Os nadadores que devolveram Beirute a Mounira

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Nos vídeos e fotos da libanesa Mounira Al Solh, que podem ser vistos na Kunsthalle Lissabon, não se fala de política. Há homens que vão nadar todos os dias e que falam do mar. Mas ouçam-nos com atenção. De que falam eles afinal? E com que voz?

Quando atravessamos a galeria Kunsthalle Lissabon as imagens de homens de tronco nu, queimados pelo sol, a exibir os músculos ou a passar creme Nívea sobre a pele descolam-se da parede e projectam-se como gigantescas tatuagens ondulantes sobre os nossos corpos. Mounira Al Solh procura o melhor sítio para ser fotografada e à medida que anda os rostos e os corpos dos homens cobrem-lhe o rosto e o corpo.

E, se prestarmos atenção, percebemos que num dos vídeos deste trabalho - "The Sea is a Stereo" (iniciado em 2007), que inclui dois vídeos e uma série de fotografias -, em que os homens falam da relação que têm com o mar, as vozes não são as deles. É a voz dela. Há uma fusão entre os homens que vão nadar no mar de Beirute e esta rapariga, artista plástica, nascida no Líbano em 1978, que já mostrou a sua obra nas bienais de Istambul (em 2009) e de Veneza (em 2007) e que agora a traz pela primeira vez a Lisboa, a convite de João Mourão e Luís Silva, da Kunsthalle Lissabon.

"Considero-me um deles [os nadadores]. Queria apropriar-me deles". Mounira é pequena, e tem uma forma de falar viva, como se as palavras fossem lentas demais para o que tenta explicar. Um dia, em 2006, fixou-se nestes homens - o pai dela e os amigos que todos os dias se juntam para nadar em Beirute. Começou a filmá-los sem saber o que procurava neles.

Tinha ido estudar para Amesterdão (primeiro na Gerrit Rietveld Academy e depois numa residência na Rijkakademie) e quando voltou a Beirute passava muito tempo com o pai e com os amigos deste. "Para mim, este homens têm um estatuto semelhante ao dos emigrantes. Vivem em Beirute mas todos os dias viram as costas à cidade e vão para o mar. Ao fazer isso, avançando para o horizonte, é como se estivessem a atravessar para outro lado, mas não chegam a lado nenhum". Nadam para longe da cidade, mas não a conseguem abandonar nunca.

"Comecei a filmá-los e a pouco e pouco comecei a ser levada para o mundo deles." Organizou entrevistas clássicas - ela com uma câmara, eles a responderem às perguntas que ela ia fazendo. "Fazia as mesmas perguntas a todos. Qual é a cor do mar? Onde aprendeu a nadar? Que idade tinha? Conseguia viver numa cidade sem mar?" (pergunta que dá o nome a um dos vídeos, "Paris Without A Sea").

Mas sabia que nunca iria fazer um documentário clássico e ao mesmo tempo sentia que tinha grande responsabilidade em relação a eles. "Era a primeira vez que apontava a câmara a alguém que não eu própria". Durante noites inteiras reviu as entrevistas, de 40 minutos cada, que fizera aos nadadores. "No fim sabia-as de cor. Um dia acordei e conseguia dizer tudo o que eles diziam".

Mas o processo de fusão não é automático. Alguns homens tinham um determinado sotaque, outros falavam rapidamente, e não era fácil para ela dobrá-los. Insistiu. "Decidi experimentar. Tornou-se teatro para mim, esta ideia de trocar de papéis: eles sou eu? Eu sou eles?"

Uma revista clandestina

Este é, para Mounira, um trabalho quase sociológico porque cada sotaque, cada resposta estão carregados de significados que os colocam num determinado lugar no mundo. "O que fala francês, por exemplo, é típico de um certo tipo de libaneses que imigraram para África, para o Senegal". Todos os detalhes têm significado. Como o facto de a maior parte dos homens dizer que prefere ser tratado por Abu (que em árabe significa pai de...). "É uma forma mais tradicional de os tratar".

Alguns falam dos rebuçados que gostam de comer, outros das namoradas, de qual é o melhor nadador. Um deles, Abu Khodre, tem mais de 70 anos e começou a trabalhar no porto de Beirute quando era ainda criança, depois do pai ter morrido e de a mãe ter ficado com vários filhos para sustentar (não é ele que conta esta história, é Mounira que a conta ao Ípsilon). Nunca aprendeu a ler ou a escrever, mas ganhou dinheiro suficiente para comprar dois prédios e para mandar o filho para o Canadá. Hoje, continua a ir nadar e traz sempre na carteira a fotografia do filho, da nora e do neto, e também as suas fotografias de quando era novo - imagens a preto e branco de um homem de olhos claros e cabelo à Elvis (chama-se, aliás, "Elvis", o conjunto de imagens em que Mounira mostra Abu Khodre a exibir, orgulhoso, as suas fotografias).

Assim, os homens que parecem estar só a falar do mar, estão a dizer muito mais. E quando diariamente procuram um lugar diferente para mergulhar, contornando os novos edifícios de Beirute construídos por empresas privadas, fugindo dos locais onde os são despejados os esgotos, procurando os sítios mais abrigados do vento, estão também a falar da cidade (é isso que vemos no segundo vídeo, "Let's Not Swim Then!")

E estes são os homens que preferem não falar de política. Tal como Mounira, aliás - embora na Kunsthalle Lissabon mostre também a revista que edita, "NOA" (Not Only Arabic), da qual só há um ou dois exemplares e que só está disponível para leitura durante um período limitado e por marcação (para a ver em Lisboa ligar para o 912045650). Este é um projecto político: o tema do primeiro número era a traição ("Treason is like a Bible"), a partir da ideia de que no Médio Oriente se um árabe falar com um israelita pode ser visto como traidor. O segundo número, o que está em Lisboa, é sobre prisão, chama-se "Arrest Buried Under Something Else", e tem contribuições de Mohammed Abi Samra, Alena Alexandrova, Amal Issa, Zachary Formwalt, Erden Kosova, entre outros.    

"No Líbano a política está em todos os pormenores: no nosso nome, na forma como nos chamam, no nosso sotaque, na rádio que ouvimos, nas cores que usamos. Estes homens tentam evitar isso, porque aprenderam com os seus próprios erros no passado."

E ela, como artista? "Não é o meu objectivo falar directamente sobre política. Não estou interessada em falar da guerra porque para mim não há nada a dizer sobre a guerra. O que é mais interessante é como as pessoas vivem o dia-a-dia. A guerra é um drama. O que é que se pode dizer? É só trauma, drama. Nós crescemos na guerra. Quando se nasce na guerra e se cresce com ela tentamos pensar em alguma coisa mais interessante para continuar a viver. Caso contrário, morremos."

Por isso, Mounira e os homens que nadam e falam com voz de mulher falam do mar. "Aprendemos a criar o nosso mundo. Talvez tenha um metro quadrado, ou dois centímetros de imaginação, mas esse pequeno espaço permite-nos viver."

Beirute é uma obsessão

Beirute é uma obsessão para os artistas libaneses contemporâneos, dizia o arquitecto libanês Bernard Khoury numa entrevista, este ano, à revista "TAR". Entre as imagens de uma cidade ideal, a Beirute como "Paris do Oriente", cosmopolita, com uma vida cultural emocionante, praias, casinos, festas, e uma cidade destruída pela guerra civil, não há um meio-termo, explica Khoury.

Por isso, os artistas são "prisioneiros de guerra", presos num olhar que é o dos outros, do Ocidente, sobre uma cidade que só tem passado e futuro - o futuro brilhante dos arranha-céus espelhados que estão a ser construídos a um ritmo impressionante, apagando a cidade do passado. Não é por acaso que, lembra o arquitecto, o slogan da Solidere, a empresa responsável pela renovação do centro de Beirute, é "Uma cidade antiga para o futuro". Falta aqui o presente, diz Khoury.

Mounira não quer falar de política mas sabe que a política está em todo o lado e nas ruas de Beirute. "É uma cidade muito forte, não podemos viver nela e esquecer isso. Quando andamos na cidade e vemos um edifício antigo pensamos 'ainda aqui está, mas se calhar amanhã já não está'. As pessoas vendem as suas propriedades, vem um tipo rico que compra, destrói o edifício antigo e constrói um novo. A cada passo que damos vemos um novo edifício feio. E sabemos que vamos perder os antigos. Por isso para mim era mais interessante olhar para Beirute a partir do mar."

Os nadadores também não falam das mudanças na cidade (qualquer posição sobre isso é, inevitavelmente, política) mas atravessam-nas fisicamente. "Quando comecei a filmar a Corniche [a marginal] era ainda a antiga, a mesma de quando eu era criança. Enquanto filmava eles renovaram-na pela primeira vez em 30 ou 40 anos. Passou a haver mais obstáculos para os nadadores chegarem ao mar. Há cada vez mais privados a ocupar a terra e a construir nela e já não se pode nadar em muitos sítios."

Há mais de 30 anos que todos os dias, faça chuva ou faça sol, de Verão (com temperaturas quase insuportáveis), ou de Inverno, estes homens encontram-se para nadar. "Quando nós éramos crianças, o meu pai levantava-se às seis, nadava e regressava a casa para nos fazer o pequeno-almoço e levar-nos à escola. Nós nem sabíamos que ele tinha ido nadar."

Numa cidade entre o passado mítico e o futuro igualmente mítico, estes homens são o presente. São a continuidade. Beirute pode estar a mudar, a guerra pode ter durado grande parte das suas vidas, mas o mar nunca lhes falhou. As orações à beira-mar, os banhos de sol, os pequenos muros de pedras construídos clandestinamente para os proteger do vento, tudo isso é Beirute hoje e foi Beirute ontem. O presente pode não estar nos livros de história e as pessoas podem não saber como falar dele. Mas Mounira filmou-o. "Através dos olhos deles vemos a cidade agora." Beirute esteve sempre ali. O mar esteve sempre ali. Este é o presente.