Chamamo-nos, todos, Angélica Liddell?

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O teatro-catástrofe a uma só voz da encenadora espanhola vem a Lisboa assombrar as nossas utopias

Há alguns Verões que a temos visto a ocupar diferentes espaços de Montemor-o-Velho, a convite do Citemor, que a foi buscar a Espanha e a tem, desde então, protegido. A ela cujo discurso feminista radicalizado separa águas e extrema posições. A ela que se expõe, e ao seu corpo, que ela violenta e manipula como se não lhe pertencesse e carregasse, em si, todos os pecados do mundo. Por ser mulher, por ser política, por ser artista. "La casa de la fuerza" (Culturgest, 11 e 12 Fevereiro) reorganiza o seu material de trabalho e força uma nova ordem para compreender a origem do mal. A peça vem coroada de um entusiasmo que só os franceses sabem coser, como se a validação surgisse apenas e só depois de os artistas passarem pelo olímpico Festival d'Avignon. Escreveu o "Libération" que é "como uma cerimónia aos mortos, um ritual cuidadosamente orquestrado para arcar com a infelicidade do mundo, um modo de reabrir as feridas antes de eventualmente voltar a fechá-las." Já não falamos apenas do modo unívoco como Liddell pensa o mal e eleva a um outro nível o teatro-catástrofe, individualizando e pagando por isso; estamos num outro patamar: o da expiação colectiva. T.B.C.