Crítica

Como um episódio bíblico

A Katalin Varga deste filme é uma mulher de força. De força e de vingança

"Katalin Varga" é uma primeira obra, a estreia na realização de um inglês, Peter Strickland, que antes fizera sobretudo trabalho teatral. O que é singular é que - como o título de ressonância húngara, nome da protagonista, logo indica - Strickland não se estreou em casa, mas na Transilvânia e nos Cárpatos, com actores e contributos romenos e húngaros.Uma pesquisa na Internet diz-nos que, no século XIX, houve uma Katalin Varga que liderou um movimento de mineiros da Transilvânia. Deve ser coincidência, mas também a Katalin Varga deste filme é uma mulher de força. De força e de vingança - há algumas ressonâncias bíblicas no filme de Strickland, de resto explicitadas na parte final, e a história de "Katalin Varga" podia vir de um episódio ("feminista", digamos) do Antigo Testamento.


Impressão que é salientada pelo carácter relativamente inusitado do filme, espacialmente (sabemos que é a Transilvânia mas não porque o filme o diga) e temporalmente (se não fosse por uma cena com um telemóvel não teríamos a certeza de que se trata da época contemporânea). Seja como for, na aldeia onde a acção começa é como se o tempo e a moralidade não passassem há séculos - e quando se torna público o segredo de Katalin (o seu filho pequeno não é do marido, antes foi o resultado de uma violação perpetrada por dois mânfios), repudiada e desonrada, resta-lhe pegar no miúdo e embrenhar-se na floresta, em viagem mais ou menos desesperada, com um objectivo principal: encontrar os dois tipos e vingar-se.

Encontra-los-á, de facto, ajudada pelo acaso, mas também a vingança tem as suas ironias, de proporções bíblicas ou, como um conto do imprevisto, britânicas.Algo limitado, e sempre um bocadinho meias tintas (nem deliberadamente áspero nem agilmente fluido), não é um filme desagradável. Gostamos da protagonista (Hilda Peter), de presença forte e ambígua q.b., gostamos sobretudo do trabalho de "des-naturalização" da própria natureza, que passa sobretudo pelo som, "tridimensional", a transformar os ruídos da floresta, dos rios, do vento, numa espécie de coro para as desventuras da personagem. Se não perder esta capacidade de dar um sentido muito específico, e muito integrado, à observação (ou à escuta) da paisagem, não há razão para que não se venha a ter alguma curiosidade pelos futuros cometimentos de Strickland, nos Cárpatos ou aonde for.