"Lula foi nosso primeiro presidente antropófago"

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Depois dos dias em São Paulo, o Ipsílon enviou por email, a partir do Rio de Janeiro, mais sete perguntas ao fundador do Teatro Oficina

Lugar, família, acontecimentos formadores para o arranque de José Celso Martinez Corrêa?

Araraquara, [que quer dizer] Morada do Sol em tupi, interior do estado de São Paulo.

José, o nome do meu avô português de Trás-os-Montes, que vivia com minha avó LaureAna, índia, pais de meu pai Jorge Borges Corrêa. Celso, de meu avô espanhol da Galiza, casado com minha avó italiana de Génova, pais de minha mãe Angelina Martinez Corrêa.

Meu pai, o único que saiu da roça de seus 12 irmãos e veio morar na cidade, era director de uma Escola de Comércio e tinha uma biblioteca maravilhosa com a melhor literatura brasileira e internacional de todos os tempos. Filmava em 16mm e tinha um projector, era apaixonado por cinema, e era muito bonito, parecido com um galã de Holywood, Robert Taylor. Éramos seis irmãos. Maria Helena, avó de muitos netos, e bisnetos, formada em literatura, uma grande escritora. Ana Maria, historiadora e directora de um arquivo da UNESP [Universidade Estadual Paulista], "Lutas da Esquerda no Brasil". Maria do Rosário, tecelã, perfumista, artista plástica e feiticeira. João Baptista, arquitecto, criador dos elevadores do Rio de Janeiro que ligam a Zona Sul Branca e Burguesa às Favelas e do projeto do ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE para o Oficina Uzyna Uzona e o Bairro do Bixiga. E Luiz Antônio, arquitecto, mas sobretudo um Grande Artista de Teatro, replantador do TEATRO MUSICAL BRASILEIRO, assassinado no Natal de 1987, com 104 facadas.

Nosso pai nos deu a todos uma formação universitária [Zé Celso estudou direito] e muita cultura.

Uma vez empinando um papagaio, uma pipa, (não sei como vocês dizem em Portugal) que eu mesmo construí e baptizei de "Imperador do Espaço", um vento muito forte arrebentou a linha e ele foi parar muito longe da praça cheia de ipês [árvores floridas] onde o empinava. Fui atrás dele e o encontrei, ele estava todo molhado. Tinha chegado até as nuvens. Deixei no quintal de casa, mas o sol forte de Araraquara o fez secar e rebentou a seda de que seu corpo era feito. Eu comecei a chorar, mas de repente veio uma ventania e os pedaços deles sumiram no céu. Fui para o violão e compus uma música. Tomado por uma inspiração que queria sair de mim com a força de um vento forte, imediatamente fui para a escola de meu pai, que era perto de minha casa e onde havia uma "Sala de Dactilografia", sentei-me numa maquininha e em 40 minutos, num fluxo, dactilografei minha primeira peça, "Vento Forte para um Papagaio Subir". Compreendi: era meu segundo nascimento, e eu que não sabia o que fazer comigo descobri que minha vida naquele instante passava a pertencer ao TEATRO.

Quem e o quê o alimenta e lhe dá força, hoje?

A paixão. Preciso estar sempre apaixonado. Só crio no cio do amor. A arte do amado, da amada, me inspira, me musa!!!! Mas actualmente a própria criação no teatro, e a criação do que chamo Teat(r)o TRAGICOMEDIORGYA NAS "PERAS DE CARNAVAL PARA TEATROS DE ESTÁDIO me dá força, como também o desejo de reconstruir o Bairro do BIXIGA, onde fica o Teat(r)o Oficina, através da construção de um Complexo Cultural Arquitectónico Urbanístico, um Teatro de Estádio, uma Universidade Antropófaga, uma Oficina de Florestas, no que chamamos ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE [o vale do rio Anhangabaú é um espaço público na região central de São Paulo, perto do teatro Oficina].

Me inspiram também as viagens pelo Brasil e internacionais com um repertório variado de peças. Queremos muito ir na Primavera europeia de 2011 para alguns lugares de lá, entre eles PORTUGAL, um grande desejo nosso.

O que é que o público procura no teatro?

O público ínfimo do teatro procura o entretenimento e ver de perto as celebridades da TV fazendo monólogos. Mas o que o Teat(r)o pode dar vai mais longe: a percepção de seu poder humano. Mas que passa pelo amor-humor, pela diversão também. Em português nós temos a força desta palavra que era escrita antes assim, PHODER, com "PH". O TEATO, veja bem: TEATO, a BRUXARIA ARCAICA DO QUE FOI E ESTÁ RETORNANDO A SER O TEATO, mais que o TEATRO com o R que esconde a grandeza do ATO, da sua razão de ser: a ACÇÃO HUMANA EM DIRECÇÃO À SUPERAÇÃO, AO QUE É  HUMANO DE MAIS, por exemplo: o drama é PHODER=FODER. PHODEROSO.

Qual a diferença entre palco e vida?

Tem um grau a mais, a favor da mistura dos dois no Teat(r)o. A TEATRO-VIDA no Teatro é criação de mais VIDA.

É importante a experiência longa do tempo num espectáculo?

Porque precisamos superar a lógica da ditadura do "Show Busine$$", que é muito mais "Busine$$" que "Show", o famoso limite de 90 minutos. Só quando desregramos os sentidos, ultrapassamos o convencional e o cansaço, estamos preparados para viajar juntamente com os actores treinados na lucidez da possessão, nas sensações corpóreas do nosso inconsciente trágico, poético, mágico, cómico e orgyástico

Porque é que o corpo nu e o sexo são importantes em cena?

Porque nascemos do amor e na nudez. Os índios nus do Brasil revelaram ao Hemisfério Norte Vestido que somos todos iguais, trouxeram a percepção dos direitos humanos na revolução francesa, bolchevista, surrealista e digital, agora. O corpo humano é um aparelho que vestido ou nu é poderoso. Ter vergonha de nosso corpo de bicho é um pecado sem nome pelo qual o cristianismo, o islamismo, o judaísmo, todos os "ismos" e monoteísmos, vão ter de pedir PERDÃO. O sexo é sagrado, porque deixa de ser sexo, divisão, quando é vivido em toda sua real grandeza, sem pecado, e passa a ser comunicação com CORPO SEM ORGÃOS DE QUE É FEITO O COSMOS DOS CORPOS ASTRAIS APAIXONADOS.

Diz que o Brasil é antropófágo. Porquê? E de que forma isso pode actuar no mundo de 2011?

ANTROP"FAGO. Quando o bispo português Sardinha ia para Roma de navio pedir ao papa mulheres brancas para que os portugueses da colonização não se misturassem com as índias, os índios caetês comeram ele [em 1556]. Isso depois do naufrágio de seu navio nas costas do actual estado de Alagoas. Ele estava vivo, jogado pelo mar, todo vestido com seus paramentos de tafetá e seda, num recife. Os índios o descascaram e comeram. Aí começou a real história do que chamam Brasil. Lula, nosso já quase ex-presidente, é de uma cidade chamada Caêtes, da mesma tribo destes índios [em Pernambuco]. Foi o nosso primeiro presidente antropófago. Comeu de Tudo!

Oswald de Andrade, um grande poeta modernista da geração de 1922, em 1928, comendo uma rã, compreendeu que viemos do deus animal, e declarou: "Não sou mais moderno, sou o primeiro pós-moderno do mundo. Sou antropófago." E com isso fez retornar a cultura dos índios, dos afro-brasileiros, dos imigrantes pobres, ao que ele chama o "BÁRBARO TECNIZADO", arraigado à sua origem animal, vegetal, terrena mas com as antenas "plugadas" na  Ciência das Tecnologias à disposição dos mortais, como hoje a Tecnologia Digital e a BioGenética. A Antropofagia foi um elo perdido, reencontrado primeiro por Oswald de Andrade. Termos montado em 1967 "O Rei da Vela", peça até então inédita dele, que estava no mais absoluto ostracismo, trouxe pela segunda vez à minha geração o contacto com este elo perdido. Isto deu o MOVIMENTO DA TROPICÁLIA.

Glauber Rocha que captava a "Terra em Transe". Hélio Oiticica que criou a obra de Arte Plástica Ambiental "Tropicália", ao mesmo tempo que tirou a pintura da parede e a vestiu para dançar nos PARANGOLÉS [capas ou estandartes que só mostram as suas formas e cores quando as pessoas os movimentam]. Caetano Veloso, que antes de ter visto "O Rei da Vela" compôs a música "Tropicália". José Vicente, um autor de peças de teatro que escreveu "Santidade", uma revolução teológica em que sagrou a divindade da sexualidade... Gilberto Gil e muitos outros... Sismografaram a revolucão cultural de descolonização brasileira. Todos os grandes mestres até 1967 diziam que a origem da cultura e do teatro brasileiro estava no padre jesuíta português Anchieta, que fazia a lavagem cerebral dos índios que viviam no  Brasil. Com a Antropofagia e a Tropicália, retornamos a nossa origem remota, ao mesmo tempo próxima, pois o povo brasileiro é antropófago. Como os índios, somos "animistas", acreditávamos na origem animal do deus, e passámos a devorar toda a cultura branca, ocidental, cristã, que nos colonizava. Esta atitude vem do proprio índio, do negro, em cruzamento com os brancos, que não somente acriolaram nossa língua, como diz o grande sambista Noel Rosa: "Tudo aquilo que o malandro pronuncia com voz macia é brasileiro, já passou de português."

2011 nasce como um ano muito marcado pelas reacções à atitude libertária do mundo desde 1968. Todas as conquistas da mulher, do homem hoje no mundo são marcadas pelas fobias racistas, sexuais, culturais, o horror aos emigrantes que retornam aos países colonialistas, o Tea Party nos EUA, os fundamentalismos no Oriente, e lá vai etc...

A Antropofagia trouxe a atitude cultural do povo brasileiro mestiço à tona: a antropófaga, carnavalesca, inversora de valores, transformadora dos Tabus em TOTENS. Esta cultura tem o poder de excitar os multiculturalismos que não se misturam pelo belo lema da Antropofagia: "Só a Antropofagia nos une."