O mundo de Gonçalo Pena está a chegar

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Um vislumbre sobre o que 2011 vai destapando e eis que a pintura e o desenho se revolvem em várias exposições. Não se trata de um regresso. Antes de um acordar, que permitirá testemunhar a vitalidade dos meios ao dispor das duas linguagens. Comece-se pela pintura de Cabrita Reis, a partir de 4 de Julho, na primeira grande retrospectiva do artista em Lisboa, organizada pelo Museu Colecção Berardo (a versão lisboeta de "One after another: a few silent steps" apresentada em Hamburgo, Nîmes e Lovaina e em cujo catálogo será possível ler o contributo do António Lobo Antunes). E o desenho na exposição que desvenda, em Outubro, o trabalho de José Loureiro com a disciplina, na Culturgest de Lisboa. Encontros parecidos estão guardados para duas exposições que resgatam Nikias Skapinakis e Luísa Correia Pereira: o primeiro será objecto de uma mostra também no Berardo; a segunda, falecida em 2009, poderá ser justamente relembrada, através de um conjunto de desenhos inéditos, na Culturgest do Porto, entre Maio e Julho.

Mas apetece dizer que este será o ano da pintura. Acrescentamos: da pintura de Gonçalo Pena. Da sua pintura excessiva, cheia, colorida, untuosa, redonda. Onde as personagens, as figuras, posam "orgulhosas", necessárias. Onde os planos compõem narrativas, histórias. Onde a tela respiga vorazmente imaginários (republicano, contemporâneo, pictórico, surrealista), para os devolver ao espectador. Pintura a óleo, plena de iconografias, símbolos, arquétipos, mitos e História. Construída sob o farto aconchego da pintura dos séculos XVIII e XIX (de toda a pintura!), mas também com o traço docemente musculado da ilustração e de outras artes visuais. Uma obra pictórica que é uma enorme janela para um mundo.

Algumas notas biográficas: formado em Pintura, Gonçalo Pena deixou em 2005 a Escola Superior de Arte e Desenho das Caldas da Rainha, onde ensinava, para se dedicar à carreira artística, iniciando a partir daí um percurso que se tornou num dos mais "misteriosos" da arte contemporânea portuguesa. Nos anos 90 fez ilustração para jornais e revistas portuguesas (da "Ler" ao "Independente", passando pelo "Público" e a "Egoísta") e expôs na Galeria Graça Brandão (em Lisboa e no Porto), tendo em 2007 realizado a sua primeira individual na Galeria Fucares, em Madrid. Acrescentam-se várias colectivas e recentemente um momento alto: a individual "Musée de l'Armée: Le Retour des Botées", ainda patente na Galeria Municipal de Torres Vedras (até 12 de Janeiro). Onde explora o imaginário napoleónico e a iconografia associada, com derivas temáticas pelos conceitos de herói, o liberalismo, a sexualidade. Sem se restringir à pintura: inclui também fotografias, colagens, jogos.

E agora a razão pela qual Pena marcará 2011. Porque em Junho inaugura na Galeria Zé dos Bois em Lisboa uma exposição de trabalhos novos e antigos, em co-autoria com Natxo Checa. Desenvolve a abordagem apresentada em Torres Vedras: às telas juntam-se outras coisas. "Objects trouvés", artefactos romanos, animais vivos, pinturas de outros pintores, documentos, imagens. Um arquivo onde cabem referências à ideia de ruína, ao tropicalismo. Um arquivo imenso nascido com e da pintura. O mundo de Gonçalo Pena. Está a chegar.