Ambiente azedo e remodelação à vista na bancada do PS

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O líder parlamentar anunciou "mudanças" na bancada após o debate do Orçamento do Estado Foto: Daniel Rocha/arquivo

O ambiente anda toldado no PS. A reunião da bancada de ontem foi tensa por causa da abstenção de nove deputados que discordam de algumas alterações à lei do financiamento dos partidos e campanhas. Acabou com uma troca azeda de palavras entre José Lello e António José Seguro, em que o ex-ministro de Guterres pediu "boa educação" e "elevação política".

No fim, o líder parlamentar anunciou "mudanças" na bancada após o debate do Orçamento do Estado, a 26 de Novembro. Francisco Assis não explicou, mas todos interpretaram como uma remodelação na direcção do grupo parlamentar. Uma mudança que, sabe o PÚBLICO, pode atingir vice-presidências, mas também coordenadores nas comissões - o que exige eleições na bancada.

Um dia depois de 36 deputados terem votado pelo adiamento da lei de financiamento, incluindo dois vice-presidentes da bancada (Jorge Strecht e Mota Andrade), Seguro foi à reunião criticar a falta de debate interno sobre uma lei daquela importância. Ao contrário do que aconteceu com a revisão constitucional ou o pacote de combate à corrupção, em que os projectos finais do PS foram discutidos no grupo. E expressou as suas dúvidas quanto à possibilidade de, com esta mudança, entrar mais dinheiro vivo nos partidos.

António José Seguro chegou a dizer, segundo relatos feitos ao PÚBLICO: "Não voto leis de olhos fechados, nem leis contra os meus princípios e valores." Fez a defesa do combate "implacável" à corrupção.

Outros deputados, incluindo Jorge Strecht, um dos que se abstiveram na votação da lei, secundou as críticas à falta de debate e quanto às soluções encontradas na lei, ontem explicada pelo deputado Ricardo Rodrigues, que coordenou o dossier pelo PS.

Para o final da reunião ficou a intervenção mais polémica. José Lello criticou quem, na véspera, "deu a imagem de que há deputados mais honestos do que outros". E criticou a falta de solidariedade, numa indirecta para os vice-presidentes que votaram ao lado de Seguro. Ou ainda que, com o que se tinha passado na véspera, se passe a imagem de que há "deputados mais puros" do que outros. Seguro respondeu que "em política é preciso ter boa educação" e pediu "elevação política".

Assis revelou aos deputados que, depois de saber da intenção de adiamento de Seguro, ainda tentou que o PSD desse a sua anuência. Em vão. Mal recebida entre os deputados foi a frase em que o líder parlamentar remeteu o debate das alterações à lei a "questões de intendência".

Para a história desta reunião ficam ainda algumas frases. Uma delas, de Marques Júnior, sobre o conhecimento ou não que os deputados têm sobre o que votam em plenário da Assembleia. Em 95 por cento das vezes, confessa, ele não sabe bem o que é votado.