com ela. A correspondente da Time acabou por escrever das primeiras histórias sobre aquela comunidade em Portugal, que, antes do 25 de Abril não existia: "Eles tinham medo. Mesmo quando lá cheguei com o chefe da comunidade judaica em Lisboa disseram que não acreditavam que ele fosse judeu, porque conduzia carro ao Sábado".

A inauguração da então Ponte Salazar, em 1966, foi dos primeiros trabalhos que Marta de La Cal fez enquanto jornalista. Impressiona-a o facto de, após o 25 de Abril, se ter tentado apagar a história, aludindo ao facto de depois se ter mudado o nome da ponte: "Na queda do Império Romano também mudaram os nomes dos monumentos?" Oito anos depois estava outra vez na ponte, a acompanhar a queda da placa do nome e a inauguração da nova ponte 25 de Abril: "Lembro-me que houve uma performance com uma actriz brasileira que estava toda nua. Aquilo era tudo muito novo".

Em 1973 Marta de La Cal escreveu sobre o massacre de Wiriamu, que tinha ocorrido em Moçambique em Dezembro de 1972. O facto já seria incómodo só por tratar um dos episódios mais trágicos da Guerra Colonial e que terá também contribuido para o fim da Guerra e independência das colónias depois de 1974. Mas a publicação ocorreu quando Marcello Caetano estava de visita a Londres. "Foi uma bela recepção".

Em 1973 Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno são julgadas pelos conteúdos, considerados impróprios, do livro conjunto Cartas Portuguesas, baseado nas cartas de Mariana Alcoforado, uma mulher fechada pelo pai num convento, mas que se apaixonou e dali escrevia "belíssimas" cartas de amor. O processo que ficou conhecido por "três marias", decorreu na Boa Hora em Lisboa e foi acompanhado por Marta de La Cal que afirma que foi na Time que nasceu a expressão "três marias". "Ainda tenho o livro assinado por elas."

Perfil publicado na edição do PÚBLICO de 13 de Março de 2006